A faturar centenas de milhões de euros e presente em 50 países, os Laboratórios Bial continuam um negócio familiar.
Antes de a empresa que criou há quase um século ser notícia em todo o Mundo, devido à morte de um participante num ensaio clínico, a primeira prova de empreendedorismo de Álvaro Portela, o fundador dos Laboratórios Bial, foi convencer o dono da farmácia do Padrão a deixá-lo abrir portas às cinco e meia da manhã. O jovem aviava as receitas de quem vinha trabalhar para o Porto a essa hora, entregando os remédios ao final da tarde, antes de os clientes voltarem para casa.
No início do século XX era normal que os farmacêuticos produzissem o que vendiam, misturando os componentes guardados em boiões de porcelana, mas a concorrência só dava conta das encomendas no dia seguinte. Era difícil ter um medicamento no mesmo dia, tal como não era fácil encontrar ascensões tão rápidas quanto a de Álvaro Portela, o filho de merceeiro que, em 1908, com 14 anos, começou como paquete na farmácia do senhor Almeida, e depressa conquistou a confiança do patrão, eternizado no nome da empresa agora liderada por António Portela, membro da quarta geração envolvida no negócio familiar.
Álvaro voltou a convencer o patrão, desta vez a criar um laboratório no primeiro andar do edifício, num primeiro passo para o laboratório industrial que sonhava criar para dar resposta à procura. O nome escolhido para a parceria era Biol, diminutivo de Biologia, e só quando o registo não foi aceite é que avançou para um plano B. "Quando arrancou com a ideia, em 1919, ainda estava com o patrão, o senhor Almeida; ele era o Álvaro. ‘Bial’ é os dois ‘al’ do senhor Almeida e do Álvaro Portela", contou em 2009 ao ‘Jornal de Negócios’ o então presidente executivo, e agora à frente do conselho de administração, Luís Portela, que dedicou quase toda a vida à empresa fundada pelo avô que mal conheceu.
SUCESSOS E SUCESSORES
O primeiro sucesso da empresa, nascida com todo o capital nas mãos de Álvaro Portela – a demora no arranque, entre 1919 e 1924, levou o ex-patrão, a preferir ficar apenas como financiador – foi o Benzo-Diacol, que tratou da tosse dos portugueses ao longo de décadas, continuando no mercado ainda hoje o xarope Diacol. Os Laboratórios Bial, como as restantes farmacêuticas nacionais, beneficiavam de um quadro legal muito vantajoso. Na prática, qualquer medicamento estrangeiro podia ser copiado e produzido em Portugal, sem autorização, ou compensação, aos produtores do original.
Dado a extravagâncias, incluindo um Cadillac descapotável de cor amarela, Álvaro Portela casou-se com a filha de um militar açoriano, que não era conservadora ao ponto de se coibir de fumar ou conduzir automóveis. Do casamento nasceu o primeiro herdeiro da Bial, António Emílio Portela, que não chegou a completar o curso de Farmácia, preferindo a companhia das mulheres e a velocidade dos automóveis.
Certo é que António Emílio Portela, que chegara a ser chanceler do consulado da Colômbia no Porto, acabou por se dedicar à empresa da família, e quando o pai morreu, com 61 anos, assumiu a presidência. A partir de 1962 dedicou-se à modernização dos equipamentos e aos primeiros passos na internacionalização, mas faltou-lhe tempo para desenvolver o sonho paterno.
António Emílio morreu em 1972, com apenas 50 anos. Deixou quatro filhos de três mulheres, e a sucessão – após a transição assegurada pelo farmacêutico Duarte Rodrigues, que fora o seu braço-direito – parecia encaminhada para o primogénito. No entanto, ultrapassado o período revolucionário, com a comissão de trabalhadores interventiva e ameaças de nacionalização, em 1978 foi Luís Portela a comprar a posição dos irmãos, com os quais nunca tivera especial relação. O médico do Hospital de São João, que seguira a vocação com a bênção do pai, apesar de se ter disposto a estudar Farmácia, nascera de um amor que António Emílio não levou ao altar, sendo reconhecido e apoiado mais tarde pelo progenitor.
"Agradava-me mais a ideia de apostar na empresa, comprar a posição dos pequenos acionistas, adquirir a maioria e liderar. Ou então que o meu irmão me comprasse a mim e assumisse a liderança. Ele não quis comprar, acha-va que os tempos eram de grande desconforto político, económico, social. Terminei eu por comprar aos outros acionistas e a ele próprio", recordou Luís Portela, ao ‘Jornal de Negócios’.
Sob a sua liderança, os Laboratórios Bial, tornaram-se a maior empresa farmacêutica de capital português, sobrevivendo às aquisições por multinacionais. Além do sucesso comercial de produtos como o antibiótico Clavamox ou o anti-inflamatório Reumon, tornou-se nas últimas décadas uma empresa dedicada à investigação e desenvolvimento, área para a qual é destinada 20 por cento da faturação.
Em 2007, um ano antes da inauguração dos novos laboratórios em São Mamede do Coronado, na Trofa, foi lançado o Zebinix, um antiepilético que implicou mais de uma década de trabalho, entre a sintetização da molécula, registo de patente, testes e ensaios clínicos.
Desde 2011 que o presidente executivo é António Portela, filho de Luís Portela, a quem caberá agora lidar com uma morte num ensaio clínico.
MORTE PÕE EM CAUSA ENSAIO CLÍNICO
Foi no domingo passado que um dos participantes num ensaio clínico da Bial morreu em França, após ter sido hospitalizado, tal como outros cinco voluntários que receberam uma molécula que a empresa portuguesa planeia utilizar num futuro medicamento destinado a atuar no sistema nervoso central, com efeito analgésico. A Bial anunciou que a continuação do ensaio vai depender das conclusões de uma investigação em curso.
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