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Retratos ao serviço da Ciência

A ilustração científica portuguesa vive um bom momento. Ilustradores dão cartas no país e lá fora

24 de novembro de 2013 às 11:00

Pedro Salgado gosta tanto de desenhar peixes que os procura no seu habitat. Com marcadores especiais e folhas de plástico, já mergulhou para melhor retratar os seus animais preferidos.

Não é uma mera paixão. Há mais de 20 anos que a ilustração científica é a sua principal ocupação profissional. Este biólogo de 53 anos percebeu nos tempos de estudante que havia uma oportunidade de seguir a paixão de juventude. "Durante o curso de Biologia – entrei em 1978 na Faculdade de Ciências de Lisboa – fazíamos trabalhos em que éramos obrigados a desenhar animais. Oferecia-me para fazer as ilustrações. Comecei a perceber que havia um deserto nesta área em Portugal, ninguém se dedicava a desenhar."

Poucos anos depois, um outro estudante de Coimbra chegava a conclusão semelhante. Fernando Correia cursou biologia no início dos anos 80 e, tal como Pedro Salgado, encarregava-se alegremente de trabalhos dos quais os colegas fugiam: "Sempre que havia trabalhos de grupo em que era preciso desenhar um animal era eu que me oferecia. Os desenhos eram bons, tanto que houve professores que me pediram para fazer ilustrações científicas para os seus trabalhos. Comecei a ser pago e percebi que a ilustração podia ser uma via profissional", conta o ilustrador de 46 anos.

Pedro Salgado estabeleceu-se como designer em regime de freelancer por volta de 1985, mas a qualidade das suas ilustrações deu um salto quando, em 1989, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Foi na América que começou a dar formação na ilustração científica e viveu depois durante seis anos no arquipélago das Canárias, onde fundou um ateliê de desenho. De regresso a Portugal, continuou a ensinar novas gerações – neste momento dá aulas em quatro universidades do Porto e de Lisboa.

Em 1988, também Fernando Correia se estabeleceu como freelancer na área da ilustração. Oito anos depois, foi convidado a lecionar uma cadeira de ilustração científica na Universidade de Évora, retomando uma prática que se havia perdido. "Durante muitos anos, as cadeiras de ilustração foram o parente pobre dos cursos de biologia. Eram dadas por pessoas que não tinham qualquer vocação, até professores de matemática eram chamados a ensinar", conta o professor que hoje é docente na Universidade de Aveiro, onde dá aulas e dirige o Laboratório de Ilustração Científica.

NOVA GERAÇÃO

Telma Costa, Filipe Martinho e João Carvalho pertencem a uma nova geração de ilustradores. Quiseram falar com a Domingo na escola onde se conheceram. Foi no Instituto de Artes e Ofícios, da Universidade Autónoma de Lisboa, que se inscreveram, em 2007, num curso de iniciação à ilustração científica. O formador era Pedro Salgado. Depois, os três fizeram o mestrado da Universidade de Évora, em que tiveram como professor Fernando Correia. A amizade entre os três já os levou a fazer exposições coletivas.

Dos três, Telma Costa, bióloga marinha de 30 anos, é a única que vive em exclusivo da ilustração científica. "Faço trabalhos para investigadores, museus, parques naturais e outras instituições. Trabalho para Portugal e para o estrangeiro, mas nos últimos meses tem havido menos encomendas." A crise também chega à ciência.

Filipe Martinho, de 35 anos, é médico veterinário e para ele a ilustração científica é mais um hobby. Mas lembra alguns trabalhos que vendeu para fora: "Fiz a ilustração de um ‘yalkaparidon coheni’ – um marsupial da Austrália já extinto. Foi muito interessante porque o desenho nasceu da colaboração com antropólogos que estavam na Austrália e iam dando indicações sobre como seria o aspeto do animal."

João Carvalho, de 45 anos, é engenheiro químico e para ele a ilustração científica é uma paixão. "Do que mais gostei quando me inscrevi no curso foi descobrir que havia mais gente a partilhar o meu gosto por estar no campo a desenhar. Afinal não é assim tão estranho ficar fascinado com um osso ou um esqueleto e querer reproduzi-los no papel."

ANIMAIS PREFERIDOS

A um ilustrador científico pede-se que seja versátil, não só no tipo de criatura a desenhar, mas também nas técnicas. "É preciso dominar o desenho e as técnicas de pintura que vão desde a tinta-da-china, aguarela, guache e outras", diz Pedro Salgado. Fernando Correia foi pioneiro em Portugal na utilização do computador e hoje faz quase o todo o trabalho no ecrã. "Parto de um esboço feito com lápis de grafite, que depois digitalizo. Trabalho a ilustração no computador."

As encomendas podem ‘obrigar’ os ilustradores a retratar todo o tipo de seres, mas os autores admitem preferências. "Sou conhecido sobretudo pelas ilustrações de peixes", conta Pedro Salgado, que tem no curriculum vitae a indicação da idade com que desenhou pela primeira vez uma criatura com barbatanas – aos cinco anos.

Fernando Correia tem feito de tudo um pouco, mas prefere mamíferos ou insetos. Não é grande fã de répteis: "Quando se chega à parte da cauda, temos de desenhar o mesmo padrão vezes sem conta, torna-se repetitivo". João Carvalho é um apaixonado por mamíferos, sobretudo cetáceos. Orgulha-se "de uma série de ilustrações que mostram como as baleias evoluíram a partir de um animal terrestre que regressou ao mar e passou a viver na água em permanência". Filipe Martinho gosta especialmente de ir ao campo fazer sketchbooks (cadernos de desenho) e tem especial predileção por aves. Telma Correia é uma confessa fã de peixes, "sobretudo tubarões".

A ARTE DO RIGOR

Ilustração científica e arte são dois territórios que se podem cruzar, mas há exigências que não podem ser ignoradas. "Quem faz uma ilustração tem de ser paciente. Estamos a divulgar ciência e todos os pormenores são importantes. É um trabalho que exige que passemos muitas horas a olhar para um animal ou uma planta", explica João Carvalho.

O preço de uma ilustração define-se habitualmente pelo tempo de execução. "Já fiz desenhos de 30 euros, ilustrações simples e pequenas ou coisas grandiosas, como um mural de cinco metros que fiz para o Museu do Mar, que incluía várias espécies e demorou dois meses. Custou milhares de euros", conta Fernando Correia.

A forma como se toma contacto com os animais a retratar também é muito diversa: "O ideal é trabalhar com animais vivos, mas nem sempre isso é possível. Desenho muitos peixes, normalmente tenho como modelos animais mortos. Mas pode trabalhar-se a partir de fotografias ou outras ilustrações", diz Telma Costa. Nos trabalhos internacionais, trocam-se muitos e-mails até se chegar ao resultado final.

Pedro Salgado explica a vantagens da ilustração científica sobre a fotografia: "Podemos destacar os pormenores anatómicos mais interessantes, conforme o que se quer evidenciar." Lembra uma ideia que transmite sempre aos seus alunos: "O desenho é uma linguagem universal. O mercado de um bom ilustrador é o Mundo inteiro."

CAIXA

AFINAL, OS DINOSSAUROS TINHAM PENAS

fernando Correia especializou-se no desenho de animais pré-históricos. Muita coisa tem mudado na forma como se representam estas criaturas: "Antes, todos os dinossauros eram verdes, com pele de réptil e uma grande cauda a rojar o chão. Hoje sabemos que alguns tinham penas e as ilustrações mostram as diferenças." Pedro Salgado conta que um das ilustrações que mais o marcou foi a de um leedsichthys, um peixe já extinto, que publicou na ‘National Geographic’. "Só existem registos fósseis e não podemos ter a certeza absoluta de qual o seu aspeto original."

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