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Sou um tipo que se decidiu pelo erudito

Não há críticas para o Governo de João Jardim. É plural, apoia ranchos, bandas, associações e a música clássica. Apoia a erudita que Rui Massena dirige no Funchal e já dirigiu num concerto recente no Carnegie Hall, em Nova Iorque. O maestro não esconde a ambição mas também é músico para Rui Veloso, a Ala dos Namorados... o hip hop dos Da Weasel. Só não lhe chamem maestro ‘pop star’. É músico e com ideias.

10 de junho de 2007 às 00:00

- Já foi aclamado no Carnegie Hall; acredita que poderia dirigir qualquer orquestra nacional?

- Tenho a certeza. Mas naturalmente que com 34 anos tenho muito para crescer enquanto músico, director de orquestra, como homem.

- É ambicioso. Mas até que ponto se fará usar dessa ambição?

- Gostava de ir o mais próximo possível do trabalho interpretativo – ter maior proximidade possível com o texto que o compositor escreve.

- Como é o ambiente que se vive em grandes salas de espectáculos, como em Nova Iorque?

- É a diferença entre fazer um concerto para uma sala de 600 ou 1000 pessoas e uma de 3500. Nem sempre é verdade, mas é um ambiente de maior proximidade com a música erudita. Acho que as pessoas vão ouvir os compositores, vão ouvir um texto de Beethoven, de Brahms, vão ouvir música. E há uma certa exigência perante as interpretações porque as pessoas estão atentas aos pormenores técnicos. Enfim, acho que as pessoas têm proximidade com o texto dos compositores.

- E é muito diferente de cá?

- Não, acho que nós cá também temos um público que gosta muito desta área. Temos é menos público. Talvez sejamos um país com uma tradição mais pequena. E não falo dos Estados Unidos, falo de países europeus, por exemplo, a Alemanha, ou a França, ou a Áustria. São países que quando fazemos concertos sentimos essa proximidade.

- Qual foi o repertório do concerto no Carnegie Hall?

- Só Beethoven. O ‘Prometeus’ e o concerto n.º 3 de piano e orquestra.

- Brevemente vai tocar na Europa; o repertório é muito diferente?

- As escolhas variam muito, dependendo daquilo que queremos dizer. No geral, gosto de fazer um repertório mais do séc. XX – e, claro, outros compositores, gosto muito de Mozart. Mas a escolha varia também conforme o local onde vamos porque há um cruzamento de influências e de interesses.

- Alguma vez escolheu tocar só compositores portugueses?

- Para ser franco ainda não. Gosto de fazer compositores portugueses, mas não vejo razão para só fazê-los a eles. Gosto de misturá-los com os outros, porque têm todos o mesmo valor.

- Quais são aqueles de quem gosta mais de falar?

- É melhor falar dos antigos, porque com os modernos tenho uma relação quase diária – estamos numa fase experimental da música, de descrever o que cada um é. Dos antigos, gosto do Joly Braga Santos, Lopes-Graça...

- Tem 34 anos, como vê esta nova geração de maestros e solistas?

- Eu estou muito optimista. Vivemos num país onde, ao nível de maestros e de directores de orquestra, temos uma geração de quatro, cinco nomes com grandes qualidades. Estão ao nível de qualquer outro maestro da sua idade noutros países, sejam eles nos Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra. Se calhar até temos alguma coisa que falta a esses países que têm uma certa tradição musical.

- O quê, por exemplo?

- Acho que temos um grande capital dramático, um talento natural para a música que poderá fazer a diferença. Não temos é uma coisa: as mesmas oportunidades. Acho que a geração de maestros e solistas – como intérpretes – o circuito musical ainda não permite que nós tenhamos vida musical e que a construamos desde muito cedo.

- Sente-se um maestro insular na Madeira?

- Não, porque continuo a fazer o meu trabalho fora da ilha e porque a Orquestra Clássica da Madeira tem uma qualidade de apelação interessante. Quando trabalho aqui e vou depois para outras orquestras muitas vezes sinto a diferença, até para melhor aqui.

- Já disse antes que guia a Orquestra da Madeira da mesma forma que se dirigem as europeias; sente-se um inovador?

- Ninguém inova enquanto programador e director artístico de Orquestra. Aquilo que eu tenho feito com a Orquestra Clássica é aproximá-la da comunidade. Enquanto maestro, acho que não inovo – um intérprete não pode sair do texto.

- Pretende regressar para o continente?

- Agora tenho aqui um projecto para elevar a um determinado nível. Mas a música não começou comigo na Madeira – sou natural do Porto; gosto de viver cá mas a música não nasceu aqui e não irá acabar aqui agora.

- Portugal é pequeno para si?

- Não acho que Portugal seja pequeno. Aliás, eu adoro trabalhar cá e acho que até nem trocaria o nosso País.... eu gostava sim de trazer para a Madeira uma centralidade musical. Acho que as cidades portuguesas têm a possibilidade de crescer. Assim tenho pensado aqui em relação ao Funchal e à Madeira e acho que Lisboa e o Porto já têm mercados musicais bastante consideráveis.

- Foi inédito que uma orquestra, neste caso a sua, tenha acompanhado Rui Veloso e a Ala dos Namorados?

- Acho que foi inédito no nosso País em relação a estes cantores. Mas foi sobretudo passar a barreira de que uma orquestra perde a sua identidade quando se funde, por exemplo, com instrumentos electrónicos.

- E o desafio aumentou quando passou para o hip hop ao lado dos Da Weasel.

- Esse projecto, sim, foi inédito. No mundo do hip hop tinham-se feito gravações onde entravam violinos, agora, nunca com uma orquestra a tocar a música deles. E foi interessante. Primeiro porque eles são de facto uma banda especial – são verdadeiramente disciplinados e artísticos. A abertura deles permitiu que se encontrasse um modelo que incluía produções orquestrais e interlúdios. O espectáculo foi um mundo novo que se criou, porque acho que no hip hop nunca se tinha feito nada assim.

- Acha que é visto como um maestro ‘pop star’?

- Eu não sou um maestro ‘pop star’, sou acima de tudo músico. Estabeleci um desafio artístico. E este concerto representa um entre 40 que faço num ano. Agora este foi feito para 40 mil pessoas, os outros são para 500 ou 600. É importante passar por isto porque fi-lo com grande parte dos melhores músicos de orquestra. Se eu sou um maestro popular, então os Da Weasel também são músicos populares, pronto.

- Mas se lhe chamarem maestro ‘pop star’ identifica-se ou não?

- Não sei... eu não quero ser o maestro ‘pop star’, quero fazer música bem feita. Quero ser bom naquilo que faço e escrevo. Só fará essas conotações quem não assistiu ao meu espectáculo e quem não percebeu como foi feito.

- Havia duas partes distintas? A que o define como erudito e a que identifica os Da Weasel?

- Exactamente. Porque repare, fui eu que escrevi os textos de orquestra. É como fumar um charuto. Isto é cultura actual. Nós não podemos passar ao lado de um fenómeno como os Da Weasel. O Pacman a escrever um texto não deixa de ser um escritor contemporâneo, que influencia todos. É da minha geração.

- Com a diferença que o maestro tem outras ligações musicais.

- Sou um tipo que se decidiu por um lado erudito, também por necessitar da História, Filosofia, da música história, de compreender o passado para me engrandecer. Ainda hoje o faço.

- Para aqui chegar terá muitas referências musicais de estilos e géneros diferentes. Quais são?

- Enquanto tinha 14, 15, sei lá, 17 anos, nunca ouvi a música que os meus colegas do liceu ouviam. Nunca tive bandas preferidas porque eu estava ligado ao mundo onde estudava – que era uma comunidade escolar muito forte no sentido social, utilizávamos a música para comunicar, fazíamos sempre as nossas músicas, era tudo feito à nossa medida. Hoje apetece-me, se calhar, viver coisas que nunca tinha vivido.

- Teve uma infância preenchida pela música?

- Tive sempre uma relação prática com a música. Estudei na Academia de Vilar de Paraíso (num ambiente humano muito forte) onde, para além das aulas, tínhamos uma componente lúdica da música: fazíamos musicais onde contávamos as nossas histórias. Eu compus, dirigi. Aliás, daí veio o meu grande impulso para a direcção de orquestra.

- E que instrumentos tocava?

- Toco piano. E desde muito cedo que tenho uma relação com o jazz e a música improvisada. Com os meus 13 ou 14 anos, paralelamente, íamos para o piano tocar umas canções. Tocava Beatles. Talvez seja daí que venha este meu lado mais comercial. Estudei também violino durante cinco anos numa perspectiva já para a direcção de orquestra, para conhecer a linguagem das cordas.

- Há nomes sonantes da música que o tenham influenciado?

- Sim, desde que tomei a decisão de estudar direcção de orquestra em Lisboa. Estudei com Jean-Marc Burfin. Depois tive grande contacto com Jean Sébestian Béreau, Robert Delecroix.

- Tem músicos na família?

- O meu avô materno tocava guitarra de Coimbra. Já a minha mãe canta muito bem e o meu pai aprendeu piano para me ensinar. Nada mais do que isso. Mas os meus pais foram absolutamente decisivos, incentivaram-me sempre.

- Já se apaixonou por alguém que tocasse da mesma forma que o maestro vive para a música?

- Já, sobretudo na adolescência. Acabo por me apaixonar pelas pessoas com quem trabalho porque tenho momentos, em concertos, em alguns ensaios, de cumplicidade. Não tem mais do que a importância do momento. Às vezes quando tenho um solista que toca muito bem, quando temos um músico de orquestra faz um solo espectacular, ou porque durante o concerto houve aquela troca de olhares, estou a apaixonar-me.

- Se a música descontrai mas é a sua profissão, como é que o maestro descontrai?

- É muita tensão... Adoro ir ao cinema, visitar a minha família, pais, vizinhos ao Porto. Gosto muito de ler. E tenho o meu filho que me ocupa muito tempo livre. Sendo que nós músicos temos uma coisa horrível, parece que nunca temos tempo livre.

- Como olha para os apoios do Governo ao nível da música clássica e de orquestra?

- Aqui na Madeira, eu digo-lhe já que não tenho críticas a fazer. Porque numa terra com 150 mil habitantes o Governo Regional tem sabido manter a pluralidade de ter tanto bandas, como ranchos, associações. Investindo uma grande fatia do orçamento na cultura e um dos governantes – estou a falar tanto do presidente, Alberto João Jardim, como os secretários do Governo Regional – vão regularmente aos meus concertos e no final eu tenho contacto com eles.

- Portanto, as suas críticas vão para o continente?

- Acho que está na altura das instituições portuguesas terem portugueses à frente. Estou a falar mas sou um privilegiado. Não é crítica, é reflexão: acho que apesar de tudo não temos que ter medo de pôr jovens a frequentar os grandes ambientes musicais portugueses, porque se não tivermos hoje, amanhã não vamos ter uma geração. Nós gostamos de trazer para cá os grandes maestros internacionais, os grandes solistas internacionais...

- E descoramos os portugueses?

- Temos medo dos maestros portugueses mais novos, que não têm tanta experiência mas que, se calhar, compensam com a energia que levam para os projectos. É importante que eu esteja na Madeira, porque amanhã se for necessário estar à frente de uma orquestra nacional já vou ter experiência de uma regional. Mas não quero ser entendido como xenófobo. Não é isso.

NOME: Rui Manuel Massena da Silva Pereira

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO: Porto, 26 de Dezembro de 1972

ESTADO CIVIL E FILHOS: Casado, um filho, o Rui Pedro, de 4 anos

O MAESTRO: Rui Massena é director artístico titular da Orquestra Clássica da Madeira (desde 2000), director pedagógico do Conservatório Escola de Artes da Madeira (desde 2005) e director artístico do concurso internacional Madeira Music. O maestro realizou em Maio o objectivo máximo da carreira que desde cedo sonhou para si próprio, dirigiu a New England Symphonic Ensemble, no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Antes, tinha dirigido a Filarmónica Checa no Dvorak Hall, em Praga (Fevereiro de 2006). Rui Massena licenciou-se em Direcção de Orquestra na classe do Maestro Jean-Marc Burfin, na Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa

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