O Avenida Palace era o poiso favorito do regime salazarista. Durante a IIª Guerra Mundial transformou-se num ninho de espiões. Resta uma porta por onde passava quem não quisesse ser visto ou dar nas vistas.
Era no centro nevrálgico da Baixa lisboeta que eles bebiam ou fingiam que tomavam copos. Desfolhavam jornais e fingiam que liam as letras. Os espiões. De nacionalidade variada. Alemã. Inglesa. Francesa. Tanto fazia. Razões de guerra. Um dos pontos de encontro das gabardinas da secreta ficava no Bar Americano, apesar do nome não condizer com a predilecção que os filhos e os enteados do Tio Sam nutriam pelo espaço. Hoje em dia nem uma cadeira sobrou do botequim. Está transformado num depósito de bagagem de hóspedes. Pertence ao Hotel Avenida Palace. Vizinho esquerdo da estação do Rossio. Edifícios que, pela estética física, podiam ser gémeos. E não só. Muito mais. Mais o que uniu o terminal ferroviário às cinco estrelas do hotel. José Luís Monteiro foi, de facto, o arquitecto que projectou ambos os edifícios, mas o cordão umbilical não se resume à similar e imponente estrutura arquitectónica. É mais. Muito mais.
No quarto piso do Avenida Palace existe uma porta que não traz amnésia aos tempos da Segunda Guerra Mundial e encanecido regime salazarista. Manuel Araújo, subdirector da unidade hoteleira de legítima distinção, leva a mão à algibeira do blaser impecavelmente azul. Num molho infinito de chaves encontra rápido a que pertence à fechadura. “São muitos anos”. Trinta e oito. O homem que entrou moço para o luxo conhece, até no escuro, a disposição do chaveiro. O pulso direito roda a maçaneta. Delicadamente. Vai abrir. Trata o puxador como um tesouro. Abre. E eis outra porta. Trancada a mil cadeados desde 1955. “Essa chave não a tenho”. Ninguém. E nem um terramoto libertará aquela entrada. O critério de mantê-la trancada resume-se às eternas obras da estação do Rossio e das nulas razões para a reabrir.
Mas se regressarmos ao período de 1939-1945, e aos meados dos anos cinquenta, encontraremos motivos porque já esteve aberta, ainda que às escondidas. Memórias antigas garantem a existência de um corredor que ligava a gare do Rossio ao Hotel Avenida Palace por meio do famoso andar. O 4º. “É verdade”. Traduzia-se numa excelente forma de chegar incógnito e sem controlo policial. Por ali passava a nata da aristocracia e da burguesia de bolsos abastados. E ministros. Nacionais. Estrangeiros. Muitos alemães. Poucos ingleses. Raros americanos. E sobretudo gente que não queria ser vista. Nem dar nas vistas. Como espiões que vestiam a capa de adidos diplomáticos.
Oliveira Salazar, apesar de não ter jeito, ou feitio, para a profissão de esculca, por diversas vezes experimentou a passagem. Quando tinha encontros secretos, ou quase secretos, e queria ser invisível, só quem o esperava na suite presidencial sabia que o patrão do executivo pisava as solas no Avenida Palace. “O senhor Gameiro contava”. O empregado mais antigo do hotel, recentemente falecido, assistiu e deixou a herança de estórias. O senhor viu Salazar a entrar pelo hotel através do caminho oculto e a enfiar-se sorrateiramente no quarto 406 onde terá reunido com um embaixador importante, daqueles que oficialmente não se encontrava em Portugal. Quando a reunião acabou, o velho Gameiro, encostado ao elevador, olhou muito para Salazar, olhou tanto, que um polícia sem farda – um dos inúmeros agentes que tropeçavam por todos os cantos, perguntou-lhe se “havia algum problema”. Nenhum. “Só queria ver a excelência”. Manuel Araújo gargalha. O riso vem sempre quando relata este episódio. Lembra-se do calibre inconfundível do humor do colega.
NÃO ERA SÓ O DOUTOR
Não era só o doutor de Santa Comba Dão e o séquito da excelência de Gameiro que frequentava o Palace. Nazis e seus muchachos adoravam a luxúria. Um agente alemão e francês ao serviço dos Aliados dormiram, comeram e bisbilhotaram no local. Se o livro de registos falasse não haveria boca que quisesse ficar cosida. Das individualidades que tiveram nome é um verdadeiro desfilar de vultos sobejamente conhecidos os que fizeram ‘check in’ e ‘check out’ na recepção do Avenida Palace. Chefes de Estado, figuras da Igreja Católica, diplomatas, artistas. Exemplos? O imperador Hirohito desfrutou a sua lua-de-mel no quarto que hoje corresponde ao 506. Alves dos Reis, falacioso o quanto baste, e simpático, regalou-se à grande e literalmente à francesa na opulência.
O Presidente da República Manuel Teixeira Gomes elegeu o Palace como a hospedaria da sua predilecção. A carteira de Almada Negreiros não chegava para sequer pagar meia diária, mas a companhia de dança Les Ballets Russes aquando da sua passagem por Lisboa, (que coincidiu com a revolução que levaria Sidónio Pais ao poder) ofertou-lhe o júbilo: convidou o génio e o versejador futurista para ali se instalar. François Miterrand, estalajadeiro assíduo, e mesmo depois da política, o ‘mon ami’ seguiu cumpridor. Mário Soares, amigo de datas longas do ex-presidente da República francesa visitou-o.
AS EFEMÉRIDES LIGADAS
As efemérides ligadas ao 123 da Rua 1.º de Dezembro implicaram com o destino do País. Sidónio Pais, em Dezembro de 1918, foi alvejado a tiro seco mortífero enquanto cumpria a rotina: ia almoçar no restaurante do Avenida Palace. Os assassinatos do rei Dom Carlos e do príncipe regente foram testemunhados em directo de uma das varandas que alcançam o profundo da cidade. José Relvas no seu livro ‘Memórias’ assegura que nos exaltados dias 4 e 5 de Outubro de 1910 os republicanos fizeram do Palace o quartel-general.
O período de 1939-1945 provocou azáfama e imprevistos nas estrelas do hotel. No entanto, nunca perdeu nenhuma. Em guerra, tudo que é bom e que vem em acréscimo, torna-se em maravilha. A enchente de criaturas era tamanha que colchões serviram de camas e biombos fizeram de paredes. À tarde, na pastelaria Suíça os hóspedes – espiões de ambas as frentes, – misturavam-se com refugiados que aguardavam vistos de saída em direcção ao novo mundo.
Pensar que o Hotel Avenida Palace foi projectado para servir de escritórios, parece impensável, mas inicialmente a Companhia Real dos Caminhos de Ferro, primeiro proprietário, pretendeu albergar naquele espaço os seus serviços administrativos.
Por sugestão da Waggons Litts, que mais tarde, em 1900, adquiriu o imóvel, a rota fez um ângulo de cem graus. Os futuros donos estavam conscientes que a afluência de clientes seria estupenda. Só eram 33 horas. De Lisboa a Paris. O Sud Express, que desde 1877 fazia a ligação semanal, passou a fazê-la diariamente a partir de 1 de Julho de 1890. Fariam sucesso.
RESTAURADORES NUNCA MAIS FORAM O MESMO
Assim, dois anos mais tarde, a 10 de Outubro, o ‘Diário de Notícias’ noticiava: “Um estabelecimento de primeira ordem, moderno, elegante, luxuoso que se pode enfileirar ao lado dos primeiros do género nas grandes cidades europeias”. Os Restauradores nunca mais foram o mesmo. A inauguração do Grande Hotel Internacional trouxe esplendor à Baixa. Seguidos doze meses o nome do empreendimento seria alterado para Hotel Avenida Palace. Mantém-se o título. O luxo. A elegância. Em seis pisos. Oitenta e dois quartos, 17 suites, decorados ao estilo Luís XV e XVI, Dona Maria, Dom José e Império. O género de rasto neoclássico é de influência declaradamente parisiense adoptando a veia da época.
Ribeiro da Silva, um dos proprietários, não tem gosto pelo flash fotográfico, mas tem e dá gosto quando fala. A memória afinada sabe de cor, e duas vezes, o mapa do hotel. Antes e depois das obras. A remodelação finalizada em 1998 respeitou o espírito do hotel mantendo o ambiente e a decoração do princípio do século. “O mundo é o nosso cliente”. Antes do 25 de Abril de 1974, o “mundo” recaía sobretudo nos Estados Unidos da América.
Hoje em dia escasseiam americanos. Europeus do Norte, japoneses, alemães e russos são os turistas que mais procuram o Avenida Palace. De espiões e trocas e baldrocas, Ribeiro da Silva desconhece. Ouviu falar. “Mas de concreto não sei de nada”. Somente a partir de 1964 o hotel passou para a sua gerência. A guerra, a segunda, é verdade, parou no ano de 1945. Boas contas. “Não estávamos cá”. O trespasse do hotel não teve direito a cavar histórias. Nem a fotos de acalorados evos.
Quanto à fama que o Avenida Palace conserva de ter apaparicado o Antigo Regime, Ribeiro da Silva encolhe os ombros e ri. “Eles vinham aqui porque queriam o melhor!” Refere-se também ao extinto restaurante. Com pratos que davam inveja aos espaventosos de Paris. “Era imprescindível”. A gravata. Sem ela nem a sombra se sentava no salão onde a gastronomia francesa adolescia água na boca.
“Os tempos mudaram” desde os cravos de 1974. A mudança cingiu-se à pouca clientela do faustoso restaurante que começara a dar prejuízo. Ficou sublimado a um serviço de quartos “espectacular”. Mudaram os tempos menos a adega com garrafas centenárias. “Algumas das marcas já nem se fabricam.” Como o rótulo da história do Avenida Palace.
ALGUNS FAMOSOS NINHOS DE ESPIÕES
Foi na espionagem que o cartão de visita da neutralidade portuguesa mais ressaltou. Durante anos e anos, mas sobretudo ao longo da IIª Guerra Mundial, Lisboa foi um verdadeiro ninho de espiões. O Hotel Avenida Palace era o mais conhecido mas não foi o único a ser frequentado por estes homens e mulheres que já deram mais do que um argumento à sétima arte. O bar do Hotel Tivoli, os hotéis Vitória, Suíço, Duas Nações (gerido por um alemão) e o Avenida Palace tinham a fama de serem a favor do Eixo. Por sua vez, o Hotel Metrópole e o luxuoso Hotel Aviz eram considerados pró-britânicos.
Na linha do Estoril os alemães escolheram o Hotel Atlântico que teve, em 1940, Saint-Exupéry como hóspede. Os ingleses nutriam predilecção pelo Grande Hotel do Monte Estoril e o Palácio Hotel.
A ESPIA DUPLA DO AVENIDA
Nathalie Sergueiew nasceu em Petersburgo no ano de 1912. Na altura da revolução Bolchevique a sua família escolhe Paris para residir. Na cidade das Luzes estuda pintura na Académie Julian. Amante de viagens e sobretudo da aventura, a jovem dispensou transportes para ir a Varsóvia. Foi a pé. Quando o nazismo galga o poder, estava em Berlim. Na qualidade de jornalista ‘free lancer’ consegue entrevistar uma série de partidários do III Reich. No ano da noite de cristal, ‘Lily’ – nome de combate – prepara nova expedição, e desta vez prefere a bicicleta, com a meta de chegar a Saigão. Está na Síria no dia em que rebenta a Segunda Guerra Mundial. Um ano depois, no momento em que Hitler tem Paris na palma da mão, a moça define-se. É recrutada como espia pelos serviços secretos militares alemães. Mas na sua manga cabem outros intuitos. Em Madrid oferta os seus préstimos aos ingleses. Aceitam-na. Torna-se agente dupla ao serviço do XX Commitee. ‘Treasure’ é o seu código. Em Março de 1944 vem a Lisboa.
O propósito do seu envio à capital de Portugal que contava com uma farta enchente de refugiados, era simples: teria que receber um radioemissor das mãos do seu controlador alemão – o aparelho de espionagem aeronáutica da referida Abwehr. O encontro deu-se no famoso Hotel Avenida Palace.
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