O petroleiro que envenenou os mares da Galiza é apenas a face visível de uma megateia de negócios escuros e lavagem de dinheiro com raízes por todo o mundo. Por detrás de tudo isto há um magnata russo, com menos de 40 anos, que enriquece todos os dias.
O Chernobil espanhol. É desta forma trágica que se pode descrever o cenário dantesco que, desde o dia 19 de Novembro, data em que o petroleiro “Prestige” se afundou ao largo do cabo Finisterra, na Galiza, derramando 77 mil toneladas de fuelóleo, marca a paisagem marítima do Norte de Espanha. Portugal tem escapado por pouco às marés negras que continuam a fustigar a comunidade galega, mas ainda não está livre de perigo, já que vários biólogos e ambientalistas crêem que o “Prestige” pode continuar a poluir até 2005 (estando neste momento a libertar 150 toneladas de crude por dia, através de 18 fissuras).
Com o “coração nas mãos”, as populações galegas aguardam por melhores dias. Mais preocupadas com a limpeza e recuperação da costa, talvez não saibam dos negócios ilícitos que estão por detrás do desastre do 'Prestige', uma embarcação construída em 1976, com bandeira das Bahamas, que levava 27 tripulantes a bordo e um armador grego. O petroleiro tinha saído do porto de Roterdão e dirigia-se a Gibraltar. Uma equipa de reportagem da revista espanhola “Tiempo” foi à procura das responsabilidades legais deste incidente e acabou por mergulhar nas águas turvas de um processo judicial, que há muito se arrasta nos tribunais.
Os contornos deste caso ainda não são ‘claros como a água’, mas já se sabe que os donos da carga do 'Prestige' fazem parte de uma rede de lavagem de dinheiro, que extrai toneladas de petróleo da Rússia (o primeiro produtor do mundo, tendo ultrapassado a Arábia Saudita), a baixo preço. Um negócio feito a partir de uma empresa adquirida irregularmente, a Alfa Group, que retira o ‘ouro negro’ através de barcos como o “Prestige”, fretados a outra empresa ‘irmã’, a Crown Resources, sediada no território de Gibraltar. Mais tarde, o petróleo é vendido e revendido no mar alto a preços bastante elevados, de acordo com as leis do mercado. Os escritórios em Gilbraltar servem apenas para simular operações que acabam por justificar o desvio de verbas, sendo que as mesmas vão parar directamente aos bolsos dos directores desta ‘sociedade secreta’.
Grande parte dessa quantia é depois depositada em ‘empresas fantasma’, radicadas na Ilha de Man (um paraíso fiscal). Estas são algumas das acusações feitas pela empresa Norex Petroleum, no decorrer do julgamento, em Nova Iorque, e que sentou no banco dos réus o Alfa Group e a Crown Resources – os donos da carga que se afundou nas águas galegas – empresas essas que fazem parte do império petroleiro do magnata russo Mijail Fridman (o nono homem mais rico do mundo, com menos de 40 anos).
Negócios ‘turvos’ Segundo os advogados da Norex, com este ‘enredo’ bem montado, o Alfa Group conseguia livrar-se do pagamento de impostos e compartir os benefícios com os restantes accionistas. Uma disputa que já não é nova, e que há uns anos atrás levou o gigante BP (British Petroleum) – Amoco e o mago das finanças, George Soros, a recorrer à justiça. As acusações eram as mesmas: nestas operações irregulares, Mijail Fridman e os seus associados usavam a companhia sediada em Gibraltar – a Crown Resorces – como ‘empresa fantasma’, útil para as operações de lavagem de dinheiro. Dinheiro esse que era repartido pelas contas bancários dos ‘gestores’, e que servia também para vender rapidamente os produtos petrolíferos a preços baixos.
Os acusados há muito que negam qualquer uma destas acusações. Mas a verdade é que desde o início do caso Prestige que o governo espanhol havia apontado o dedo às actividades ilícitas destas companhias, sediadas em Gibraltar, e que deviam ser responsabilizadas pelo desastre ecológico na Galiza. Uma situação que não é nova e levou as autoridades a caracterizarem o funcionamento destas empresas como os novos “piratas modernos”. Antes do dia 19 de Novembro, estiveram ao ponto de propor a proibição das suas operações em Espanha, mas essas medidas nunca passaram do papel. Foi preciso esperar por uma tragédia da dimensão do 'Prestige' para que os negócios ‘turvos’ do russo Mijail Fridman, voltassem a saltar para as primeiras páginas da Imprensa.
Máquina de lavar... dinheiro Conta a reportagem da “Tiempo” que, nos EUA, a então secretária de Estado Madeleine Albright, ordenou que não se concedessem mais créditos às multinacionais ligadas ao império do magnata russo, que ficou assim impossibilitado de adquirir equipamento a uma empresa do actual vice-presidente americano, Dick Cheney. O “Financial Times” vai mais longe e assegura que o Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) colocou a ‘holding’ Alfa Group na sua lista negra, o que impossibilitou a empresa de receber mais verbas. Mas nada disso impediu que os donos da carga do 'Prestige' continuassem a movimentar-se como um ‘polvo’. Para a Norex, uma das muitas empresas lesadas (que exige mais de 1500 milhões de euros de compensações financeiras) o método de lavagem de dinheiro era difícil de ser desmontado: “Tudo era feito através de facturas falsas. Serviços que a multinacional em Gibraltar dizia haver comprado a empresas fictícias na Ilha de Man, o que lhes permitia “amealhar” mais de 100 milhões de euros. A acusação acredita que a Crown Resources (cujo director administrativo é um antigo ministro da colónia, Joe Moss) foi utilizada para evitar o pagamento de mais de 30 milhões de dólares em impostos e multas.
Faxes comprometedores Mas num julgamento, as palavras de nada valem se não forem suportadas por provas concretas. Eis o que a Norex trouxe à superfície: “Destacam-se umas mensagens de correio electrónico onde se lê que está na altura de alterar as regras do jogo, de modo a que os beneficiários não sejam conhecidos”. E mais: adiantam que vão mudar o sistema de modo a torná-lo mais ‘eficiente’”. Pelo menos, é assim que termina um ‘mail’ enviado ao anterior executivo da Crown, Elliot Spitz. Agora que se conhecem os proprietários da carga do 'Prestige', resta saber se sobre eles recai a responsabilidade do acidente. Entretanto, já é público que a mercadoria ia ser comprada durante a viagem por alguma empresa.
O armador grego não quis confirmar se a carga tinha sido ou não vendida, mas fala-se na possibilidade do negócio ser mais uma das operações de lavagem de dinheiro orquestradas pela Crown Resources. Para Marc Rich, um dos mais famosos ‘traders’ de produtos petrolíferos do mundo, o caso Prestige é mais uma “frenética compra e venda de cargas, enquanto os petroleiros navegam por todo o mundo”. “Os capitães dessas embarcações conhecem bem a pressão dos mercados, na hora de tomar decisões”, conta Rich, acrescentando: “Talvez por isso, muitas das decisões em alturas críticas são tomadas por ‘traders’, refastelados num escritório com ar condicionado, com uma janela para o centro de negócios de Londres, Singapura ou Madrid”.
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