A minha mulher ficava em Portugal com a nossa filha recém-nascida. Partir assim custava mais do que enfrentar o inimigo.
1 / 6
Eu, Carlos Maria Pereira de Figueiredo, 1.º Cabo do Batalhão de Cavalaria 1928 – Companhia 1777, nasci a 10 de novembro de 1941, em São Domingos de Rana, Lisboa, mas toda a minha vida foi vivida e passada em Terras de peixe e mar, na Costa de Caparica, no concelho de Almada.
Aos 26 anos, quando fui chamado para a tropa, integrei o Regimento de Cavalaria nº 7, em Lisboa. No dia 2 de dezembro de 1967 embarquei no Vera Cruz rumo a Angola. Embarquei no paquete Vera Cruz a 2 de dezembro de 1967 rumo a Angola, para cumprir a minha comissão na Guerra do Ultramar.
Deixava em Portugal a minha mulher e a nossa filha bebé, que tinha apenas quatro meses. No mato africano sofri um ferimento grave que quase me roubava a vida. A minha família chegou a preparar o luto, mas eu sobrevivi. A despedida foi dura. A minha mulher ficava em Portugal com a nossa filha recém-nascida. Partir assim custava mais do que enfrentar o inimigo.
As missões eram constantes: reabastecimentos e escoltas entre o Luso, Cassamba, Cangamba e Muié. Estradas destruídas pelas chuvas, viagens de dias inteiros, emboscadas a qualquer momento. A comida era sempre a mesma: arroz com feijão. Dormíamos no chão, muitas vezes com um tijolo a servir de almofada. O calor africano era abrasador. Passei três anos debaixo de sol intenso, sem qualquer proteção. Hoje, tantas décadas depois, sofro de cancro de pele e já realizei mais de 10 cirurgias no IPO — mais uma das marcas silenciosas que a guerra me deixou.Ainda hoje recordo o meu sargento de Cavalaria Manuel António Cigarro Nepomuceno, grande amigo com quem partilhei aqueles dias difíceis. Tinha em mim grande confiança: cheguei a comandar interinamente a secção como Cabo, e foi precisamente numa dessas missões, em 1968, que a guerra me deixou marcas para sempre.Durante uma operação em Muié, enquanto cercávamos a base inimiga, fomos surpreendidos por uma emboscada. De repente, senti o impacto de um tiro disparado pelas costas — à traição. A bala atravessou-me pela clavícula e deixou-me paralisado do lado direito. Caí no chão a pensar que ia morrer ali mesmo. Guardo poucas memórias desse momento traumático, mas nunca esquecerei o som do helicóptero a aproximar-se — foi a esperança a renascer em mim. Em Portugal, a minha mulher recebeu um telegrama a anunciar a minha morte. Preparava-se para o luto quando chegou a notícia de que afinal sobrevivera. Sobrevivi, mas fiquei com cicatrizes físicas e psicológicas. Trago ainda estilhaços no corpo que me impedem de fazer exames como a ressonância magnética. Perdi por completo a audição de um ouvido e do outro tenho apenas 50% de audição. Trouxe também as marcas invisíveis: a ansiedade e o stress pós-traumático que me acompanharam para o resto da vida.Regressei a Portugal a 20 de janeiro de 1970. Voltei ao trabalho como estofador e, com a minha esposa, abracei outros negócios que nos ajudaram a erguer a vida em família. Criei dois filhos: a mais velha nasceu no ano em que parti para Angola e o meu segundo filho viria a nascer 5 anos mais tarde. Aos 55 anos, tornei-me avô e hoje tenho dois netos maravilhosos. Agora, prestes a completar 84 anos, olho para trás com gratidão. A guerra tirou-me muito, mas ensinou-me que sobreviver foi o maior milagre da minha vida. O que mais me marcou até hoje foi o sofrimento da minha esposa que, durante toda a sua vida, repetia:“Recebemos um telegrama a dizer que tinhas morrido”.Posso dizer que a Guerra Colonial deixou-me cicatrizes físicas e psicológicas que carrego até hoje. Mas sei o quanto os meus familiares estão orgulhosos do meu percurso enquanto militar. Hoje, numa fase mais frágil da vida, é na minha família que encontro apoio e suporte, sobretudo na minha neta, que me considera o seu grande herói. As suas palavras e o amor de todos valem tudo — e se partir amanhã, parto descansado e com a sensação de missão cumprida.
NOME
Carlos Maria Pereira de Figueiredo
COMISSÃO
Angola (1967–1969)
FORÇA
Batalhão de Cavalaria 1928 – Companhia 1777
1.º Cabo
83 anos, viúvo, 2 filhos e 2 netos. Nascido em Lisboa, Parede.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.