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RAIMUNDO, UM CANTOR NA MISÉRIA

Aos 16 anos deixou Viana do Castelo, rumo a Lisboa, atrás de um sonho: ser cantor. Depois de ser uma das vozes mais promissoras de Portugal, chega aos 52 anos sem glória nem futuro.

05 de outubro de 2003 às 17:29

A história, dramática e real, dá que pensar. E pode servir de alerta a todos os jovens que participam em programas como ‘Operação Triunfo’ e ‘Ídolos’, à procura de um lugar ao sol. Afinal a fama pode ser efémera, e lutar contra isso será, porventura, o maior desafio da vida de todos eles.

Raimundo nasceu em Viana do Castelo, a 23 de Julho de 1951, e cedo descobriu o prazer da música. Ainda jovem, começou a fazer pequenas actuações nos intervalos de vários espectáculos. “Até que um dia me disseram que eventualmente podia entrar no Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional”, relembra o ex-cantor.

Apesar dos seus 16 anos, não hesitou, e partiu para Lisboa, atrás de um sonho. Sonho esse que o levou a conhecer, de perto, o mundo da construção civil - Raimundo trabalhou nas obras para pagar os estudos. Mas valia a pena e a carreira de cantor parecia ao seu alcance. “Primeiro estive no Centro de Preparação de Artistas Marcos Vidal, e depois entrei, na escola da Emissora Nacional”, recorda. Por ali esteve oito meses, tempo suficiente para ver algum do seu valor reconhecido. Em 1970 participou, com dois temas, no Festival da Canção da Figueira da Foz. Uma estreia que não podia ter corrido melhor: as duas músicas ficaram classificadas em segundo e quarto lugar. Foi também durante este período que recebeu os primeiros salários. “Ainda tenho na memória a primeira vez que me pagaram”, conta, evocando o momento em que lhe entregaram 300 escudos para a mão.

Pouco depois, embarcaria na aventura da edição discográfica. Os seus primeiros anos ficam marcados pelo lançamento dos singles ‘Gisela’ - que se revelou um marco para o cantor - e ‘Cidade em Flor’. Mas Raimundo ainda faria chegar mais títulos aos escaparates das discotecas - temas que abraçavam a música ligeira portuguesa, e outros mais populares, como ‘O Barqueiro’ (este, para além de edição discográfica, ficaria em segundo lugar no concurso Rei da Rádio, como garante o intérprete).

O AMIGO QUIM BARREIROS

Os seus trabalhos foram editados com vários selos – nomeadamente com o da Arnaldo Trindade, uma das maiores empresas do sector naquela época - e Raimundo subia ao palco ao lado de nomes como António Calvário ou Paco Bandeira, tendo feito a sua primeira digressão nos Açores.

‘Algo em que sonhar’ seria o primeiro álbum do cantor, que agora vê os seus sonhos reduzidos a muito pouco. Mas a música estava-lhe no coração e na alma, não havia nada a fazer. Nem mesmo quando esteve na Guiné, a cumprir o serviço militar como condutor, deixou de fazer espectáculos. A audiência é que era diferente, com a plateia cheia de soldados portugueses, destacados para as ex-colónias.

Pelo meio, Raimundo ainda experimentou a revista portuguesa, onde cantava e interpretava pequenas cenas, e integrou diversos festivais - o Festival de Aranda del Duero, em Espanha, chegou mesmo a lançá-lo como uma das vozes nacionais com mais potencial para alcançar o ‘céu’. Nesse concurso, que decorreu na década de 70, o cantor vianense bateu todos os intérpretes, espanhóis e portugueses, com o tema ‘Gisela’.

Foi nessa altura, que Raimundo conheceu Quim Barreiros – o famoso intérprete de ‘Quero cheirar teu bacalhau’- com quem viria a formar uma banda: o Super Trio, responsável por dois discos e algumas mega-digressões pelos Estados Unidos, Canadá e França. É o próprio Quim Barreiros que, recorrendo à memória, evoca o encontro de ambos. “Foi durante umas gravações efectuadas por ele no antigo estúdio da Musicorde, em Lisboa”, que serviriam para uma “digressão que vários artistas , entre os quais eu próprio, iam fazer nos Estados Unidos da América e no Canadá”. Partiram então para a tal digressão, na qual Raimundo voltou a fazer sucesso. “Ele tinha uma boa apresentação e cantava muito bem”, atesta Quim Barreiros, que durante essa viagem percebeu que já tinha o seu público ‘na mão’ e que podia abdicar das digressões colectivas. Foi, aliás, nesse momento, que propôs uma sociedade a Raimundo. Os dois, e o baterista Nucha, escreveriam a apartir daí a história do Super Trio.

Quim Barreiros ainda se lembra bem da primeira digressão a três. Escusado será dizer que foi uma autêntica aventura, com os três a percorrerem milhares de quilómetros, por vários estados americanos, num simples furgão, que servia também de reboque a todo o material de som e aos instrumentos.

Em termos financeiros, a viagem não foi tão auspiciosa. “Gastámos muito dinheiro com a compra do material e do furgão”, conta Quim Barreiros. Quando a série de espectáculos terminou regressaram a Portugal e Raimundo abdicou do papel de sócio. A partir daí, passou a ser pago ao espectáculo, tal como acontecia com o baterista. Para além disso, amelhava algum com a venda de discos - tanto do Super Trio, como dos que gravou a solo. Em vésperas da terceira digressão do trio, e segundo afirma Quim Barreiros, Raimundo terá entrado em contacto com uma banda famosa na altura - os Anangarranga – e desistido da companhia dos outros dois. Para o substituir, Barreiros recorreu ao cantor Alfredo Braga, que actualmente canta com o nome artístico de Graciano Saga. A partir daqui, e durante vários anos, Barreiros perdeu o rasto a Raimundo, sabendo, porém, que o projecto dos Anangarranga tinha falhado.

O destino voltaria a juntá-los quando o autor de ‘Mestre de Culinária’ precisou de um cantor para uma digressão internacional. “Na altura, disseram-me que estava a actuar num bar em Lisboa e fui falar com ele, para ver se estava disposto a fazer uma digressão por França”, recorda o cantor popular. Raimundo aceitou, mas Quim Barreiros percebeu que a sua saúde estava muito debilitada. Mesmo assim, os espectáculos foram para a frente.

No regresso a Portugal, a dupla voltaria a desfazer-se. “Tínhamos um espectáculo agendado para a Covilhã e o Raimundo, que vinha de Lisboa, não apareceu. Como não podia ter a sua formação “dependente de situações como essa”, Quim optou pela separação definitiva, logo nos primeiros anos da década de 80. Raimundo contrapõe esta versão e diz que se aborreceu com o autor da ‘Garagem da Vizinha’ por causa de dinheiro. “Não me pagou o que devia e depois fui posto de parte”, afirma. Palavras mais uma vez contestadas por Barreiros, que não deixa, todavia, de elogiar o talento do ex-companheiro: “Tinha tudo para ser um grande senhor da música portuguesa e, infelizmente, foi devorado pelo tempo."

Raimundo sabe que teve a ‘vida nas mãos’. Com notória mágoa nos olhos, vai descrevendo o declínio da carreira. “Depois das digressões com o Quim Barreiros, os espectáculos começaram a escassear”, narra. Como não tinha repertório próprio, foi recorrendo a trabalhos pontuais - de estúdio - e fazendo alguns espectáculos, já sem a banda e muitas vezes recorrendo ao ‘playback’. Depois “tudo parou e o meu nome apagou-se”.

Félix, outro músico que o conhece de perto, atribui à personalidade do cantor as culpas pelo declínio. “Nunca se adaptou à luta artística de Lisboa.” Por ser essencialmente um intérprete, foram-lhe retiradas muitas hipóteses de trabalho. É que “havia bastantes vozes boas em Lisboa e a concorrência era muita”, diz Félix. Apesar disso, ainda sobe ao palco em 2000, em Castelo Santiago da Barra, em Viana do Castelo. “Não correu na perfeição. Ele estava muito ansioso”, conta.

Separado da mulher com quem casou aos 27 anos – e que lhe deu dois filhos – e a viver de uma pensão de 40 contos e da ajuda dos irmãos, Raimundo, “o anjo que caiu”, luta agora por um último fôlego. O seu maior desejo é fazer uma digressão pelas comunidades lusófonas, e assim terminar com dignidade a carreira.

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