Odia em que Maria Celmira Bauleth regressou a Angola foi de feriado nacional. Quando o avião aterrou havia um mar de gente à espera dela no Aeroporto de Luanda. Improvisou-se uma passadeira aérea para tirá-la de lá. Lançaram-na depois num automóvel descapotável. Percorreu as ruas da cidade, acenando ao povo, tal e qual uma rainha. Maria Celmira era uma rainha – da beleza. Natural de Moçâmedes, tinha sido coroada Miss Portugal 1971. Faz agora 36 anos. O tempo não a poupou – nem a outras, como Ana Maria Lucas ou Carla Caldeira, que usaram a coroa –, mas o título libertou-a do esquecimento.
É uma mulher alta. Morena. Protege os olhos inflamados pela renite, “é sempre assim nesta altura do ano”, atrás dos óculos de sol com armação grande e branca. Os lábios são cheios. Movimenta-se com elegância – do tipo que não compromete a ligeireza dos passos e dos gestos.
Não perdeu a agilidade que em miúda a habilitava a subir às árvores e a jogar basquetebol no liceu. Frequentava o 7.º ano antigo, actual 12.º, quando, um dia, à saída do cinema, lhe falaram do concurso Miss Angola. Logo a ela que “nunca tinha desfilado nem ouvido falar de misses”.
Naquele tempo, Portugal era do Minho a Timor e tinha um pé em África. Tudo servia para propagandear a ‘unidade do Império’ – a beleza feminina não era excepção. 1971 foi o ano em que, pela primeira vez, Angola se fez representar na eleição da mais bela mulher portuguesa.
Daí o empenho dos “jornalistas da revista ‘Notícia’, que percorreram o país todo de avioneta a promover o concurso.” Não era a competição propriamente dita que seduzia Riquita – é por este nome que todos conhecem Celmira –, derivação de ‘riquinha’, como lhe chamou o médico que a fez nascer aos sete meses de gestação. O que lhe agradou foi a perspectiva de se divertir em Luanda: “Ir à praia e a cocktails.”
DIVERTIU-SE MUITO NA PRAIA E NAS FESTAS
Divertiu-se muito na praia e nas festas. Em contrapartida, sorria pouco em palco. “Os organizadores diziam-me que eu era a concorrente favorita e só lamentavam que eu não sorrisse.” Decidiram contar-lhe uma “anedota ordinária” envolvendo um peixe-espada.
Nos bastidores, Riquita fartou-se de rir, mas nos desfiles mantinha a sisudez, até começarem a gritar-lhe da plateia ‘Peixe-espada! Peixe-espada!’ Riquita diz que já não se lembra da piada. Desculpa-se por não saber contá-la. Ou então recorda-se e continua a rir-se sozinha.
Fosse pelos seus lindos olhos ou por causa das gargalhadas, a menina de Moçâmedes, actual Namibe, ganhou a eleição. No ano seguinte voou para Portugal.
Encontramo-la então no Casino do Estoril. Nunca antes e nunca depois lá receberam um presente como o que os mucubais, tribo nómada da região de Capangombe, onde os pais de Riquita tinham uma fazenda, enviaram à rapariga: uma planta carnívora – Welwitschia Mirabilis – que só existe no deserto do Kalahari. Queriam dizer-lhe que se orgulhavam dela. Ela retribuiu-lhes com a vitória na metrópole. “Para os angolanos a eleição era muito importante. Mandavam-me telegramas, compuseram uma canção para mim.”
Depois de Lisboa viajou para Miami, nos Estados Unidos, onde participou na eleição da Miss Universo. Riquita apresentou-se com o traje tradicional dos mucubais e com adereços emprestados por eles – untados com leite azedo e excrementos de boi. “Havia quem se afastasse por causa do cheiro.” Fosse como fosse, a festa tinha acabado. “Era tudo muito profissional. Muito sério. Ensaios das sete da manhã às sete da noite. Não era para mim.” Desistiu.
O pai escreveu uma carta aos organizadores do concurso Miss Portugal agradecendo-lhes a atenção dispensada à filha e, de caminho, informando-os de que ela se ia embora. Sim, abdicava da coroa. Foi um escândalo. Quiseram obrigá-la a devolver todos os prémios. Riquita fincou o pé e já não participou no concurso Miss Europa. Regressou a Moçâmedes e, mais tarde, frequentou a Universidade de Luanda.
Depois do 25 de Abril, veio para Portugal, onde fez carreira de modelo até completar 35 anos. Hoje permanece ligada aos bastidores da moda, através da produção e comercialização de roupa. Também dá aulas de passerelle. Não sente a falta dos flashes. “Durante dois anos fui capa de todas as revistas. Bastou-me.” O mais importante – será a renite ou a emoção que agora lhe humedece os olhos? – é, sublinha, o amor do povo angolano e esse ninguém pode alguma vez tirar-lho.
Os anos deixaram-lhe marcas no rosto – vincos na testa, sulcos debaixo dos olhos, traços verticais nas faces. “Há algum tempo comecei a pensar em esticar um bocado a cara.” Riquita teme parecer “a avó das amigas” se não recorrer à cirurgia estética. “Elas [as amigas] eram mais velhas do que eu e agora dizem que são quase da minha idade.” O cabelo dela, escuro e brilhante, desmancha-se quando ri.
E ri muito, como se ainda lhe gritassem ‘Peixe-espada!’ de uma qualquer plateia, ao sublinhar as vantagens de ver(-se) mal e “nunca usar óculos de manhã”. No resto do dia, as lentes progressivas não ajudam. “Quando comecei a usá-las e me vi bem ao espelho disse: “Não sou eu.”
Qualquer dia, também porque o rosto não combina com a juventude do espírito, a Miss Portugal 1971 e eterna Miss Angola vai sujeitar-se, não a retoques, “mas a um tratamento completo, dos pés à cabeça”. E eis que o cabelo de Riquita se desmancha de novo.
TODA A GENTE SABE...
Toda a gente sabe que Ana Maria Lucas foi a primeira Miss Portugal. Ela diz não pensar muito nisso. Mas as pessoas lembram-lho constantemente. Foi em 1970. Ana Maria tinha 20 anos, quase 21. Não sabia sequer que era concorrente até ver a sua fotografia no ‘Diário Popular’. Naquele tempo era diferente. “Éramos propostas por pessoas da Comunicação Social. Eu fui escolhida pela Maria Leonor [jornalista e apresentadora].” Pensou que os pais não autorizariam. Mas Maria Leonor tinha falado com eles. Estava tudo combinado.
Embora fosse manequim desde os 16 anos, Ana Maria Lucas não confiava na vitória. “Já estava a despir-me para me ir embora quando o José Fialho veio dizer-me que tinha ganho e era preciso voltar ao palco.” Opalco girava e, no final da volta, diante da assistência, a rainha devia apresentar-se sentada no trono. “Por pouco não apareceu vazio”, lembra Ana Maria, piscando o olho a quem acaba de atirar-lhe um piropo: “És a avó mais elegante deste País!”
O dia é de ‘Tertúlia Cor-de-Rosa’, rubrica do programa da SIC ‘Fátima’, em que a Miss Portugal 1970 é comentadora. Nos corredores dos estúdios ComunicaSom, local de gravação, os técnicos e artistas saúdam-na com amabilidade. Quando o programa acaba, ela circula por ali com o cigarro a consumir-se entre os dedos e retribui-lhes com palavras simpáticas, sorrisos e piscadelas de olho. “Gosto de fazer televisão.”
Filha de um jornalista do ‘Diário de Notícias’ e revisor da Bertrand, Ana Maria Lucas cresceu num ambiente informado. Mas, se ainda jovem pôde sair de Portugal e conhecer outros países, foi porque tinha na cabeça a coroa de rainha da beleza. “Lá fora, nas entrevistas, expressava mais ou menos o que era o meu País naquela altura. Nunca fui uma mulher de Direita.” Sempre foi “de Esquerda” e sem papas na língua: “Jamais usei o título para comprar bifes.” É à ética do trabalho que continua a reportar-se.
Passada a eleição, fez publicidade, apresentou o Festival da Canção de 1971 – ganhou Tonicha, com o tema ‘Menina’ –, passou modelos, casou com o cantor Carlos Mendes, trabalhou numa empresa de vestuário que tinha 13 lojas. Desenhou roupa e aí rectifica: “O que mais gostei de fazer foi estilismo e televisão.” Participou em telenovelas, apresentação de programas e recentemente no ‘Big Brother Famosos’.
É à circunstância de se apresentar publicamente que a ‘tertuliana’ atribui ter feito alguns ‘retoques’ – até agora apenas peeling e botox. “Andam a oferecer-me operações plásticas há mais de dez anos. Um dia lá terá de ser: quem tem uma imagem pública deve algum respeito aos que estão a ver.” Ana Maria Lucas gostaria de continuar a ser vista, por exemplo, num programa dirigido às mulheres.
NUM DIA DE SOL
Num dia de sol primaveril Carla Caldeira apresenta-se sem óculos escuros. Não teme que as rugas se abram em leque nos cantos dos olhos. Tem feições clássicas e regulares. É uma mulher muito bonita e muito alta. Quem passa diante do mar da Costa da Caparica olha para ela e pergunta-se de onde a conhece. Foi eleita Miss Portugal em 1990. Eram já outros os tempos – menos dados à adoração popular das belas, direccionados para o aproveitamento comercial do evento.
Foi o pai que praticamente a obrigou a candidatar-se. “Recortou o cupão do Correio da Manhã e disse-me que eu não podia abandonar a mesa se não o preenchesse. Foi ele a tirar-me as medidas.” Ela tinha 16 anos. Fez 17 em 1990. Estava muito assustada durante a gala de eleição. “Só me apetecia fugir dali.” Ter ouvido o seu nome animou-a. “Primeiro pensei que eram os meus pais, os meus únicos convidados, mas eles não podiam fazer tanto barulho.” Pois não. Era a assistência que, mesmo antes do júri, já a tinha preferido.
Depois passaram a conhecê-la na rua. “Uma pessoa nunca está preparada para passar do mais absoluto anonimato para este tipo de exposição.” Nos anos seguintes, após ter frequentado o curso de manequim, participou em passagens de modelos e na apresentação de programas de televisão, entre eles o ‘Top +’. Mas Carla queria ter filhos. Queria formar a sua própria família.
Rapidamente percebeu que a imagem de mãe não casava com a de modelo. “Perdi trabalhos pelo facto de ter engravidado.” Hoje não lamenta. Montou a sua própria empresa – Carla Caldeira Produções –, relacionada com a organização de eventos radicais e tem três filhos, de 4, 7 e 8 anos. O do meio não gostou de vê-la na gala dos 50 anos da RTP com um vestido que lhe deixava ‘a raiz’ – palavra do João para designar a coxa da mãe – à mostra. Já a Catarina não gosta que estranhos falem à mãe na rua. Ela explica-lhes como pode: “É por causa da televisão.”
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.