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O autor do blogue masculino mais lido edita um livro “para perceber a cabeça dos homens”
A camisa branca não tinha um vinco fora do sítio e a pele da cara estava mais cuidada do que a de muitas top model. Ao final da tarde, ‘O arrumadinho' mantinha o ar impecável de quem saltou do duche matinal. Afinal, o blogue criado "para perceber a cabeça dos homens" e que tem cerca de 15 mil leitores diários mais não é que um "alter-ego" de Ricardo Martins Pereira, 35 anos, jornalista da revista ‘Sábado'.
"Falar do que todos querem saber na bloguesfera" ditou o sucesso que deu em livro, em breve editado pela Oficina do Livro. Se for conotado como uma espécie de ‘O Sexo e a Cidade' no masculino, tanto melhor. "Adoro a série", diz ‘o arrumadinho', casado com a bloguer ‘Pipoca mais doce'. Entre outras dicas, o livro aconselha "encontros nas esquinas" e "sms picantes" para manter a chama e pede às mulheres que fantasiem a performance sexual para alimentar o ego dos homens.
- O blogue surgiu numa altura em que achei ser importante haver na blogosfera uma voz masculina diferente daquelas que só falam de futebol, carros. Uma voz mais verdadeira, cara a cara e sério, que falasse das coisas que interessam aos homens, mas sem ser o machão tradicional, que acha que as mulheres têm de se subjugar a um homem, só pensam em carros e futebol. Os homens também têm sentimentos. E não havia nenhum blogue em que um homem falasse efectivamente disso.
- Isto é o que se passa na mente dos homens da sua idade ou é transversal a todas as gerações?
- Acho que é transversal aos homens que passaram por estas diferentes fases e dentro das idades pelas quais passei. Falo entre um rapaz de 18 e um homem de 35, que passou pelas fases de solteiro, casado, divorciado e agora casado outra vez. E espero ficar por aqui (risos). Consigo, de alguma forma, falar com experiência de causa. Ou seja, a maior parte das histórias, principalmente no capítulo de solteiros, não são só histórias minhas, são histórias que se passam ao meu redor. Para as pessoas entenderem o que se passa na cabeça de um homem têm de ter uma pluralidade de opiniões. O que tento é descrever, perante determinada situação, como é que um homem reage. Aliás, no início o blogue era quase um alerta para as mulheres entenderem como é que os homens verdadeiramente pensam e reagem sobre determinadas situações. O título do livro surge também do feedback que tenho dos leitores, da quantidade de e-mails que recebo.
- Não tem medo da exposição?
- Há uma esfera íntima da qual não passo. A minha regra é falar no blogue de tudo o que falaria num restaurante sem ter problemas em que a pessoa que estivesse ao lado ouvisse a conversa. Dizer que fui de férias para o Brasil ou jantar a determinado restaurante não é entrar na esfera da intimidade. Acho que isso nem sequer é uma exposição, é algo que diria aos meus amigos, sobre o qual posso sem problemas.
- Existe esse cuidado a partir do momento em que as pessoas sabem quem nós somos. Isso aconteceu com ela a partir do momento em que lançou o livro e teve necessariamente que aparecer e dar a cara. Até 20o9 ninguém sabia quem ela era, pois tapava sempre a cara no blogue. Mas a partir do momento em que dá a cara é diferente, começamos a ter outro tipo de preocupações..
- Que tipo de preocupações são essas?
- Quando ninguém nos conhece podemos falar do que nos apetecer. Não falo das coisas que considero verdadeiramente intímas, mas se ninguém soubesse quem eu era podia falar do que bem entendesse e tinha muito liberdade para o fazer. Por exemplo, se um amigo meu tivesse uma atitude incorrecta eu falaria disso no blogue se ninguém soubesse quem eu era. Porque isso nunca se iria voltar contra mim.
"AS MULHERES NÃO ENTENDEM OS HOMENS"
- Isto interessa a quem, mais a homens ou a mulheres?
- Noventa por cento das pessoas que me seguem são mulheres,entre os 25 e os 35 anos. Recebo uma quantidade enorme de e-mails de pessoas a perguntarem todo o tipo de coisas, e essas sim expõe toda a sua vida. Sobretudo querem conselhos, querem entender o que é que um homem, é sempre um homem que está em causa, pensa. Acho que as mulheres não entendem as reacções dos homens, mesmo as mulheres casadas, e expõe-me questões do género: ‘achas que ele me está a trair?' ou, como aconteceu recentemente, ‘achas que devo abortar''. Isto vai até este ponto.
- Considera-se um conselheiro dos tempos modernos?
- Sou o amigo desconhecido e como tal as pessoas podem perguntar o que querem. E como estou também descomprometido posso dizer aquilo que verdadeiramente penso sem ter outro tipo de preocupação. Posso ser 100% sincero, o que se calhar o melhor amigo dessa pessoa não pode ser porque tem medo de a ferir, ou conhece a outra parte. E não respondo de qualquer maneira. Muitas vezes a resposta final que dou surge na sequência de uma troca de e-mails, em que faço uma série de perguntas de enquadramento de toda a situação. Tento efectivamente perceber tudo e quando acho que estou na posse dos elementos essenciais, de perceber o que de facto se está a passar, dou a minha opinião. E refiro sempre às pessoas que estou a dar a minha opinião. Não sou psicólogo, não sou sexólogo, a única coisa que tenho é o senso comum e alguma experiência de ter passado por uma série de situações e de conhecer uma série de homens que no seu núcleo, entre homens, falam destas coisas.
- No livro, escreve que "a maior parte dos homens tem dificuldades em partilhar. Fecha-se num mundo muito seu, tem perspectivas da vida de imediato. Pensa a longo prazo, mas nunca no presente e a vida vive-se no presente". Isto refere-se aos sentimentos?
- Sim. Lá está, essa é a génese do blogue. Os homens falam pouco de sentimentos. Muitas vezes, entre eles é quase ofensivo falar de amor. Nunca falam da mulher com quem estão. Mas as mulheres têm tendência a achar que os homens são como elas, que contam tudo. Os homens não contam nada. Gabam-se, sobretudo, de situações passadas e muitas vezes misturam fantasia, acrescentam uns pontos para criar situações divertidas e rirem-se um bocadinho entre eles. Não me lembro de ter um amigo a falar comigo sobre situações graves e sérias do seu relacionamento com a pessoa com quem está. Acontece sobretudo na fase mais adulta, ali entre os 20 e os 30. E por isso achei importante haver uma voz a falar dessas coisas.
- Acredita, como diz, que ‘todos os meses deve haver quecas na esquina para alimentar o romance'?
- Por estar a dizer isso não quer dizer que aconteça comigo. É um cenário e a questão da chama é um dos assuntos que tem mais feed-back dos leitores. Saber como se alimenta uma relação muito longa é o que as pessoas mais procuram. Como se pode estar com uma pessoas durante dez anos e as coisas continuarem a funcionar? Não se pode ter sempre o mesmo sentimento, durante seis meses ou dez anos. É inevitável que as coisas mudem, não quer dizer que mudem para pior, que nunca mais voltem a ser boas. É preciso que homens e mulheres percebam que as coisas mudam e que é preciso trabalhar essa relação e esse amor.
- Acha que dar conselhos é o papel de uma pessoa que tem um blogue?
- A partir do momento em que tenho um blogue com o subtítulo ‘para arrumar cabeças e corações', quer dizer que o cerne daquele blogue é para falar de relações. Não quer dizer que as minhas áreas de interesse se cinjam às relações, mas este é o espaço que criei para falar desse tema..
"PENSO EFECTIVAMENTE NAS RELAÇÕES"
- Como se alimenta um blogue de relações?
- Isso trouxe-me outro desafio que foi encontrar temas novos, diferentes, ligados à vida das pessoas, ao seu dia-a-dia. Há muito quem diga que os meus comentadores só dizem ‘amen', que concordam sempre. Mas procuro de facto isso. Procuro textos que possam ir ao encontro da vida das pessoas. Penso efectivamente nas relações e para isso nada melhor do que casos reais, do meu círculo próximo ou que chegaram através do e-mail. E tento construir um cenário à volta dessa situação e falar de um assunto que, através dos comentários que vou recebendo, percebo que interessa a centenas de pessoas, que se identificam com aquilo e que passaram exactamente pelo mesmo. Uso a caixa de comentários como um espaço de debate sobre aquela situação, para saber como as coisas aconteceram, como se pode resolver o problema, como se pode resolver essa situação. Tanto homens como mulheres querem essa opinião.
- Porque se dedica a esta área dos relacionamentos humanos?
- É um gosto também. É um tema que acho interessante, é a mesma coisa que um jornalista escrever sobre futebol, política.
- Vê-se como um reflexo da sociedade?
- Isto é a minha vida fora do meu trabalho. O blogue está fora da área do jornalismo, isto é ‘o arrumadinho'.
- Como surgiu o nome?
- Sou mesmo muito arrumadinho. Gosto muito de organização, das coisas bem arrumadas.
- É o blogue masculino mais seguido em Portugal. Tem alguma rivalidade com o ‘Alfaiate lisboeta'?
- São blogues completamente diferentes. Não há rivalidade nenhuma, nem sequer somos concorrentes. O ‘alfaiate' é um blogue de fotografia, de ‘styles' de rua e o meu é um blogue masculino, lido por muheres.
- Neste livro há uma certa exposição. Numa passagem escreve ‘as mulheres devem fazer um elogio à performance sexual masculina. Eh pá mintam-me...' Como é que os seus amigos reagem a isto?
- Riem-se. A questão é se devemos ou não ter pudor em falar de coisas que são normais? Somos demasiado preocupados com aquilo que os outros vão achar. Não me preocupo excessivamente com os outros e não deixo de fazer coisas que acho que não têm mal nenhum, que são inocente, normais, só por medo ou receio do que os outros vão achar. É-me indiferente.
"HÁ MUITAS COISAS MELHORES PARA LER"
- De certeza que vai receber críticas de que o livro é, no mínimo, ‘light'. Como vai lidar com isso?
- Nem sequer estou à espera que os criticos leiam este livro. Uma pessoa que se dedique à critica espero que leia outras coisas e não perca tempo a ler ‘o arrumadinho'. Não vale a pena. E deixo aqui um apelo: há coisas muito melhores para ler no mercado do que este livro. O livro nasceu para ser o que é. Não nasceu para ser uma obra prima ou ter críticas agradáveis.
- Mas há uma intenção comercial, de ganhar dinheiro com isto?
- Não é objectivamente o principal. É o coroar do blogue, vejo o livro como uma extensão do blogue. É um produto que conseguiu atingir um sucesso bastante grande em poucos meses e um livro é a cereja no topo do bolo. No fundo, é materializar em papel um produto que já existe on-line. Passa a ter uma extensão física que as pessoas podem transportar para todo o lado. Quando ‘o arrumadinho' nasceu, o máximo que conseguia era quatro, cinco mil leitores. Nos melhores dias. Neste momento, tem 15 mil visitas. E 70% das pessoas que hoje lêem ‘o arrumadinho' não conheceram o primeiro produto.
- Porque fez essa paragem?
- Foi sobretudo por motivos pessoais e profissionais. Numa primeira fase ninguém sabia quem eu era, depois umas três ou quatro pessoas tiveram conhecimento e a partir daí um contou ao outro, como o aviso para não dizer a ninguém e foi por aí fora. Quando dei por mim, numa semana toda a gente sabia quem eu era.
- Foi muito complicado. Eu era director-adjunto do '24 horas' e trouxe-me muitos problemas profissionais, porque as pessoas preocupam-se demasiado com o que os outros vão pensar de determinada acção. E não percebem, ou não querem perceber, que uma coisa é o jornalista, outra é um alter-ego que foi criado, uma personagem que criei para falar de determinadas coisas naquele espaço restrito. ‘O arrumadinho' é uma personagem criada por mim, num espaço, para falar de relacionamentos. Isso não quer dizer que a pessoa que criou aquela personagem só goste de relacionamentos.
- Mas estava numa posição vulnerável, como jornalista com um cargo de direcção...
- Também compreendo isso. Mas acho que na minha actividade profissional nunca, em momento algum, deixei de ser isento e cumprir com todas as regras e normas que devia cumprir pelo facto de ter um blogue. Não tinha uma postura diferente. Não era um excelente jornalista no dia antes de ter criado ‘o arrumadinho' e um péssimo no dia a seguir. Continuei sempre a ser a mesma pessoa e a ter a mesma postura profissional. Por outro lado, trabalhava num jornal popular, que falava sobre a vida das pessoas e até por isso achava que o facto de um dos directores do jornal ter um blogue em que falava também da sua vida seria quase como que um ajuste de contas.
- Isso levanta a questão de ter ou não intimidade com o leitor...
- Não, necessariamente.
- Quando responde a comentários não cria intimidade?
- Não necessariamente. Eu tenho 15 mil leitores, falo e respondo a comentários de muitos deles, não faço a mínima ideia de quem eles são, não tenho nenhum tipo de intimidade com eles.
- Não tem curiosidade em saber quem são?
- A maior parte das vezes não. Acho que eles devem ter muito mais curiosidade em relação a mim. Eles são tantos. É como uma pessoa estar a falar para uma plateia de dez mil pessoas; às tantas é impossível saber quem eles são. Há um ou outro, principalmente os que têm blogues mais conhecidos, que sei quem são. E aí há um respeito na blogosfera. Quando tenho um comentário de uma bloguer mais influente respondo com um e-mail privado, não discuto na minha caixa de comentários. Aconteceu recentemente com uma bloguer que me deixou um comentário sobre algo que escrevi e com a qual se sentia melindrada, apesar de não ter nada a ver com ela. E depois respondi para o e-mail dela, expliquei a situação e continuámos a discussão no foro privado, não íamos para ali armar peixeirada.
"NÃO USO O ANONIMATO PARA ATACAR NINGUÉM"
- O que acha do anonimato da blogosfera, permite criar muitas situações sob essa capa do desconhecido...
- Há duas situações. ‘O arrumadinho' não é ofensivo nem agressivo para ninguém. É um blogue até bastante positivo, que fala de esperança e de coisas boas. Eu não uso o anonimato para atacar ninguém...
- Agora vai deixar o anonimato...
- Tenho fotos minhas, com óculos, no blogue. As pessoas sabem quem eu sou. Portanto, nunca usei esse anonimato para me proteger e atacar outros. Aliás, nem considero isso um anonimato, ‘o arrumadinho' é quase um alter-ego meu, uma personagem.
- O que acha das leis de protecção da internet?
- Acho que ainda está tudo por fazer.
- Deve existir mais legislação sobre protecção de dados, revelação de identidades?
- Acho que sim. Deve existir o máximo de conhecimento possível sobre pessoas, instituições, blogues e registos para situações que são lesivas, graves e têm de ser punidas.
- Isso não cai na censura?
- Não considero censura barrar uma pessoa que comenta no meu blogue que o meu avô, que acabou de morrer, era um fascista e ainda bem que morreu. E depois acusa-me de censura porque não publiquei o comentário.
- Aconteceu. Portanto, não considero isso um acto de censura e acho que uma pessoa que diz isso devia poder ser identificada. Há ameaças, e-mails...
- Já recebeu ameaças?
- Já e também situações de ser atraído para um local a pretexto de uma entrevista e depois não ser nada disso.
- Não aconteceu comigo, aconteceu com a minha mulher ‘a pipoca mais doce'. Alguém disse que era da RTP, que queria fazer uma entrevista e marcou à porta da RTP e, afinal, não era nada.
- Como se lida com essas situações? Depois de um sucesso e calmaria quando a pessoa é anónima, há esse crescendo quando se sabe quem são os autores...
- Depende das pessoas. Quanto mais projecção se tem mais ficamos vacinados para determinado tipo de coisas. Há seis meses se calhar respondia, e picava-me com certas coisas. Agora faço ‘delete' e dois segundos depois já não me lembro. Mas há situações que são graves e passam os limites, nesse caso devia existir outro tipo de intervenção que não é possível quando todos se protegem no anonimato. Refugia-se nesse acto cobarde de ninguém saber quem é. Acontece muitas vezes serem pessoas do nosso ciclo próximo. Porque sabem coisas que só as próximas de nós poderiam saber.
"TENHO UMA OBRIGAÇÃO DE CONTINUAR A ALIMENTAR O BLOGUE"
- Os blogues parecem um diário dos tempos modernos. Consideraria, há uns anos, expor o seu diário ao público?
- Sim. Não tinha diário mas também não tinha nada de interessante para contar.
- Como é que este livro se encaixa na personalidade de uma pessoa que gosta de escrever, de ler bons livros... o blogue tem algumas indicações que espelham a pessoa que é, mas o livro é muito light...
- Tentei que o livro se concentra-se nos textos sobre relações e relacionamentos. Exclui do livro tudo o que não falava desse tema. Foi só por isso.
- Acha que tem um papel especial na sociedade?
- A partir do momento em que existem 15 mil pessoas a seguir-me diariamente, acho que é uma obrigação continuar a alimentar o blogue, é quase um compromisso virtual que tenho com quem me lê. Nos EUA, um blogue para ser considerado muito lido só tem de ter mais de 500 leitores diários. O blogue de ‘a Pipoca mais doce' nos EUA estaria no topo dos mais lidos, são niveis de popularidade na blogosfera completamente anormais. E essa transcendência dá-nos essa responsabilidade.
- Como é a vida de um casal de blogueres?
- Não afecta em nada. Durante o dia passamos um tempo a pôr coisas no blogue, mas nem isso coincide, porque eu escrevo sobretudo de manhã e ela à noite. Ela praticamente nunca me vê a escrever no blogue.
- Vocês expuseram a foto do casamento? Isso era inevitável?
- A Ana pôs uma foto do casamento, pois era um compromisso que tinha antes de me conhecer. Tinha dito aos leitores que mostraria a cara no dia em que se cassasse. E cumpriu. Mas a foto também saiu numa revista, portanto era indiferente estar no blogue ou na revista.
- Consideram-se figuras públicas?
- Eu não. Ninguém sabe quem eu sou. No outro dia estava a tomar um brunch e uma pessoa abordou-me para elogiar o blogue. Mas não sinto que não possa ir a determinados locais. Há sempre uma ou outra pessoa que me conhece, mas geralmente dizem algo positivo, quem não gosta de nós faz comentários anónimos, até no facebook.
- É adepto de novas tecnologias e redes sociais?
- Sim. Mas só tenho facebook, não tenho twitter. E também aí já tenho cerca de 9 mil seguidores. E o da Ana tem quase 50 mil. Mas no facebook, pelo simples facto de ter um nome e uma cara, as pessoas já não dizem mal. Só o fazem quando são anónimos.
- Como se justifica o surgimento destes fenómenos, facebook, blogues?
- Tem a ver com a globalização destas plataformas. Toda a gente que vive numa cidade quer um telefone com acesso à internet, tem facebook, a minha mãe já tem facebook o meu irmão com 11 anos também. No outro dia fui a uma festa e um miúdo de sete anos perguntou qual era o meu facebook e passados minutos apareceu-me no telemóvel um pedido de amizade dele.
- Acha isso normal?
- Acho, são os tempos de hoje.
- A partir do momento em que está exposto tem mais cuidado com a imagem. Que peso tem no seu dia-a-dia?
- Gosto do lado estético das coisas, gosto muito de moda, de roupa. E independentemente de ter um blogue sempre tive cuidado com a imagem. É algo inerente.
- Se tivesse de optar entre o jornalismo ou o blogue e ser escritor o que preferia?
- Depende. Nesta fase preferia sempre conciliar porque nunca estive profissionalmente tão satisfeito como hoje.
- Como vê o futuro da Comunicação social na blogosfera?
- Acho que existirá uma complementaridade. Os sites de jornais e portais vão perceber que congregando nos seus espaços bloguers importantes vão ter mais leitores, pessoas que vão lá por causa dos bloguers e depois lêem outros conteúdos. É o que se vê lá fora. Neste momento os cinco bloguers mais influentes do país, ‘O arrumadinho, ‘a pipoca mais doce', ‘a stylista', ‘cocó na fralda' e ‘alfaiate lisboeta' estão no portal clix. Juntos conseguimos ter mais ‘page views' do que algumas publicações. E percebendo isto, os jornais vão tentar ter bloguers influentes e importantes que atraem as pessoas.
- Como é que este tipo de blogues se encaixa no mundo actual, da crise, do desemprego? Passam ao lado destes temas.
- No meu caso é propositado. Não quero falar sobre crise, porque com isso já somos massacrados desde que acordamos até à hora em que nos vamos deitar. Cada vez mais as pessoas querem um refúgio. E por isso seguem blogues de relacionamentos, de moda, de fotografia, de educação.
- O facto de não serem especialistas nessas áreas...
- Dá-nos uma opinião muito mais genuína e desinteressada. Não pretendo fazer tratados académicos sobre os assuntos, mas quero dar a minha opinião honesta e sincera como se fosse o melhor amigo daquelas pessoas. É um compromisso que tenho com os leitores. E digo exactamente aquilo que acho sobre as situações, não ando com paninhos quentes. Quem consulta um psicólogo vai falar, mas ouve pouco. E as pessoas também querem ouvir, querem uma opinião. Eu já andei num psicólogo, ele estava a ouvir e a tentar interpretar o que eu dizia. Num blogue há a vantagem de ser à borla.
- Como é que estes blogues sobrevivem?
- Não tenho custos, sou só eu e só tenho que me alimentar. Mas podia recorrer à publicidade.
"NA BLOGOSFERA HÁ UMA CONVIVÊNCIA DIFERENTE"
- ‘O arrumadinho' e ‘a pipoca mais doce' jogam um bocadinho com a exposição da vida privada. Por exemplo, publicaram uma lista das pessoas com quem podiam trair, como a Luisa Beirão.
- Isso foi uma brincadeira. Vimos isso numa série feminina americana e achámos graça. Fizemos a lista na brincadeira, mas lá está, tudo aquilo que escrevemos levanta uma certa indignação.
- Pode não ser indignação, pode ser um embraiador de comunicação...
- E escolho assuntos que têm a ver com as pessoas. Tenho determinados posts sobre temas sobre os quais entendo que os casais deviam falar mais. Acontece receber e-mails de pessoas que o que escrevi foi um pretexto para falarem sobre as coisas. Começaram a partir do post e foram por ai fora.
- Isso não é o reflexo de solidão ou de falta de ideias?
- Não é solidão. É uma convivência diferente. Não sei o que é mais solitário, se quem tem 30 amigos com quem vai para os copos, e depois fica em casa completamente só, se a pessoa que tem dois amigos com quem vai ao café e outros 200 com quem pode falar na internet. Acho que a Internet é uma plataforma inevitável de contacto entre as pessoas, muito positivo para as mais timidas. É um estereótipo estúpido criticar as pessoas que se conhecem através da internet. Hoje em dia, uma pessoa que se sinta sozinha deve usar essa ferramenta. Há cada vez mais pessoas que se conseguem conhecer assim. As pessoas confundem é conhecer e manter o contacto. Quando criei a iniciativa in the ‘mood for love, houve quem se mostrasse indignado, que afirmasse que o amor ‘é ‘olhos nos olhos', é o toque, como se eu estivesse a querer substituir uma coisa pela outra. Hoje em dia é cada vez mais difícil conhecer gente interessante, as pessoas estão muito cingidas ao trabalho/casa, há pouco convívio, não há bailes como antigamente. Uma pessoa com 30, 35 anos, vai ao cinema com os amigos de sempre e se de repente fica sozinha, é complicado. Sofrer de amor aos 20 anos é uma coisa, aos 30 é outra e aos 40 é outra. Agora ao olhar para trás rio-me de ter sofrido aos 18 anos por a miúda de quem eu gostava nã olhar para mim.
- Porque razão as relações, o amor, são tão importantes para si?
- Está muito presente na minha vida por causa do blogue.
- Não foi ao contrário? O blogue não nasceu para alimentar essa sua tendência?
- Há um bocadinho das duas coisas. Sempre li imenso sobre relacionamentos, em revistas internacionais. Tenho imensos livros sobre o tema, coisas técnicas que ia comprando, que via na net.
- Eram leituras filosóficas, do Alberoni?
- Não, eram coisas mais técnicas, de psicólogos. Lia muito colunas de opinião e notava que havia imensas pessoas predispostas a ler aquilo e a comentarem. E notei que em Portugal não havia ninguém a fazê-lo.
- É ‘o sexo e a cidade' em versão masculina?
- Não tenho nenhum problema se o disserem. Adoro ‘o sexo e a cidade', sou fã da série, vi as seis temporaads várias vezes, acho que é muito bem feita e gostava que existisse uma versão para homens, temo é que fosse muito desinteressante, porque os homens não falam com a frontalidade com que as mulheres falam. Os assuntos sobre que falam com frontalidade são chatos, futebol.
- Quais são os autores favoritos?
- Tento ler tudo e tenho fases. Tive a fase do Gabriel Garcia Marquez, do Luis Sepulveda, do Murakami, agora conheci o Ken Follet, e o autor que li mais até hoje foi o Saramago. Agora estou na fase do Jonathan Fraser.
- E filmes e séries?
- Tento ver tudo o que se está a fazer nos EUA. Desde o mais reles, ao melhor. E tenho as minhas séries de eleição, a 1º e 2º temporadas de ‘24', a 1º do ‘Prison Break', ‘West Wing', ‘Boston Legal', ‘Californication, ‘Sexo e a Cidade'. Sou um consumidor intenso de séries. Filmes é igual. Também sou argumentista e tenho esse olhar técnico sobre as coisas.
- O tema das relações até onde pode ir?
- É inesgotável. Há sempre matéria, com a evolução. As relações entre homem e mulher têm sempre matéria interessante para escrever, gostava de escrever um argumento para cinema ou série partindo desta temática, ainda não me dediquei mas é algo que a breve prazo gostava de me dedicar.
- Porque razão o seu nome não aparece na capa do livro?
- Este livro é de ‘o arrumadinho', da personagem criada pelo Ricardo Martins Pereira, vou aparecer com os óculos e quem edita o livro é ‘o arrumadinho', é um livro com as ideias da personagem.
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