Escritor de ‘Trás-os-Montes, o Nordeste’ mostra a sua “terra dura como cornos”.
No "tempo áureo da infância" de J. Rentes de Carvalho, hoje com 87 anos, deviam morar em Estevais, mais de três centenas. "Na época das festas duplicava o número de pessoas e isso acontece hoje ainda, alguém vem de Angola ou do Brasil só para passar um mês aqui. Pela última contagem feita, éramos oitenta mas, no ano passado, foi uma hecatombe e morreram dez em dois ou três meses. Para nós é trágico, pois a aldeia fica vazia", conta sentado num degrau da entrada da casa que o seu avô paterno construiu para a filha de 13 anos, e que ele recuperou para passar os dias da sua vida que tira a Amesterdão, a cidade holandesa onde vive quando não vive na pequena aldeia do concelho de Mogadouro. Um avô "visionário, a querer criar o futuro, tendo a certeza, não só de que a filha casaria, mas que viria ele a ser avô de um rapaz, para quem também já desenhara o futuro: o neto aprenderia para ser guarda-livros e iria para o Brasil, retornando a Estevais, se não milionário, de certeza rico".
J. Rentes de Carvalho que ali foi rodeado de jornalistas - tantos que quase não se deu pelos habitantes da aldeia -, depois da apresentação na sede do concelho do livro ‘Trás-os-Montes, o Nordeste’, da coleção ‘Retratos’, editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, sentou-se no mesmo local onde tantas vezes pousou em rapaz.
Nessa altura, as ruas de Estevais eram de "uma sujidade medieval. De Setembro à Primavera mantinha-se nas aldeias o hábito secular que durou até fins dos anos 50, de cobrir as ruas com palha, que depois, molhada da chuva e das penicadas de mijo e bosta que se atiravam das janelas (...) calcada pelos passantes e os animais, fumegava e fermentava até que, podre bastante, fosse recolhida para ser levada para as hortas, os amendoais e olivais, seu único e muito biológico adubo", escreveu no livro. Uma altura em que os rapazes como ele não brincavam propriamente - o que "fazíamos era rebolar uns nos outros e bater uns nos outros, quer dizer não havia o aspeto lúdico. No máximo brincávamos à bruta; um a fazer de burro e outros a montá-lo", conta-nos agora desse passado que, contas feitas, não é tão distante assim.
Desses rapazes, o filho do guarda-livros que foi nascer a Gaia e só ia a Estevais pelas férias e que agora na apresentação do livro disse que "não consegue evitar um sentimento de culpa e vergonha, porque se fui testemunha, as privações que sofri e, curiosamente não as senti como tal, sofriam-nos os pobres, ricos, remediados, ou pedintes: a terrível e inimaginável, ameaça da falta de água; ausência de higiene; a tuberculose, o tifo, a malária, o antraz"; lembra que desses rapazes estão já "todos mortos, à exceção de meia dúzia" e que a maioria ficou onde nasceu.
Ao contrário de tantas outras, "a nossa aldeia é de poucos emigrantes, diziam que por apego à terra, mas era por medo do estrangeiro. Eles ouviam as histórias daqueles que tinham ido para França e para a Alemanha".
Os que ficaram e ainda resistem têm "uma média de idades que está nos oitenta. Temos alguns centenários. Temos também um rapaz de 43, dois de 60, dois bebés e duas mulheres com capacidade de procriar. É a morte lenta." Semelhante matemática estender-se-á por outras áreas do Interior português, mas J. Rentes de Carvalho foi chamado para escrever sobre Trás-os-Montes - e fê-lo em apenas um mês -, mas escolheu um certo Trás-os-Montes, um enclave limitado aos concelhos de Mogadouro, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e Alfândega da Fé, porque é este o seu chão transmontano "onde o arado pouca terra encontra, e essa seca como cornos".
O DR. ZECA
Para trás no passeio da comitiva tinha ficado o lagar de azeite construído em 1949, que primeiro trabalhou a vapor, depois a diesel e agora labora ainda, mas a eletricidade, e Palmira Pimentel, arranjada no seu melhor traje preto, a viúva do "dr. Armando Pimentel que faleceu aos 95 anos" e que sobre Rentes, amigo do marido, afiança que "a gente tem muito orgulho em o ter cá".
Palmira nasceu em Estevais e ali ficou. Tem 84 anos. "Se não houver uma injeção de vida, dentro de vinte anos as pessoas, se ainda tiverem possibilidade de respirar, vão para um lar ou vão-se embora. Não me quero orgulhar, mas eu e a minha mulher somos uma espécie de injeção de vida para esta aldeia, quando chega ao fim da época ficam a pensar se eles vêm, quando eles vêm" .
Fernando Bento é "um rapaz de 62 anos" que nasceu em Estevais "naquela maternidade" - diz e aponta para a casa onde a mãe de 89 anos mora desde sempre. Foi professor de educação física e está aposentado. Depois de ter dado aulas em Aveiro e em Moncorvo, retornou. "Há várias formas de ver a coisa mas não é tão mau, nem tão bom como as pessoas pensam. A maioria admite que isto é bonito mas só para coisa de dois ou três dias, outros há que até acham que não temos sequer televisão, mas o nosso principal problema, e isto está muito diferente do que já foi, as ruas estão mais limpas, é com a saúde, porque isto aqui é só gente que precisa de médico porque tem muita idade. Ainda temos dois cafezinhos, a mercearia que era dos meus pais fechou, mas ainda vêm aqui quatro carrinhas de pão", conta, e embalado pela novidade da entrevista, aproveita para revelar com estrondo que ele - o escritor, autor de ‘Com os Holandeses’ ou ‘O Meças’ - "é aqui chamado de Dr. Zeca e que esta coisa de falar muito de Estevais até é recente. Mais, o nome dele é José Avelino como o meu pai e por isso muita da correspondência era deixada pelo carteiro em nossa casa por engano".
SEMPRE MALDISPOSTO
No livro que "não vai agradar a gregos nem a troianos" - como especulou Francisco José Viegas na apresentação à pinha na Biblioteca Municipal de Mogadouro, "eleita a mais bonita de Portugal", como frisou o presidente da câmara -, não escapa sequer referências à sexualidade dos transmontanos, mas Rentes explica: "Pode-me citar qualquer notícia que, desde D. Afonso Henriques, tenha falado de homossexuais transmontanos? Será que os não há, como também não há na Coreia do Norte e no Zimbabué?".
Nem o facto de no progresso sempre prometido a cada eleição - "a mentalidade dos autarcas terá de mudar, não no sentido de inveja ou rivalidade, mas recordando a sabedoria, sempre aconselhada, mas raramente levada a efeito, de que a união faz a força" - seja cumprido mas fique algo sempre como anedota como a da estrada finalmente alcatroada à exceção de quatro quilómetros. E se "há fundos ou subsídios a distribuir, vão primeiro para os familiares e amigos do que tem a bolsa na mão. Para os restantes fica a promessa que da próxima vez será".
Escreve sobre estas coisas J. Rentes de Carvalho em ‘Trás-os-Montes, o Nordeste’: "O resto é um trinta e um de boca que de governo para governo nos promete mundos e fundos, mas resulta sempre como banha de cobra. Prometem, garantem que querem desenvolver o turismo. Mas estudaram o assunto? Há planos de verdade? Coordenação? Meios? Fizeram um apanhado das infraestruturas? Não acham curioso, para não dizer tristemente cómico, que Mogadouro disponha de um aeródromo, pretenso chamariz para turistas endinheirados que cheguem pelos ares, mas que na vila não haja um hotel?"
Foi daqui que a comitiva chegou e que no dia seguinte, à tardinha, regressou a Lisboa em hora e meia.
PODER & MALABARISTAS
"O transmontano tem queda para a política"
Sobre políticos e caciques escreve no livro "que é esse o drama de uma região que, por continuar pobre e atrasada, facilmente se torna presa de interesses particulares, de um caciquismo e clientelismo cuja única vantagem será a de poderem originar interessantes romances de costumes".
Mas caciques não é um exclusivo vosso...
Só que aqui tem um aspeto muito particular porque se torna dinástico. O poder passa de pai para filho. Nunca muda a rédea, mas sempre de forma muito subtil e carinhosa.
O que se pode fazer?
Tem a ver com a educação, a consciencialização e a politização das crianças, mas isso é um trabalho que demora gerações.
Porque que é que há tantos políticos da nação de origem transmontana?
Até assassinos, malabaristas das Finanças e, claro, também políticos. Acho que o transmontano tem uma queda especial para a política, porque é uma maneira fácil e rápida de enriquecer ou, pelo menos, de ganhar importância.
TRANSMONTANOS VS. ALENTEJANOS
Polémica
Acha que o seu livro pode ser tão polémico como ‘Alentejo Prometido’ de Henrique Raposo, também editado na coleção ‘Retratos’?
Creio que não lembraria a nenhum transmontano ir, como foram os alentejanos, cantar a raiva deles na apresentação de ‘Alentejo Prometido’. Menos ainda fazer ameaças de morte em público ou na internet. E peço desculpa, mas esse género de manifestação é um bocadinho primitiva. Se fosse o caso, felizmente não é, os transmontanos davam-me uma mocada quando ninguém visse.
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