Hipnotizadores descrentes nos ‘reikianos’. Vendedores de mezinhas que curam enxaquecas e chulé. Cépticos, curiosos e muita gente aflita em Vilar de Perdizes.
Ela chegou. Maria de Fátima chegou a Vilar de Perdizes com passo acelerado, olhar decidido. Mal desembarca na pequena aldeia transmontana dirige-se para a barraca do doutor David, com tamanha desenvoltura que até parece que tem o mapa do páteo gravado na memória. Quando avista o consultório improvisado começa a perder a embalagem. Aos poucos estaciona o balancear e acaba por ficar estática como uma jarra de cristal. Não se lhe vislumbra um gesto, não se lhe apercebe uma palavra, não se lhe adivinha um pensamento. Está na fronteira do desassossego. Parece um castelo de areia à espera da primeira onda.
O altifalante colocado no exterior do centro social despeja a banda sonora deste Festival de Medicina Popular. Agora é o naturopata de serviço quem debita discurso. Desta vez louva as virtudes da batata. “Todos os doentes do coração deviam consumir batata descascada” diz do alto da sua cátedra. Maria de Fátima não ouviu o conselho até porque o mal que lhe estrangula o coração não se resolve com tubérculos. Por isso continua impassível no seu lugar na enorme fila de espera. Em silêncio. O bater cadenciado do polegar nas náguedas generosas é sinónimo de impaciência.
Maria de Fátima está tão concentrada na sua dor que nem se apercebe que chegou a sua vez. Por momentos ela e o Dr. David entreolham-se. Depois dirige-se para o interior da barraca, ocupa a cadeira que se encontra do outro lado da mesa. “Qual é o seu problema?” pergunta o Dr. David. O silêncio asfixia . Este vidente - que se diz especialista em medicinas orientais e cobra 25 euros por uma massagem chinesa e 15 por um ‘reiki’ mental - compreende o mal – estar da sua cliente e adopta um tom mais ternurento. “Diga-me lá o que a atormenta”, acrescenta. Há uma lágrima que baila no canto do olho de Maria de Fátima. Ela está com as emoções tão à flor da pele que qualquer palavra mais carinhosa lhe faz chorar. “Eu tenho cá uma coisa a entupir-me o coração” responde muito a custo. Lá fora há bruxas que dançam sem parar. São marionetas que fazem a alegria da criançada.
“TENHO UMA FILHA”
O doutor David aproveita a deixa e estende o tapete ao diálogo. “Está com um problema de amor? Mas o que é que aconteceu?” arrisca uma pergunta. “Isto é o que aconteceu” responde Maria de Fátima sem precisar nada. “Mas o que é que aconteceu?” Volta a insistir o ‘reikiano’. Maria de Fátima perde o controlo dos sentimentos, desfaz-se num pranto sonoro e abre finalmente o coração. Os mirones – quais abutres da tragédia alheia - começam a acotevelar-se em frente da barraca. Até o massagista Oliveira virou as costas ao seu negócio para assistir ao vivo a esta novela mexicana. A barraca da Associação Portuguesa de Hipnose, mesmo ao lado, está completamente às moscas.
Quando já não há mais uma lágrima para derramar, Maria de Fátima começa finalmente a falar. “Tenho uma filha!” começa por dizer. A última sílaba é abafada por um longo silêncio. “Tenho uma filha de dois anos mas ela não está comigo”, acrescenta com a tristeza estampada no rosto. O ‘reikiano’ não perde tempo começa a dar palpites: “Tem de ir buscá-la ”. E insiste: “Tem de ir buscá-la. Já!” Já não era um conselho, mas uma ordem para cumprir. Maria de Fátima fica meio aparvalhada: “Mas o problema é que fui eu que saí de casa”, confessa. O exterior da barraca tem lotação esgotada. Ninguém quer perder pitada desta história melodramática. Só Ana Pitinha continua alheia a este rebuliço. Os seus 86 anos não lhe permitem grandes aventuras e, por isso, não abandona o seu banco, não prescinde do seu cajado. Está toda forrada de preto – “Há 12 anos que o meu homem me faltou” – e não perde de olho os saquinhos com as ervas medicinais que segundo ela curam a insónia, a celulite, as dores de cabeça nervosa e o colesterol. “Cada saquinho só custa três euros!”, informa um potencial cliente. Noutro canto do pátio, o padre Lourenço Fontes, a alma deste congresso, dá mais uma entrevista à comunicação social.
“VOU FAZER REGRESSÃO PARA O CARRO”
A consulta prossegue. Agora entrou-se no terreno jurídico. “O meu advogado disse-me que em mês, mês e meio, isto estava resolvido. Já lá vai mais de um ano”, desabafa amargurada Maria de Fátima. “Com advogados é sempre assim. Só querem o dinheirinho” diz um membro da assitência. Outro reconhece Maria de Fátima e informa à plateia curiosa que “ aquela alí é de Amarante”. Há medida que o tempo passa o diálogo é cada vez mais interactivo. O doutor David ouve os lamentos, os desabafos, as críticas, e vai passando a palma das mãos pelas cartas coloridas do seu baralho mágico. “ A carta da justiça está do seu lado”, diz a páginas tantas. E acrescenta. “ O seu advogado não serve para nada. Se eu lhe apresentar um advogado que conheço...” nem chega terminar a frase porque os gritos do Alexandrino abafam o seu raciocínio.
O bruxo “firme e hirto” prega contra a regressão. “Não há vidas passadas. É tudo uma vigarice. São tretas”. O seu discurso não convence. Prova disso é o facto de Alberto Lopes - o hipnoterapeuta do programa “Sono da Verdade”- ter sempre sala cheia. Cada sessão dura hora e meia e custa a módica soma de 50 euros. “Este senhor é aquele que faz hipnose na televisão?” pergunta uma mulher de cabelos brancos. A assistente do mais mediático participante de Vilar de Perdizes confirma os pergaminhos do seu mestre. “Porque é que não fazes? Se for bem feito vale a pena”, diz a mulher para o marido. Ele encolhe os ombros, leva as mãos à carteira e estende-lhe três notas de 20 euros. Só depois deixa cair um desabafo: “Vou fazer regressão para o carro. Vou mas é ouvir um CD”. A mulher não teve outro remédio senão enfrentar sozinha o desconhecido.
“ERA O QUE EU QUERIA OUVIR”
No exterior da barraca do doutor David há um cartaz que promete milagres. “Alivia o stress, cura dores de cabeça. Cura ainda problemas neurológicos, psiquiátricos, psicológicos, de ossos, problemas de coluna” pode ler-se numa pequena folha de papel. Neste aspecto o Sr. Costa de Felgueiras é muito mais modesto. O único mal que cura é o chulé. “Isto resolve os problemas de odores para a vida”, diz apontando para os pequenos saquinhos com um pó cor de cal. No entanto, recusa dizer qual é a sua poção mágica. “O segredo é a alma do negócio” diz meio a brincar.
No final da consulta, Maria de Fátima já despiu toda a sua alma. Agora espera que lhe resolvam o seu problema. “Você vai conseguir recuperar a sua filha” diz-lhe o doutor David. Pela primeira vez ela sorri. E ele acrescenta: “Mas você tem de acreditar. Ter força”. Ela responde afirmativamente com a cabeça. Tem um ar infinitamente agradecido. “Era isso mesmo que eu queria ouvir”, confessa na hora da despedida.
Os mirones começam finalmente a dispersar. Só então é que muitos compreendem que Vilar de Perdizes não se resume às consultas do doutor David. Há a barraca de Sô Filip, o zelador de Orixás, e do Dr. Zan, o parapsicólogo de cabelos grisalhos. As ervas milagrosas de Isabel Pita. Há os afrodisíacos com nomes estranhos – “levanta o pau” ou “parte cama, rompe colchões” – que prometem ressuscitar qualquer morto. O incontornável pau de Cabinda. Há palestras sobre temas esotéricos – o povo prefere dizer “esquisitos”. Os amuletos de Maria Feliz e os brincos de velho ‘hippie’. Há os filetes do restaurante O Cabaço. Enfim, há ainda um mundo por descobrir.
Maria de Fátima partiu. Com o espírito mais leve, mais tranquilo. Com ânimo redobrado. O doutor David pode não lhe ter curado todos os seus males mas deu-lhe um pouco de atenção. Foi o ombro amigo, a palavra que reconforta. Ajudou a deitar cá para fora alguns dos demónios que lhe entupiam o coração. É certo que ela pode não recuperar filha de dois anos. Mas, certamente, que vai lutar por isso. E só por isso não deu por perdida a viagem até Vilar de Perdizes.
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