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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Sexo até ao fim

Verli andou numa roda-viva antes de morrer com sida. De Viseu ao Algarve, trocou prazer pelo dinheiro que lhe pagaria vida nova no Brasil.

20 de novembro de 2005 às 00:00

"Me ajuda…”, implorou nos últimos catorze dias da sua existência a brasileira Verli Vitória Casonatto, internada no Hospital de São Teotónio, em Viseu, ao homem que a legalizou em Portugal, dono de uma agência funerária e sua única visita diária na unidade hospitalar. A voz morreu-lhe com o corpo no dia 25 de Outubro. Na certidão de óbito, a causa da morte ficou sombriamente impressa: Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. O homem que nos últimos cinco anos sempre a ajudara nada pôde fazer, ela finou-se debilitada como um passarinho, uma sombra da brasileira que vendia sexo a troco de dinheiro.

Na Linha Carijó, em Sarandi, Brasil, Etelmico e Zequelina souberam do falecimento da filha mas não quiseram o corpo de volta. Verli, que se vendia em anúncios de jornais com marketing sapiente – ela era a bela italiana de Viseu – está sepultada no cemitério novo da cidade por caridade do cangalheiro que a amparou em vida.

Na tarde de sexta-feira, dia 28 de Outubro, o corpo de Verli entrou na Casa Mortuária da Senhora da Conceição, foi velado até ao meio-dia de sábado.

À tarde, o carro mortuário e o resto do cortejo fúnebre percorreram em marcha lenta os dois quilómetros até ao cemitério. O padre rezou missa, Verli desceu à terra perante uma assistência de 40 pessoas: três homens, o resto mulheres. Uma assistência pouco usual reunia-se entre campas. Todos tinham sido companheiros da noite ou de profissão da defunta.

Afonso, o coveiro, não assistiu ao cortejo, nem cavou a cova de Verli. Estava de baixa médica; a velocidade e o grão na asa empurraram-no há meses para fora da estrada.

Coça a cabeça, sacode os ombros no corpo franzino e lá ponta o talhão onde está a brasileira que atravessou o Atlântico para assentar arraiais no final dos anos 90, na cidade do verde pinho, no centro de Portugal.

“É uma tristeza”, diz lamentando a campa árida e tão diferente das outras do seu jardim de pedra com flores a tombarem de canteiros e jarras de plástico. “Só sei que é brasileira e prontos, aquilo que para ai dizem. Mas não sei, não a conhecia. Como é que alguém não tem mãe, nem irmã para uma florzinha?!”

Verli Vitória, quarta filha de um casal de camponeses de Sarandi (Rio Grande do Sul), morreu longe de casa de uma doença moderna e ruim. Durante a agonia, o hospital avisou a família mas o corpo da prostituta acabou por ser enterrado pelo dono de uma agência mortuária local. “Era um pai para ela”, conta com palavras escuras este homem casado de 48 anos.

No tablier do carro estacionado à porta da funerária estão os seus testes de despistagem do HIV – negativos. “Um descargo de consciência porque se fica sempre um bocado oprimido. Dizem que ela ia sem preservativo, mas comigo nunca quis dessa forma. Se o que se diz for verdade, se ela ia com os outros sem protecção, comigo nunca deixou. Foi minha amiga.”

O som de um forró enche o diminuto Drink’s. A dona – uma brasileira esbelta, loira, de casaco de peles que ficou com o espaço há seis meses – diz que a casa de alterne com fachada cor-de-rosa e câmara de filmar à porta é agora um bar de karaoke.

Ela fala meiga, num tom de voz choroso da “minina que morreu com sida”. Não a conheceu. “Pois é, a gente tem de se proteger...” À conta da bela italiana tão loira como a nova dona do Drink’s, o negócio que começou bem, meio ano depois está difícil. “Houve uma quebra, sim.” Os homens – diz ela – estão com medo de ir ao seu bar de karaoke. “É assim, mas depois eles esquecem.”

Há sete anos, o Drink’s era o Elefante Preto. Verli acabada de chegar do Brasil, ensaiava ali o negócio do corpo, depois de ter sido funcionária numa esquadra de polícia na sua terra natal.

O gerente da altura recorda-se bem dela, a má troca de palavras que então tiveram azedou para sempre a sua opinião – “Era uma arrogante e uma coisinha sem graça nenhuma”.

Mas a coisinha sem graça nenhuma singrou na noite de Viseu e por ali se manteve anos, circulando em boîtes.

Foi numa delas que o agente funerário a conheceu. Conversaram. Verli aproveitou e pediu-lhe pela primeira vez ajuda; precisava de legalizar a sua permanência em Portugal. Contou-lhe que estava na noite depois de durante ano e meio ter vivido à séria – cama, mesa e roupa lavada – com um português. Contou-lhe que finda a relação lusa, tinha pedido por duas vezes ajuda a homens sem préstimo que lhe ficaram com o dinheiro e nunca facilitaram a obtenção da autorização de residência. O empresário condoeu-se e empregou-a, tratou-lhe da segurança social.

No final de 2000, Verli estava legal no país e sem ter de pagar por isso.

Ali se iníciou uma amizade electiva entre prostituta e agente funerário: Verli contava-lhe tudo, ele nada pedia, ela só lhe dava o que queria e quando queria. “Eramos amigos...”, diz ele agora quase um mês depois de a ter enterrado.

A vida da brasileira de Sarandi muda. Sem homem que a estorve ou lhe fique com dinheiro, Verli trabalha em Viseu, arranja clientes.

Ao contrário da maioria das suas conterrâneas, vive sozinha num apartamento. Em Novembro de 2003 coloca nos jornais o primeiro anúncio – assumia a personagem fatal, numa alusão à origem da sua família. “A atrevida italiana loira espera-te para momentos escaldantes” faria sucesso.

Os anos passam, alguns clientes ficam – “havia um homem que vinha de França para passar uma semana com ela, chegava a pagar-lhe mil euros”.

O negócio prospera. Quando lhe apetece, Verli Vitória faz as malas e vai trabalhar para o estrangeiro. No início deste ano foi à Suíça e a Espanha.

A sua vida é movida ao som do que factura. “Tudo o que ganhava, amealhava”, diz o agente funerário que gaba o espírito poupado e empreendedor da amiga. “Era uma mulher de armas capaz de fazer andar para a frente qualquer negócio. Metia uma coisa na cabeça e ninguém lha tirava.”

Apesar de lhe admirar a vontade de ganhar dinheiro, também ele estranha a louca correria dos últimos oito meses: Viseu-Algarve-Viseu-Algarve-Viseu até à morte.

A habitual migração de prostitutas do Norte e Centro do País para o Sul durante o Verão, nunca tinha interessado tanto a Verli Vitória. Nunca se tinha empenhado em aproveitar o movimento turístico algarvio, mas este ano a decisão compensaria. Duas semanas antes do fim, depositou 10 mil euros numa conta bancária brasileira.

O dinheiro do sexo estava aplicado em tijolo numa vivenda em Paço Fundo, no Brasil. Rés-do-chão, primeiro andar, piscina, jardim e ainda terreno para construir mais duas casas iguais, numa propriedade toda murada que lhe custou oito mil contos. Um luxo que ela cuidava e mobilava de cada vez que ia ao Brasil.

A vida corria de feição a Verli Vitória. A casa estava terminada e preparava-se para entrar como sócia com vontade expansionista no negócio de um dos seus irmãos – um talho de enchidos.

No final do ano ia voltar de vez para o Brasil e “ser uma senhora”, uma empresária séria.

O agente funerário que tanta vez a aconselhou, tinha-se conformado há muito com a partida e dizia-lhe que o negócio dela só com um oceano a lavar-lhe o passado. “Ela ainda pensou em abrir uma loja com pinturas e assim umas coisas para enfeitar. A Vitória tinha umas mãos extraordinárias. Era um talento para pintar, cozinhar. Mas eu disse-lhe sempre que aqui nunca teria hipótese, nunca deixaria de ser a brasileira.”

O regresso começa a ser preparado. Semanas antes de ser internada, compra uma toalha de linho pesado que manda para a lavandaria.

Só a levanta uma semana depois do prazo de entrega. Verli estava a Sul a ganhar mais dinheiro.

No chão do seu apartamento de três quartos estende a toalha de linho envolta em plástico. O regresso está próximo e ela está feliz diante da perspectiva de voltar ao Brasil.

Antes de se instalar em Paço Fundo pensa em fazer uma última viagem, desta vez a Itália. Não vai vender sexo, quer investigar a origem italiana da família Casagranda Casonatto.

Verli sustenta o seu sugestivo anuncio durante dois anos, todas as semanas. A última mensagem é publicada a 19 de Setembro. Pela primeira vez, ela faz seguir o pedido de publicação a partir de casa, via internet.

Dez palavras por uma semana, um investimento de 42,47 euros. Em dias bons, Verli Vitória Casonatto conseguia tirar 200/300 euros. Em dias muito bons podia conseguir de um cliente fixo com saudades o quintuplo por uma semana de farra.

O dinheiro da bela italiana tinha outro destino que não o Brasil. Legalizada, ela pode frequentar cursos de formação. Foi o que fez. Aprendeu inglês e italiano para poder falar com os clientes estrangeiros, aprendeu informática do ponto de vista do utilizador para se valorizar quando regressasse à sua terra. Às vezes saía à 23h00 do curso e ia directamente para a boîte trabalhar.

O seu amigo mais próximo fala dela como se Verli não fosse a bela italiana que fazia dinheiro em troca de sexo. Para o cangalheiro, ela era a empreendora que marcou um objectivo e nada a pôde demover, nem a morte.

“Se ela tivesse consciência de que ia morrer tão cedo, certamente não andava neste virote para arranjar dinheiro. Gozava-o. Só cá ela deixou três mil contos no banco.”

Mas a morte chegou de mansinho, sem que os mais próximos dessem por ela. Nos últimos meses, Verli só se permitia queixar de dores de cabeça e dizer que tomava comprimidos para dormir.

Quando deu entrada no hospital, para não mais sair, ao médico que a viu disse que não se prostituia há meio ano. Ela tinha regressado do Algarve há dias, tinha colocado o último anúncio há um mês.

Nos dias que se seguiram à sua morte, o agente funerário andou a remoer, com a cabeça cheia de dúvidas. Se ela nem sempre usava preservativo e com ele sempre o fez, se ela sabia que estava doente, então quis preservá-lo da infecção. Se ela sabia que tinha sida porque continuava a trabalhar? Porque continuava a insistir num modo de vida que era uma arma mortífera? A sua cabeça balança entre a ignorância de Verli sobre o seu estado de saúde e a bondade dela que sabendo lhe deu, na sua opinião, a maior prova de amizade.

A autorização da família chegou no dia 28 de Outubro. Registado por um tabelião, Etelmico Luiz Casonatto e Zequelina Casagranda Casonatto deixavam a cargo do agente funerário, amigo da filha, o enterro. A demais acrescentavam: “Também fica esclarecido que os familiares não se responsabilizam por eventuais gastos com o funeral”.

O homem que a sepultou não esconde a revolta – pelos pais, seus herdeiros da mansão brasileira e conta no banco, o corpo de Verli não teria cova. “Não acho que eles sequer soubessem o que a filha fazia para mandar tanto dinheiro para casa. Ela sempre o evitou. Não sei se lhes interessa sequer imaginar de onde vinha a fortuna que agora vão herdar.”

Em nome da amizade, o cangalheiro assumiu o enterro e demais preparativos. Assumiu também as conversas telefónicas que primeiro ainda tendiam a pressionar a família a visitar a doente internada no hospital ainda com vida.

Não a vieram visitar, não vieram ao funeral, não a quiseram enterrar sob o argumento da pobreza. “Qualquer banco emprestava sob fiança da mansão o dinheiro para levar a Vitória de volta para a sua terra!”

O agente funerário deitou contas à vida e rendeu-se à evidência, se não fosse ele não havia mais ninguém. Trouxe-a do hospital, arranjou-a e deu-lhe caixão. Levou-a no carro mortuário da sua firma para o talhão do cemitério.

Esteve para lhe pôr a colcha de linho em cima do corpo mas no desconchavo dos dias, de cabeça atordoada pela notícia e pelo medo infundado de ter contraído o HIV, acabou por enterrar Verli Vitória sem a sua última compra para a casa de Paço Fundo. Todos os seus pertences, a colcha, a roupa, os quadros que pintava, a quinquelharia que juntou em sete anos de Viseu foram dados a uma instituição de solidariedade.

Dois dias antes de morrer, Verli Vitória Casonatto comemorou na cama do hospital 33 anos; era uma sombra daquilo que tinha sido. O seu corpo nunca fora voluptuoso como sugeriam os anúncios da bela italiana, mas tinha porte altivo e presença. Agora pegava-se nela ao colo como a uma criança, as pernas tinham a largura de braços.

O coveiro Afonso diz que o corpo dela estará no cemitério novo de Viseu pelo menos três anos, debaixo da terra que Verli, a bela italiana do Brasil, escolheu para vender sexo da maneira que os homens quisessem e onde ela acabou por morrer aos poucochinhos.

OITO MESES DE TRABALHO ATÉ À MORTE

Quando deu entrada no Hospital de São Teotónio, Verli Vitória Casonatto trazia uma “febre arrastada” com um mês e perda de peso agravado ao longo dos 14 dias de internamento até limites do impossível, conforme explicou uma fonte hospitalar.

O falecimento ocorreu depois de uma infecção generalizada.

No acto da admissão foram-lhe feitos exames médicos que detectaram o HIV, mas Verli teria já no Hospital de São Teotónio ficha clínica que fornecia a mesma informação e que justificaria as várias consultas médicas durante os últimos oito meses da sua vida, às quais maioritariamente faltou.

Questionada pelo corpo clínico, Verli disse que tinha deixado a prostituição há meio ano. No entanto, os seus últimos anúncios na Imprensa – “Viseu, a atrevida italiana loira, espera-te para momentos escaldantes” – datam de 19 de Setembro. Pouco mais de um mês antes da sua morte.

BÔITES E CASAS DE ALTERNE

MORTE DE PROSTITUTA ENFRAQUECE NOITE DE VISEU

Verli Vitória Casonatto começou a vender o corpo em Viseu na casa que, na altura, se chamava Elefante Preto.

Hoje em dia, a casa tem o nome de Drink’s e uma nova dona desde há seis meses, uma brasileira loira como Verli.

O movimento na Rua das Bocas onde duas casas iluminam a noite de clientes, prostitutas e alternadeiras decaiu desde que rebentou o caso de Verli. Ninguém gostou de saber que uma prostituta tinha morrido de sida. É a nova dona do Drink’s, que diz que agora na casa só há karaoke, que se descai e aponta esta quebra. “Os homens estão com medo, é natural. É assim mas depois eles esquecem.”

Depois do Elefante Preto, Verli começou a frequentar o King’s. Ia e vinha quando lhe apetecia, para um copo e mais um homem.

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