Ana Teresa Antunes é uma figura ímpar no meio artístico português. Com um curso de Artes Plásticas, ganha a vida no cinema. Melhor: no cinema pornográfico. É ela que grita “Acção!” pouco antes de a acção começar.
Verão de 2001. No meio de uma exposição de arte é montado um pequeno estúdio de filmagens. Durante dois dias, decorrem ali as gravações de “Fantasia na Galeria”, película de Ana Teresa Antunes, que, para todos os efeitos, terá o nome inscrito na tão procurada cassete de vídeo como “Rita Ruby”, pseudónimo utilizado num meio quase sempre pouco artístico.
A história do filme, curta, como se espera de uma produção pornográfica, aborda a trajectória de uma artista que pretende ver a sua obra exposta, custe o que custar. Para tal, terá de oferecer os préstimos a uma galerista ávida de sexo. O resto é o normal num filme “para maiores de 18”: gemidos, posições dignas do Kama Sutra e relações sexuais em catadupa.
Pouco usual, mesmo, só o facto de as filmagens funcionarem também enquanto performance artística. Para esse efeito, as paredes tinham uns pequenos furos que tornavam a peça em algo mais directo, uma espécie de “peep show” fora dos locais habituais. Havia por lá quem não conseguisse resistir a dar uma espreitadela, mas a maior parte do público optou por assistir à projecção do filme numa parede do jardim.
Ana concebeu a peça para contribuir de forma significativa para a exposição organizada pela Galeria Quadrum, já que o porno apareceu na sua vida quase por acaso – é licenciada em Artes Plásticas. “Aconteceu quando, a determinada altura, pediram para escrever alguns textos para uns filmes. Mas estava longe de pensar que iria fazer parte do meio”, disse ao CM no ano passado. Enganou-se. A partir daí descobriu uma vocação escondida e nunca mais parou de conceber películas para adultos, que, apesar de terem melhorado, ainda considera “muito pobres quando comparadas com a maior parte das produções realizadas na Europa, estando mesmo a grande distância de alguns dos melhores filmes norte-americanos”.
OS FILMES ENQUANTO MONTRA
Hoje, Ana Teresa Antunes é uma versão feminina de Sá Leão, o conhecido realizador de filmes pornográficos, lançado para a ribalta através de um programa de televisão da SIC (“Noites Marcianas”) e autor de um programa na SIC Radical (“Ah, Leão”). Os meios parecem ter compensado os fins, e é pouco provável que um português com menos de 25 anos nunca tenha ouvido falar dele. Ana por seu lado, vê-se apenas como uma pessoa que sempre teve um certo apego pelo tema e que, utópica como qualquer jovem, teve a ilusão de poder mudar um género.
“Quando comecei a filmar, tinha a ideia de que podia alterar uma série de coisas e transformar esta indústria, que em Portugal não existe, em algo artístico. É possível fazer melhor, mas não se pode esperar milagres. A pornografia jamais será uma forma de arte. Jamais conseguirá ultrapassar aquela frieza das filmagens, porque, apesar de uma ou outra inovação, num filme destes é o acto que interessa”, confessa, sem com isso se sentir desapontada.
No entanto, para dar um salto em frente no que toca à qualidade dos filmes, a artista resolveu propor aos donos da MM Multimédia, responsável pela edição do já clássico “Fim-de-semana Lusitano” – vendeu até hoje cerca de 20 mil cópias –, uma alteração na forma como é encarado todo o processo cinematográfico. Assim nasceu a produtora Vídeo 2001, com o intuito de dar um outro alento ao porno “made in Portugal”, mais bem elaborado e num registo profissional q.b..
À falta da verdadeira arte na pornografia, Ana segue um outro rumo, tentando com os seus filmes divulgar algumas obras, não só dela como de ex-colegas das Caldas da Rainha, onde tirou o curso, e dos mais diversos artistas. As produções acabam, assim, por servir de montra para um possível comprador que, entre o intervalo de duas cenas ‘hardcore’, se decida a investir num quadro.
“Acaba por ser engraçado, pois alguns dos cenários que costumavam ser mais frios nestes filmes ganham outra dimensão quando está lá uma obra de arte. E aproveito para dar a conhecer os trabalhos de artistas portugueses de uma forma, no mínimo, original.”
Com esta tão original estratégia ganham os filmes e, se tudo correr bem, os artistas plásticos. Porque, afinal, se a arte pode ter pornografia (veja-se o caso de alguns dos mais polémicos criadores da actualidade) porque é que o contrário não pode ser uma realidade? Faltava apenas alguém que o fizesse. Aconteceu em Portugal.
FILHOS DO ‘TRIPLEX’
A história de personalidades que começaram as suas carreiras através da ligação ao mundo do cinema pornográfico não é nova. No estrangeiro, em especial nos Estados Unidos, onde essa indústria é muito forte, várias são as caras conhecidas que têm um passado ligado ao género. Do diz-que-disse à verdade absoluta, são muitos os nomes apontados. Um dos mais famosos é o de Sylvester Stallone, que antes de ser um John Rambo ou um Rocky Balboa andou a passear os músculos pelos filmes para adultos, quase sempre ‘softcore’ da pior qualidade possível. Para ele, a escalada para a fama foi bem dura e obrigou-o a entrar em películas de que, por certo, se arrepende. Mas no feminino também existem exemplos.
Conta-se que a cantora Barbra Streisand esteve envolvida nos filmes ‘triple x’, mas certa mesmo só a presença nessas películas de Victoria Principal, estrela da interminável saga televisiva “Dallas”. Além dela, e se se fizer excepção aos tórridos vídeos caseiros de Pamela Anderson e Tommy Lee, a lista é ainda composta por Traci Lords, autêntica diva do ‘hardcore’ na década de 80 e hoje presença no cinema dito ‘normal’ – embora de “série Z”. Teve mais sorte do que outras colegas que tentaram dar o salto, como Ginger Lynn Allen, que após uma tentativa mal sucedida de sair do porno acabou por voltar às cenas de sexo. Para ela, a falta de talento falou mais alto.
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