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Sermão à selva

Apanho boleia da literatura para entrar no mundo de maravilhas e de horrores que é a Amazónia, uma selva carnívora e difícil, cuja natureza se colou à dos homens

18 de maio de 2008 às 00:00

Agustina Bessa-Luís confessou, um dia, que percebeu a sua vocação literária ao ler ‘A Selva’, de Ferreira de Castro. Por causa do livro, visitou a Amazónia 'procurando o encontro com o português de Manaus como uma espécie de oração'.

Encarrapitada na moto-táxi e agarrada com unhas e dentes ao condutor que me leva aos saltos pelas ruas esventradas de Santarenzinho, a favela de Santarém, penso em como eu própria sinto que já aqui estive, entre plantas tão densas que não deixam entrar a luz do dia e gente bizarra. Herdeiros dos nativos, dos caboclos, dos escravos livres, dos agricultores, dos colonos, dos negociantes e dos emigrantes que lutaram para conquistar a floresta.

'Inferno verde', chamou Ferreira de Castro ao seringal onde passou quatro difíceis anos da sua vida. Um inferno pelo qual viajei há muitos anos, devorando ‘A Selva’ sentada debaixo de uma ameixeira da quinta onde cresci, em Sarzedas, na Beira Baixa. Sinto agora na pele o calor viscoso e é como se estivesse, não aqui, mas dentro do livro.

A minha viagem interior acaba à porta de 'casa' da família Silva, quatro paredes , cozinha e casa de banho, o quarto partilhado por toda a gente e um quintal com árvores onde Darleane assa salsichas e nacos de carne. Sou recebida como amiga de longa data.

Dona Damiana, a mãe de família, foi abandonada pelo marido quando os quatro filhos ainda eram pequenos e teve de 'se virar'. Vida dura que lhe cavou rugas excessivas na cara, tal como o desgosto recente da perda do filho: 'Ele era muito alegre, muito meu amigo', explica com os olhos cheios de dor, embalando no colo o neto de dois meses que já nasceu órfão. É certo que até este destino trágico parece decalcado dos contos de Ferreira de Castro, mas, por outro lado, também o espírito da fraternidade, fé renovada na condição humana.

Diana, a irmã mais velha de Darleane, é solteira e católica de ir todos os dias à missa. Hoje, no entanto, depois de beber pela primeira vez na vida um vinho tinto doce que fui comprar ao botequim, decide vir connosco à praia. Durante o almoço, fiquei a saber como Dona Damiana conheceu o actual marido, pachorrento mecânico de bicicletas que Maria Luísa adora, e como 'os mininos' se foram criando, 'uns melhor que outros'. Lá em casa, depois da morte de Rossy, ficaram só as duas filhas porque Airão, o mais velho, está preso.

Vamos de táxi até à praia fluvial onde a areia desapareceu devido às chuvas. Os domingueiros, de sunga e de biquini, amontoados em bares sobre estacas, pouco parecem importar-se com o facto, ora dançando forró e bebendo cerveja, ora mergulhando nas águas barrentas do rio. Com Darleane, Diana e Maria Luísa de molho, lá consigo deixar de imaginar piranhas a roerem-me os calcanhares e chapinhar na água. Darleane fala como se estivesse em Saint-Tropez.

Na avenida marginal de Santarém, onde vamos passear à noite, os adolescentes comportam-se como se estivessem na passerelle. Estranha mistura com os caboclos que apanham barcaças para terras chamadas Óbidos ou Alenquer e com os novos ricos que, exibindo carros tunning todos artilhados, bombardeiam as ruas com decibéis.

Fico quase uma semana na cidade amazónica. Das várias excursões que fiz nenhuma foi às entranhas da selva por causa de um pavor, da fobia, que tenho a cobras. E que ‘las hay, hay’.

Faltam três dias, duas noites e uma imensidão de rio para chegar a Belém. Desta vez, a minha vizinha de rede é Silvana, uma rapariga de 19 anos, nada e criada numa roça no meio do mato. Estuda para entrar na universidade e, ao mesmo tempo, trabalha num aviário. É aliás por causa disso que vai a Belém. No regresso será enfermeira e mãe de 3 mil pintos recém-nascidos.

Por enquanto, apanhamos sol e falamos da vida em geral observando, sentadas no deck, os casebres de beira do rio, lugarejos que se distinguem uns dos outros pelas cores das igrejas, crianças em pirogas, às quais os passageiros atiram sacos de plástico com bolachas.

O tempo custa a passar. Com excepção de sábado à noite, quando nos juntamos ao grupo formado por um 'negão' de Pelotas, um peruano da Amazónia, um piloto de helicópteros de Porto Alegre e uma ‘bailarina’ de Manaus para comer camarão e beber um licor do Peru que, pelas qualidades afrodisíacas, é conhecido por ‘Rompe Calzón’, ou ‘Rompe Calcinha’. E mais não digo.

Chegamos a Belém do Pará no domingo ao final do dia. Fico obnubilada ao ver na linha do horizonte, e para lá do limite da selva, uma amálgama de arranha--céus. Parece ficção.

Decidi que a próxima paragem seria a capital do estado do Maranhão porque um leitor me alertou para o facto de uma das poucas cidades brasileiras que não foram fundadas por portugueses, ser a que mais lembra o nosso País.

Dou-lhe razão na manhã seguinte, mal entro na zona histórica de praças calcetadas e paredes cobertas de azulejos. Quem começou a história aqui foram os franceses, mas não existem marcas dessa presença. Talvez a distracção militar portuguesa tenha valido a pena porque quando tomaram posse de São Luís quiseram tanto que a sua alma fosse lusitana que até uma certa melancolia se lhe colou às paredes. Ou então sou eu que, depois de uma visita à igreja onde o padre António Vieira fez o seu célebre discurso aos peixes, sinto que não tenho nada de essencial para dizer.

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