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Quando é a polícia a carregar os mortos

No Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, 15 agentes e um chefe têm como missão recolher cadáveres. E fazem-no há anos

18 de setembro de 2011 às 00:00

Um dia, António, construtor civil de 69 anos, enlouqueceu. Pegou na caçadeira e abateu sem apelo nem agravo Bruno, o enteado de 12 anos, e Paula, a companheira de 33. A seguir apontou a arma à cabeça e carregou no gatilho. O cenário era macabro. "A casa parecia um matadouro, as paredes escorriam sangue. Arrepiante". José Pedro recorda-se bem daquele 1º de Outubro de 2010. Com o colega, Joaquim Amorim, 55 anos, carregou o que restava dos três corpos para o Instituto de Medicina Legal de Lisboa, depois de a casa onde o crime ocorreu, em Janes, na Malveira da Serra, Cascais, ter sido passada a pente fino pelos investigadores da Secção de Homicídios da Polícia Judiciária de Lisboa.

Pedro é um dos 15 agentes da PSP de Lisboa que recolhe corpos. Pertence ao Serviço de Saúde da Polícia ou, como é mais conhecido na gíria, o serviço da ‘automaca’. São 15 homens de estômago forte e estão habituados, todos os dias, a encontrar os cenários mais horríveis: corpos em decomposição cobertos de larvas, pulgas e moscas varejeiras, corpos mutilados, esventrados e estraçalhados. Seja homicídio, suicídio, acidente ou morte natural, desde que os corpos estejam numa área que compreende os concelhos de Lisboa, Cascais, Sintra, Oeiras, Loures, Amadora, Vila Franca de Xira ou Torres Vedras, uma equipa da automaca responde sempre ao pedido.

A ‘campa’, a carrinha Peugeot Boxer, azul, usada no transporte dos cadáveres, como é referida nas comunicações rádio dos polícias, não cumpre horário de expediente. Há sempre alguém a morrer.

QUATRO CORPOS À NOITE

A chamada cai na central do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa (Cometlis) pelas 20h30. Os agentes Luís Carriço, 42 anos, e Fernando Pinto da Silva, 50, que entraram ao serviço meia hora antes, acabavam de jantar mas têm de se apressar. Uma mulher de 44 anos atirou-se da falésia, junto à praia da Vigia, em Sintra, ao final da tarde. São avisados por um chefe.

Numa situação normal, os agentes dirigem-se à esquadra da PSP ou ao posto da GNR mais perto da ocorrência para levantar o expediente (que contém os documentos, passados por um médico ou por um delegado de saúde, que autoriza a remoção do corpo). E só nesse momento é que são informados do tipo de serviço que os espera. Neste caso vão directos para o local onde dois agentes da Polícia Marítima guardam o corpo, resgatado pelos bombeiros, na escuridão da noite.

É um dos serviços mais fáceis. Com a carrinha a meio metro de distância, "é só levantar e carregar", refere Carriço. Daqui, o corpo é transportado para o Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa, para ser autopsiado. Mas no caminho a equipa recebe outra chamada: um homem de 46 anos morre de ataque de coração no apartamento, cerca das 22h00, em Oeiras. Como as carrinhas estão equipadas para transportar até dois cadáveres, a equipa segue logo até à Divisão Policial de Oeiras, onde recolhem o expediente.

São depois guiados por um carro-patrulha. No apartamento, o ambiente é pesado e vários familiares choram. Nestas situações a actuação tem de ser o mais discreta possível. "Temos de respeitar a dor. Mas há situações caricatas. Não foi o que aconteceu neste caso, mas já fui a residências levantar corpos em que os familiares já discutem as partilhas e até nos pedem para retirar anéis e fios de ouro que a vítima tenha postos", revela o agente Carriço.

Pelas 00h30, a automaca chega ao IML com os dois corpos para entregar. É um técnico que abre a porta e guarda os cadáveres na arca frigorífica. Mas não é desta que Carriço e Pinto da Silva vão descansar para a camarata. Nova chamada da central: "dizem que é uma morte em casa, na zona da Mouraria. Temos de ir à esquadra", comunica Pinto da Silva a Carriço.

Deitado num colchão assente directamente no chão de madeira, jaz o corpo de um rapaz de nacionalidade romena de 24 anos. Engoliu uma quantidade indeterminada de comprimidos. A Polícia Judiciária já esteve no local e não encontrou evidências de crime. Os agentes agarram os lençóis pelas pontas e num movimento rápido e certeiro encaixam o corpo no saco de borracha vulcanizada.

O colega de casa, também estrangeiro, só sabe que o romeno não tem nem familiares nem amigos em Portugal. É com algum custo que os dois agentes carregam o corpo do rapaz, através de umas escadas apertadas, do segundo andar até à entrada da rua onde está a maca de metal na qual o corpo é depositado. Da Mouraria até ao IML, por detrás do Hospital de São José, é uma viagem curta.

A noite ainda não fica por aqui, e no caminho, pelas 03h30, voltam a receber nova chamada, desta vez para Sacavém. Um homem de 76 anos foi encontrado pelo filho morto em casa. Está sentado no sofá da sala, com a cabeça tombada para trás, em frente à televisão. O corpo está ali há três dias e cheira a putrefacção mal se entra no corredor. "Mais uns dias e começava a entrar em decomposição", explica Pinto da Silva, com naturalidade.

Quatro serviços, quatro corpos. Não foi dos piores turnos mas foi mais agitado do que o anterior. Das oito da manhã às oito da noite a ‘campa’ não saiu do estacionamento do Cometlis.

AS PIORES MORTES

Em 2010, estes 15 agentes transportaram para a morgue 977 cadáveres. São cerca de três corpos por dia. E até ao fecho desta reportagem, já se contabilizavam 554. A maioria das mortes deve--se a causas naturais. "Temos muitos casos de cadáveres em decomposição. A seguir aparecem as mortes por situações de agressão (pode ser por arma branca ou arma de fogo), trucidados e suicídios", explica o chefe do Serviço de Saúde da PSP de Lisboa, António Varelas, de 49 anos, há 24 neste serviço, e 17 dos quais a geri-lo. Diz-lhe a experiência que "as decomposições são sempre o pior". Toda a equipa já apanhou, em qualquer momento, um caso destes. José Pedro lembra-se de um particular.

"Foi no ano passado e fomos chamados para recolher uma mulher morta há alguns dias, numa casa de Cascais. Estava escuro e quando chego perto do cadáver apercebo-me de que está coberto de bichos. As pulgas começaram logo a saltar para cima de nós e nem os fatos nos valeram. Quando chegámos ao comando tivemos de ir a correr para debaixo do chuveiro, vestidos e tudo".

Mas no passado seria pior. "Quando ainda estava no terreno, vestíamos a farda normal e uma bata azul. Tínhamos umas luvas como aquelas de lavar a louça mas mais grossas. Cada um tinha o seu par e no fim eram lavadas e postas a secar, tal como o oleado onde o corpo era transportado, e voltávamos a usá-las", recorda o chefe Varelas. "Actualmente já não é assim. Usam-se botas e as calças atam em baixo, para evitar que os insectos entrem facilmente. Se houver necessidade de ir a um local com muito sangue ou com um corpo em avançado estado de decomposição, existem fatos especiais que os protegem mais. E é tudo descartável. Há também uma máscara para proteger dos cheiros mais intensos".

Em alguns casos "temos de aplicar mafú [um insecticida] nas calças por causa das pulgas, é o pior", conta o agente principal Amorim. Foi o que teve de fazer quando, em Outubro do ano passado, foi recolher o cadáver de uma idosa que estava em decomposição em casa. "O apartamento estava cheio de livros até ao tecto e ela estava no meio, coberta de livros e pulgas", lembra-se. Noutra situação, o agente Ramalho lembra-se de entrar num quarto para recolher um corpo e o tecto estar coberto de moscas varejeiras: "parecia uma cena do filme ‘O Exorcista’, nunca tinha visto nada assim".

Quando há trucidados por comboios ou carros e o corpo fica em pedaços, são também estes agentes que têm como tarefa não deixar nada para trás. "Já andámos a apanhar pedaços de um corpo trucidado pelo comboio entre a estação da Amadora e a estação da Reboleira [que distam cerca de dois quilómetros]", conta o agente Ramalho. Mas se os bombeiros estavam impressionados, os agentes nem por isso.

"Quando entrei, tinha a ideia de que apanhar um trucidado por um comboio era o mais difícil. Mas lembro-me de os colegas na altura me dizerem que difícil eram os corpos em decomposição porque os trucidados ainda estavam frescos", recorda o chefe Varelas. "Na primeira semana que aqui estive apanhei as situações mais complicadas de todas: um enforcado, um trucidado pelo comboio em Belém, e um corpo em decomposição na rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa".

Se os polícias não se podem rir perante a morte, há casos em que dá vontade pelo bizarro e caricato. E os mortos que estes 15 polícias foram apanhando ao longo de anos de serviço não são tão poucos assim.

Carriço já encontrou de tudo. "Lembro-me de uma vez ter ido buscar um homem que tinha o próprio pénis na boca. O homicida cortou-lho para se vingar do homem que tinha andado com a mulher dele. Noutra vez, um outro morreu quando estava em jogos sexuais, vestido de noiva..."

PROCEDIMENTOS LEGAIS

Sempre que há uma morte, o corpo só pode ser removido com autorização do delegado de saúde, que ateste o óbito, e do procurador da República da comarca onde a morte ocorreu. Na eventualidade de se tratar de uma morte natural, e caso a família tenha a certidão do óbito, uma agência funerária pode recolher o corpo. A automaca só é chamada quando a causa da morte é desconhecida, quando se trata de crime ou quando a família exige a realização de uma autópsia.

Hoje em dia os agentes da automaca já não transportam os cadáveres sem o expediente estar elaborado. "O IML só recebe o corpo quando há um fax a informar de que foi contactado o delegado de saúde e o procurador. Há uns anos, um oficial de serviço no Cometlis ordenou-nos que transportássemos um corpo mesmo sem a documentação. Depois foi uma embrulhada, porque o IML não aceitou e o corpo ficou 27 horas na carrinha. Foi uma agência funerária buscá-lo ao comando", recorda um dos agentes.

As mortes que ocorrem na via pública ou em lugares de acesso ao público têm sempre prioridade em relação às que ocorrem em residências, mesmo que se trate de crime. Mas a burocracia atrasa sempre o processo e quando a equipa da automaca é avisada para ir recolher um cadáver, já a morte ocorreu há algumas horas.

No turno do dia, das 08h00 às 20h00, há uma equipa de dois elementos de serviço, enquanto um terceiro agente fica de prevenção para o caso de ter de substituir um colega. Além disto, uma segunda equipa de dois elementos fica também de prevenção, na eventualidade de haver alguma emergência que a outra equipa não possa acorrer a tempo.

Em oitenta por cento dos casos, os cadáveres são transportados para o IML de Lisboa e os restantes para a morgue do Cemitério da Guia, em Cascais.

SEM PESADELOS À NOITE

Se o duplo homicídio seguido de suicídio em Janes, na Malveira da Serra, impressionou o agente José Pedro, não foi no entanto o suficiente para lhe provocar pesadelos à noite. "Não levo trabalho para casa".

Até agora, não houve nenhum agente que tivesse desistido do serviço, pelo menos desde que o chefe Varelas está no Cometlis, desde 1987. "O pessoal está completamente moralizado e de camisola vestida", garante, apesar de reconhecer que da geração de polícias mais nova não houve pedidos para entrar neste serviço. "É preciso ter estômago e nem todos dão para isto".

A naturalidade e o profissionalismo com que recolhem um cadáver são os mesmos com que fariam uma detenção. Rotinados no serviço, sabem de cor e salteado o que têm de fazer e como o fazer da forma mais eficaz.

"Fui eu que optei por vir para este serviço, há cerca de seis anos. Isto não dá para andar na rua e um morto a mim é coisa que não me afecta e acho que ninguém se vai abaixo por causa disso", acredita o agente Ramalho.

António Marques, 53 anos, foi convidado a entrar na automaca em 1992. "Ainda pensei. Trabalhava nas ambulâncias e ia deixar de ajudar os vivos para lidar com os mortos. Mas habituei-me. É natural que em corpos em avançado estado de decomposição ainda fique maldisposto, ou que casos com crianças mexam mais comigo. Mas quando vou para casa, o trabalho fica no comando".

"COM CRIANÇAS CHOCA SEMPRE" (António Varelas, 49 anos, chefia o serviço de saúde de Lisboa desde 1994)

- Há quanto tempo está neste serviço?

- Vim para o Comando Metropolitano da PSP de Lisboa a 1 de Março de 1987 e vim logo para o serviço de automaca. Até Janeiro de 1991 estive no terreno. Sei que nesse período, segundo vi nos registos por curiosidade, levantei 585 cadáveres.

- Qual a situação que mais o incomodou?

- Houve uma vez que fui à Serra da Luz levantar um cadáver de um bebé que tinha morrido por asfixia no berço e tinha quatro meses de idade. Era a mesma idade que o meu filho tinha na altura. As situações com crianças chocam-nos sempre. Situações de corpos em decomposição também são complicadas.

- Quando começou a fazer este trabalho, teve dificuldades em adaptar-se?

- Enquanto estávamos aqui parados pensava um pouco como é que se aguentava isto. Nos primeiros dois meses houve um tempo de habituação.

- Mas é um trabalho difícil?

- Penso que é difícil por lidarmos com a morte todos os dias e em qualquer circunstância. Mexe sempre de alguma forma com a nossa parte psicológica em certas alturas, sem dúvida.

NOTAS

SERVIÇOS

O serviço de automaca só existe no Comando da PSP de Lisboa e no Comando da PSP do Porto.

DOENÇA

A maior parte dos cadáveres recolhidos pela automaca de Lisboa deve-se a mortes por doença súbita.

90 CORPOS

É a média dos corpos recolhidos por mês, em Lisboa. Este ano, até 11 de Agosto, havia registo de 554. Em 2010, foram 977.

MORTES

Segundo estes agentes, é no período inicial da manhã e da noite que há mais mortes.

CORPOS

Com calor, um corpo pode ficar em decomposição em três dias. O cadáver fica liquefeito.

EXPO'98

As três carrinhas Peugeot usadas no transporte dos cadáveres foram compradas por altura da Expo’98.

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