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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

UM LADRÃO SENTIMENTAL

Sempre sozinho, de pistola na mão, chorava as mágoas de uma vida arruinada enquanto assaltava bancos. Com o dinheiro na mala voltava a França, para tentar salvar um negócio falido, um casamento destroçado. Falhou em tudo, no dia 18 foi condenado a 21 anos de prisão, quase tantos como as agências que assaltou atabalhoadamente – um dia, frente às câmaras de vídeo, retirou o capuz para limpar o suor.

28 de março de 2004 às 00:00

Quatro anos depois do último encontro com o Solitário, Carlos Alberto (nome fictício) ainda faz fisioterapia à conta das mazelas físicas da luta. Ainda hoje tem pesadelos por causa daquele homem de pele clara, cabelos grisalhos e olhos pequenos.

Carlos, bancário agora reformado, teve o azar supremo de testemunhar dois dos 29 assaltos de Manuel Marques Simões a instituições bancárias. Viu-o no dia 4 de Junho de 1998, na agência do Banco Mello de Vilarinho do Bairro, na Anadia, e na mesma dependência em 11 de Agosto de 2000. Ainda não tinha esquecido a voz com sotaque estranho que se lamentava da sua vida, enquanto ameaçava a dos outros. Da segunda vez, porém, encheu-se de brios. Engoliu o medo, e, depois de gritar para o companheiro de trabalho “Estamos fodidos!”, juntos avançaram para o homem que queriam apanhar a qualquer custo.

O Solitário – como lhe chamava a Polícia Judiciária de Coimbra, quando ainda não sabia o nome do assaltante –, tinha acabado de entrar na mesma dependência do grupo BCP e gritava mãos ao alto. Era o seu último assalto. Desta vez, os dois bancários resistiram e lutaram.

Voltar ao local do primeiro crime tinha sido um erro. Surpreso com a reacção dos bancários, Manuel Marques Simões acabou por fugir. Deixou para trás o relógio de pulso, uma pasta com duas chaves de fenda e 14 munições de calibre 6.35 mm. Terminava assim a louca corrida de um assaltante de bancos que baralhou a polícia por ser “atabalhoado.”

O assalto da Anadia saldou-se em prejuízo. Até então Carlos já tinha roubado mais de 500 mil euros (cerca de cem mil contos) entre 1998 e 2000, a agências do distrito de Bragança ao de Évora. Apesar da dispersão geográfica, a zona centro do país foi aquela onde se concentrou, bem perto da terra onde tinha nascido – Rio de Couros, Ourém, a 5 de Maio de 1949, e donde tinha emigrado para França, deixando mulher e filha.

Por terras de França casou com Annie Yvette, montou casa em Nice, teve um filho que baptizou de Franck; prosperou com a sua Solutions – Automatisme, uma empresa de automatismos de portões e carpintaria de alumínios que chegou a empregar cerca de 30 pessoas. O negócio rendeu-lhe o suficiente até para abrir um pequeno escritório de exportação em Portugal.

A vida fácil não durou. Manuel Marques Simões vai entrar em bancos de ‘cocktail molotof’ na mão, derramar gasolina numa gerente da agência, sequestrar funcionários e clientes em salas acanhadas. Com uma arma em punho gritará: “O vosso banco fodeu-me. Desgraçaram-me a vida, para a cadeia não vou e em último caso dou um tiro na cabeça.” Não deu. No dia 18 foi condenado a 21 anos de prisão pelo Tribunal Criminal da Anadia.

O MÓBIL DO CRIME

Em Junho de 1998, quando o Solitário chega a Portugal num veículo comprado em sistema de ‘leasing’ pela sua empresa, e com matrícula falsa, não vem como intenção de ver a família em Carvalhal do Meio, Ourém. Na cabeça trazia a louca ideia de roubar um banco para financiar a sua Solutions – Automatisme, entretanto descapitalizada e à beira da falência. Os negócios corriam-lhe mal, o casamento com Annie Yvette também. E não era só por causa da falta de dinheiro em casa. Annie nega-lhe 'relações íntimas', por causa de outras mulheres que ele terá tido. Isso mesmo explica por escrito ao procurador-adjunto do Tribunal da Anadia.

Manuel Marques gosta de escrever cartas. Quando a polícia lhe passa busca à casa portuguesa, em Serra de Minas, encontra-lhe correspondência. E esse hábito mantém-se mesmo depois da captura. Hoje corresponde-se com um dos inspectores que o meteu atrás das grades. O mesmo que não nega ter ficado impressionado com a figura quando finalmente a viu –Marques, o homem que mais bancos assaltou em Portugal, que tanto trabalho tinha dado à polícia, não parecia um ladrão perigoso. Estava perturbado e pronto para colaborar com a justiça. Mais tarde, revelar-se-ia mesmo afável e simpático.

À boca do julgamento, que teve início a 9 de Fevereiro, o Solitário sente-se compelido a dirigir-se por escrito ao juiz para contar a sua rocambolesca história. Não escreve em português há 20 anos. Tudo terá começado, diz ele, num restaurante entre Lyon e Nice, quando encontrou um tal de José Oliveira. Viajava uma vez por semana, em negócios, entre as duas cidades. Os dois homens encontravam-se naquele estabelecimento de beira de estrada, entre eles nasceu um entendimento que levou Marques a desabafar sobre os seus apuros financeiros. Oliveira emprestou-lhe dinheiro, que acabou por exigir de volta cedo demais. Por não ter como liquidar a dívida, Marques pondera a sugestão do credor: “Disse que tinha uma solução para pagar e ainda ficar mais rico. Fez-me a proposta para servir de 'chauffer' enquanto ele ia atacar um banco em Portugal.”

Em Junho de 1998, os dois homens terão marcado para assalto o banco da Anadia. Só que acabou por ser Marques a fazer o serviço, sob pretexto do cúmplice correr perigo de ser reconhecido. A sociedade terminou poucos assaltos depois. A versão foi investigada pela polícia e afastada. Era tudo mentira. As vidas de vários 'josés oliveiras' em França foram viradas do avesso. O Solitário merecia mesmo a alcunha, sempre actuara sozinho.

Os dois primeiros assaltos renderam--lhe 2.310 contos. A polícia acredita que o ladrão, quando passava a fronteira francesa, enchia-se de brios de empresário e injectava o produto do roubo directamente na conta da empresa. Mas o dinheiro nunca chegava – os problemas continuaram, os assaltos também.

PERDER A CABEÇA

Nunca se tinha visto um ladrão assim. Manuel Marques chegou a telefonar a uma das funcionárias da agência que tinha assaltado para lhe pedir desculpa e se justificar.

Na esmagadora maioria dos golpes fazia daqueles que ameaçava os ouvidos da sua amargura, ao mesmo tempo que gritava impropérios contra os bancos.

No primeiro assalto, em Vilarinho do Bairro, na Anadia, o bancário Carlos Alberto ouviu-o dizer: “O vosso banco fodeu-me em cinco mil contos. Desgraçaram-me a vida, para a cadeia não vou e em último caso dou um tiro na cabeça. Trago aqui uma garrafa de gasolina e um isqueiro e deito fogo a esta merda.” Quando saiu levava numa pasta preta 640 contos. No dia seguinte, pelas 8h45, entrava na Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Vila Nova de Anços para falar com a gerente sobre uma eventual concessão de crédito. Expediente repetido em todos os assaltos.

De eventual cliente, Marques passa rapidamente a assaltante que exige dinheiro com uma garrafa de gasolina e uma arma na mão. A gerente de Vila Nova de Anços ouviu: “Esteja calada, não pegue no telefone, não tente avisar a polícia se não mato-a e depois mato-me a mim. Preciso de dez mil contos, vocês lixaram-me a vida, vou incendiar isto tudo e começo por si.”

Ainda no mesmo dia, pelas 13h45, entra na Caixa Geral de Depósitos do Louriçal e depois de se queixar da vida, de desabar sobre a sua miséria e o facto de estar separado da mulher e do filho, derrama gasolina pelo chão. O cofre foi aberto. Depois regressa a França.

Assalta duas vezes em Setembro e volta em seguida à terra para onde emigrou. Regressa a Portugal em Novembro e em Dezembro. Já não consegue parar.

Ao todo foram 29 incursões em agência bancárias (em duas não concretizou o assalto) feitas em viagens relâmpago entre França e Portugal. Voltava quando o dinheiro escasseava – quase todos os meses. Durante a investigação, a brigada de Coimbra chegou a conseguir prever a data de um novo assalto com margem de erro fidedigna. Só que tal feito coincide com o momento em que o Solitário começa a roubar outras agências fora da zona do Centro, onde até então sempre atacara. E fica mais longe da polícia.

No Natal de 2000, quando os assaltos já tinham cessado, os investigadores não descansam – passam a consoada à coca do Solitário, convencidos de que este iria à terra visitar a família. Em vão.

FOGE A CORAGEM

Quando chegou ao banco dos réus, o Solitário tinha lapsos de memória. Era um homem abatido. A estatura mediana, o ar cansado, dificilmente deixava antever o autor de assaltos à mão armada. Tinha tido crises de choro durante a avaliação psicológica feita pelo Instituto de Medicina Legal.

Dificilmente se reconheceria nele o homem que, durante o assalto em Vinha da Rainha, no final de 1998, tinha ameaçado a funcionária do banco de morte, logo depois de desabafar: “Só quero o dinheiro, não quero fazer mal a ninguém, a Caixa de Viseu fodeu-me a vida, vendeu-me a casa e a minha mulher deixou-me.” A bancária não se tinha comovido e, enquanto o ladrão se lamuriava, fechou a porta do cofre com o pé.

O Solitário desabafa sempre que pode: enquanto mete o dinheiro na pasta que geralmente transporta, enquanto espera a abertura do cofre. São frases curtas que não fazem sentido para quem as ouve cheio de medo. Sempre que se confronta com a abertura retardada dos cofres não desiste, e com o engenho dos enrascados, passa a obrigar um dos funcionários a afixar um letreiro na porta a avisar que agência estava encerrada durante alguns minutos. O tempo de contar a história da sua vida e fugir com o dinheiro.

À medida que a sua louca correria avança, o Solitário passa de desorientado a modesto profissional. Em Agosto de 2000, num banco em Borba, encontra-se com a GNR. Trocam tiros, mas consegue fugir. Arranjar dinheiro deixa de ser fácil. No assalto seguinte, na Anadia, enfrenta a resistência de Carlos Alberto e do colega de trabalho. Subitamente, tudo lhe corre mal. Está cheio de medo. “Tinha de me dar chapadas na cara, morder os lábios e gritar comigo para ter ‘courage’”, escreve na carta ao juiz.

Manuel Marques Simões estava em ponto de não retorno. O dinheiro roubado nunca chegava, continuava falido e sabia que a polícia estava mais perto. No final do Verão de 2000 decide arranjar um companheiro de armas. Em França chega à fala com um romeno cadastrado e os dois seguem para Portugal para roubar um banco. Nunca se entendem. Em Portugal, quando pára o carro em que seguiam “para fazer as necessidades naturais”, o cúmplice prefere arrancar e deixá-lo apeado. Rouba-lhe a carteira e a viatura.

O PRINCÍPIO DO FIM

Manuel Marques Simões regressa a França de mãos vazias e de comboio. O carro furtado é apreendido pelas autoridades espanholas com os documentos dele. A Judiciária de Coimbra tem já no seu poder uma colecção de impressões digitais e registos em vídeo das câmaras de vigilância.

O assaltante é persistente mas não tem tarimba. Em muitas agências bancárias entrou de cara descoberta, noutras cobriu-se com um capuz já depois de estar lá dentro. Certa vez chegou mesmo a retirá-lo para limpar o suor que lhe escorria pela cara. Só numa ocasião percebeu que estava a ser filmado. Como não conseguiu que lhe retirassem a cassete de vídeo, levou a câmara de vigilância debaixo do braço.

Apesar de tantos erros, só ao vigésimo assalto a investigação pôde relacionar a figura do homem gravada nas cassetes de vídeo – que desaparecia sem deixar rasto depois de actuar – com a identidade do emigrante exemplar em França.

Com o mandato de captura internacional, o Solitário é detido para interrogatório em Nice. Na primeira noite que passa na cadeia tenta enforcar-se com um lençol. Ao psicólogo dirá depois: o que mais quer é morrer. As autoridades judiciais francesas mandam-no para casa aguardar o julgamento em liberdade porque a lei do país não permite a extradição.

Pensa em endireitar-se. Sem empresa, nem casamento, arranja emprego e encarrega-se de contactos comerciais entre a França e a Polónia, onde arranja nova mulher. É também com esta que passa a preocupar-se. Na carta ao juiz que preside ao seu julgamento refere-se a ela: “A minha companheira vive na Polónia e não há trabalho, nem dinheiro. Ela tem dois filhos. O marido dava-lhe porrada e ela deixou-o para viver comigo.”

As viagens tornam-se frequentes, apesar de ter sido alertado para não cruzar a fronteira francesa – noutro país podia ser apanhado e extraditado para Portugal. O Solitário não faz caso, continua a percorrer a distância entre Nice e Varsóvia. Numa dessas viagens é detido pela polícia alemã que, ao abrigo de um pedido de captura internacional emitido pelas autoridades portuguesas, o extradita para Portugal.

Além dos 29 assaltos, 27 deles consumados, Manuel Marques é acusado de 11 crimes de falsificação de documentos, sete de sequestro, 27 crimes de uso de arma proibida e um crime de resistência – estes crimes passaram para processo autónomo que deverá chegar a tribunal só depois de cumprida a pena de 21 anos.

Enquanto o Solitário está atrás das grades, Carlos Alberto, o bancário da Anadia, vai à fisioterapia em Mogadouro. No corpo carregará para sempre as mazelas ganhas em 2000, durante a luta.

As razões que o levaram a enfrentar com tanta gana o assaltante não são claras. Certo é que era um funcionário exemplar e não tinha gostado das suspeitas sobre ele levantadas, por não se ter oposto ao ladrão na altura do primeiro assalto. Ao segundo convence-se que tinha de ser ele a resolver o caso com as próprias mãos – agarrando o criminoso e entregando-o à polícia.

Dois anos depois, com o ladrão longe, no Estabelecimento Prisional de Coimbra, ninguém o convence a dar a cara. Ao telefone, sob anonimato, conta como quase trancou o bandido na casa de banho: “Lutámos. Tentei agarrá-lo mas ele atirou-me contra a parede. Nunca mais vou esquecer esse dia. Nem gosto de falar sobre isso, nem de me lembrar porque fico logo mal disposto. Vai na volta ele sai cá para fora e ainda pode querer vir atrás de mim. E aí o que é que eu faço?”

CARTAS SOLITÁRIAS - Ladrão ajudava vizinhos a escrever

Em Carvalhal do Meio, recordam com saudade o Solitário. Enquanto lá viveu era bom moço: até ajudava os vizinhos iletrados a escrever cartas para França.

A distância entre dois mundos separa Luís Caetano da esposa quando nos anos 60 a correspondência do casal entra pela habitação do emigrante em França, impregnada de saudade. Nas cartas, em voz de mulher, há letra de menino. Chama-se Manuel Marques Simões e vive em Carvalhal do Meio, no concelho de Ourém, a 200 metros da casa que Luís Caetano abandonou, à procura de uma vida com mais dinheiro. É uma criança prestável, que ajuda a esposa do emigrante, analfabeta, a expressar nas letras que não conhece a saudade que se torna familiar dia após dia, semana após semana, mês após mês.

Luís Caetano, 71 anos, hoje retornado à aldeia, recorda com simpatia este pequeno vizinho, sobretudo pelo episódio das cartas e pela ajuda com as vacas num dia de lavrar a terra. Por isso, quando recentemente soube que aquele era o maior assaltante de bancos português, condenado por 27 roubos que lhe renderam 500 mil euros, a memória fez uma viagem imediata em direcção à década de 60 e à normalidade inofensiva de um quotidiano sem electricidade nem televisão, com casas cercadas por pinheiros, oliveiras e azinheiras. “Fiquei doido, admiradíssimo. Eu dele só tenho a dizer bem”, afirma o homem que recebia as cartas de amor com letra de menino.

Nascido há 54 anos, Manuel Marques Simões viveu em Carvalhal do Meio até aos vinte e poucos anos. Emigrou para França na década de 70 e apenas quando o pai morreu, no final dos anos 90, tornou a ser visto com frequência na aldeia natal. Em Setembro de 2002 foi preso na fronteira germano-polaca. E de novo a correspondência se torna um pormenor revelador na sua vida – a partir da prisão, troca cartas com um inspector da Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária que o perseguiu e interrogou.

NORMALIDADE

O Solitário, como lhe chamam nos meios policiais, é o segundo de sete filhos de Manuel Simões e Maria de Jesus. São três irmãos e quatro irmãs, uma das quais se tornou freira. Estudou na escola primária de Carvalhal do Meio até à quarta classe, sem episódios que o resgatassem à normalidade do país rural, entrando na adolescência com a responsabilidade de ajudar a mãe nos campos de cultivo pertencentes à família.

Não há rebeldia possível quando até o pão teima em faltar, de tempos a tempos, num meio humilde e trabalhador. “A família dele era bem comportada e ele também se comportou bem aqui”, comenta Rosa de Jesus, 83 anos, mãe de um dos amigos de infância.

Aos vinte e poucos anos, Manuel Simões casa com uma prima na igreja de Rio de Couros – há quem diga que o faz contrariado – e emigra para França, seguindo as pisadas do pai. Têm uma filha, mas dois anos depois ele abandona a mulher numa estação de comboios, grávida de uma segunda criança, que se virá a descobrir, após o nascimento, ser deficiente. A atitude custa-lhe o corte de relações com o pai e é só após a morte deste, no final dos anos 90, que torna a ser visto com frequência em Carvalhal do Meio, onde instala uma oficina de alumínios na antiga propriedade da família.

A imagem que os conterrâneos mantêm dele parece retida no passado, nas décadas de 50 e 60, tal é a incredulidade quanto aos crimes cometidos e o teor elogioso do que escolhem afirmar. Segundo a vizinha, Rosa de Jesus, o recordista de assaltos a bancos era uma criança “pacata”, que “nunca se portou mal” e nem sequer era “reguila”.

O retrato de ‘pessoa vulgar’ bate certo com descrições de outros habitantes da aldeia, numa unanimidade que tem tanto de verdade como de receio mal contido. Afinal de contas, o filho da terra mais famoso é um criminoso, um dos maiores do País, e acaba de ser condenado a 21 anos de cadeia.

FOI O DIABO

O acordo de opiniões esfuma-se quando se pergunta por que razão terá o menino das cartas para França enveredado por uma carreira criminal já na meia-idade. “Nunca imaginei que ele fizesse isso. Era uma pessoa como as outras, vinha aí de vez em quando, devia ser quando vinha fazer os assaltos”, refere Maria Rosa Lourenço, proprietária do café O Pisco, que o Solitário frequentou. É ela que dá conta da falência da oficina de alumínios, das dívidas que lesaram fornecedores e das investigações que a Polícia Judiciária terá feito em Carvalhal do Meio.

Luís Caetano, que vive admirado com a “coragem” empregue nos assaltos, tem uma teoria que explica a carreira criminal com mal de mulheres. “Com certeza não ganhava para a vida que levava”, afirma. Rosa de Jesus, a vizinha de 83 anos, arrisca um argumento menos terreno: “O diabo atenta as almas”, declara, sentada no alpendre da habitação que ainda hoje dá para a rua da terra onde Manuel Simões brincou.

No início deste mês de Março, a primeira mulher do Solitário veio, de forma trágica, roubar-lhe espaço nos jornais. Maria de Jesus Lopes, de 53 anos, ingeriu o mais letal dos herbicidas, o Gramoxone, o mesmo sucedendo com a filha mais velha do casal, de 29 anos.

Em menos de dois dias ambas morreram no Hospital dos Covões, em Coimbra. Maria de Jesus Lopes não voltara a casar. Em Nice, no entanto, uma segunda família continua à espera.

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