Iniciativa do Teatro da Cornucópia de encenar com voluntários pôs o dedo numa ferida profunda: o desemprego no setor.
Tratou-se de uma experiência nova para o Teatro da Cornucópia: em vez de contratar atores profissionais, a companhia abriu estágios a voluntários. A ideia era solucionar a falta de verba para a contratação de profissionais e tornar-se um acontecimento particularmente estimulante. Retalhos de peças escritas na juventude por García Lorca fizeram o texto, num espetáculo que convocou mais comentários do que palmas, pondo em cena outra questão: o desemprego e a precariedade entre os trabalhadores do teatro.
André Albuquerque, membro da direção do CENA – o sindicato dos atores e profissionais do teatro –, evidencia os números. "Dos 50 novos sócios do ano passado, 90 por cento paga a quota social, o que significa que a esmagadora maioria ganha menos de 14 ordenados mínimos por ano", frisa o ator, que se prepara para fazer uma curta participação especial, depois de alguns meses sem trabalho.
A realidade imposta pelos cortes no orçamento de Estado para a Cultura e consequentemente nos apoios da Direção-Geral das Artes às companhias é dura: "Há menos espetáculos, os que se fazem têm menos atores (até aumentaram os monólogos) e as peças estão menos tempo em cena. Já para não falar que o tempo de ensaios é também cada vez mais curto, com prejuízo para o trabalho do ator", acrescenta André Albuquerque. Outra realidade é o aumento de espetáculos à bilheteira: isto significa que os ensaios não são pagos e que os profissionais, todos, dividem apenas o lucro da venda dos bilhetes, que às vezes nem chega a 10 euros por noite.
Os ordenados, quando os há, andam pelos "700 euros, a recibos verdes, e recebe-se de forma intermitente". A precariedade sempre foi regra no mundo dos espetáculos e agora "ainda está pior". E também por aqui há cada vez mais gente do meio a emigrar, à procura da subsistência: "Já não vão para estudar teatro, mas sim para trabalhar no café do tio, sem qualquer perspetiva de voltar ao palco." Por isso, o trabalho voluntário e amador custa-lhes a engolir.
André Teodósio, ator mas também diretor artístico do Teatro Praga, sente as dores de ambos os lados. "É preciso cortar, cortar, cortar. E onde se corta? Sobretudo nas pessoas. Os espetáculos são feitos com o mínimo indispensável. Não se mandam fazer fatos, compram-se feitos, porque sai mais barato. Às vezes, as pessoas da companhia deixam de receber para que se possa pagar àqueles que vêm de fora." Ainda assim, André resiste à ideia do trabalho voluntário, mesmo que seja em nome da sobrevivência. "Eu já o fiz, muito pela vontade de trabalhar com determinado encenador. Mas isso era eu. Acho que seria incapaz de o propor aos outros. Se eu estou a ganhar, por pouco que seja, que direito tenho eu de não pagar a quem está igualmente a trabalhar?", questiona.
Há um ano sem trabalho está a atriz Rita Ribeiro: "Sou filha de atores, o que significa que ouço falar da crise e da incerteza desta profissão desde que me lembro. Se as coisas estão piores? Só se for para aqueles que têm contratos televisivos e que viram os cachets ser cortados. Mas como eu nunca tive essa sorte…" Por isso, Rita Ribeiro, 40 anos de carreira, faz do improviso a palavra de ordem: "Neste momento estou a dar aulas e a cantar. O mundo muda e nós temos de saber mudar com ele. Mas que as coisas estão mal, lá isso estão! E nem sei explicar como foi possível chegar-se a este ponto."
ESPELHO DO PAÍS
Mais do que nunca, o País retrata-se no teatro. "Está tão mal como tudo o resto. Se às pessoas já falta dinheiro para irem à farmácia e ao supermercado, como é que podem ir ao teatro? Enfim, é o Governo, o povo e o País que temos", acusa, por seu turno, Guida Maria.
São José Correia gostava de ver as coisas a mudar, mas não está a ver como. "Esta é uma classe pouco unida. Cada um faz para o seu bolso, para o seu teatrinho, com o seu amigo. Eu gostava de saber o que é que acontecia se Lisboa ficasse um mês ou dois sem espetáculos… sem espetáculo nenhum! Era o caos, porque as pessoas precisam do espetáculo, por uma questão de sanidade mental", garante São José Correia. Freelancer há 10 anos, a atriz tem aprendido a lidar com a precariedade. "Os cortes atingem sempre quem tem menos condição. Eu ganho o suficiente para pagar a renda, mas há gente que nem isso. Aprendi a ter muita calma, a procurar, porque quando acaba um trabalho não tenho outro contrato. Quando muito, tenho algo apalavrado, mas tudo muda rapidamente e nada está garantido." São José não percebe, por isso, a atitude da Cornucópia: "Tenho muito respeito pelo Luís Miguel Cintra, mas não percebo o que está ele a tentar provar, quando a sua companhia é aquela que sempre teve os maiores subsídios." Ou seja, 309 mil euros este ano, que costumavam ser (antes dos cortes) mais de 600 mil.
APARENTE NORMALIDADE
Numa das salas do Cinearte, onde se instala a Barraca, um ensaio prepara uma nova estreia, planeia-se uma digressão e um espetáculo para apresentar na Assembleia da República por ocasião do 25 de Abril. Tudo parece fluir dentro da normalidade. "Mas a verdade é que já tivemos de adiar peças e houve profissionais que tiveram de ser suspensos. Felizmente já regressaram, porque aqui encaramos as pessoas como uma família. E as pessoas têm de comer, beber e viver minimamente tranquilas para poderem trabalhar", lembra Hélder Costa, encenador e um dos fundadores do grupo.
O segredo é usar a imaginação. "Vamos sendo criativos: temos uma série de espetáculos que interessam às escolas, como o ‘Felizmente Há Luar’. Agora vamos fazer ‘Fernão Mendes Pinto’, a propósito dos 400 anos de ‘A Peregrinação’. Enfim, vamos recuperando. Felizmente, sempre tivemos público. Senão, nunca teríamos existido", garante o encenador.
Ainda assim, não contém o que lhe vai no peito. "É inacreditável aquilo que se passa. A Barraca, o máximo que conseguiu foi 180 mil, que depois foram cortados para 120 e este ano ficou inexplicavelmente com pouco mais de 50 mil euros. Temos aqui mais de 20 pessoas em permanência e é difícil reduzir ainda mais. É um milagre a gente conseguir."
Por isso, Hélder Costa admite ser difícil falar dos colegas, mas não esconde a incompreensão dos argumentos da Cornucópia e de Luís Miguel Cintra: "Há um lado bom do projeto, que é dar a oportunidade às pessoas que não são atores e que gostam do teatro. Mas é extremamente discutível que tenha sido por não ter dinheiro para pagar a atores profissionais. Há uma certa manipulação demagógica nessa argumentação."
Numa sala do Teatro Nacional D. Maria II, Jorge Silva Melo instalou o seu portátil da Apple a um canto do cenário de ‘O Regresso a Casa’, de Harold Pinter, que a sua companhia, os Artistas Unidos, estreará em abril. É dali que trabalha, mas também admira os atores. "É impressionante ver como os artistas estão neste momento a inventar as mais extravagantes formas de dar a volta a uma situação que é muito difícil: os seus orçamentos mensais sofreram cortes de 30 a 40 por cento, houve reduções de elenco, o emprego é muito, muito precário. Ainda há pouco tempo falava com um ator, muito conhecido, que no ano passado entregou uma declaração de rendimentos de 2200, o seu rendimento anual", recorda Jorge Silva Melo.
Segundo as suas contas, porém, as pessoas têm ido mais ao teatro. "Sobretudo ao teatro da diversão e do riso. Mas estão a ir mais e isso é que importa. Há uma superação do cinzentismo, talvez porque os atores e os espectadores estão vivos, que é aquilo que não se vê nos políticos e na assembleia."
Para Jorge Silva Melo, o problema passa pela política, que nunca foi muito coerente: "O Governo vai atribuindo subsídios a uns porque são velhos e refilam, a outros porque são instituições, mas esqueceu-se sempre de uma coisa: de atribuir subsídios porque as pessoas gostam e vão ao teatro."
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