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Nuno Lopes: "O nosso trabalho foi apagarmo-nos enquanto atores"

Ator português explica como foi filmar ‘São Jorge’ durante os anos da troika.

05 de março de 2017 às 15:00

Nuno Lopes puxa de um cigarro apesar de não ser fumador, tal como não consome álcool nem drogas, pois o seu personagem em ‘A Noite da Iguana’ tem esse vício, e ele precisa de nicotina para suportar o tabaco quando estiver a representar. Está no Porto, apesar de ser lisboeta, pois a peça de Tennessee Williams, encenada por Jorge Silva Melo, foi encher o Teatro Nacional São João depois de esgotar lotações no Teatro Municipal de São Luiz, voltando à capital a tempo da estreia nacional de ‘São Jorge’, filme de Marco Martins que lhe valeu um prémio no Festival de Veneza pela interpretação de um pugilista amador desempregado que faz cobranças difíceis para conseguir dinheiro e impedir que o seu filho vá para o Brasil com a mãe. Um papel que implicou transformar "dez quilos de banha em dez quilos de músculo", com meses de ginásio e de ringues de boxe. Apesar de o ator, de 38 anos, deixar claro que não anda por aí a distribuir socos na cara a ninguém.

"Acho que a última vez que bati em alguém tinha 12 anos. E foi uma daquelas coisas que acontecem nas escolas", garante, entre risos, na esplanada do Maus Hábitos, um espaço cultural, restaurante, bar e discoteca situado no último andar de uma garagem, com uma vista panorâmica do Porto. Basta olhar para ele para constatar que Jorge lhe saiu do corpo, tal como teve que sair da mente, pois logo a seguir começou a rodagem de ‘Joaquim’, filme luso-brasileiro realizado por Marcelo Gomes sobre o mártir independentista Tiradentes - Nuno interpreta Matias, um colono, na longa-metragem que esteve no Festival de Berlim. "Tive que emagrecer muito rapidamente e comecei a fazer dieta logo que acabei o filme. Deixei os treinos de boxe e comecei a correr para perder peso o mais depressa possível", explica.

Mas se a transformação física de Nuno Lopes será a primeira impressão de quem for ver ‘São Jorge’ a partir de quinta-feira, ele faz questão de sublinhar de que criou, num trabalho realizado em conjunto com Marco Martins, alguém com "uma ingenuidade e uma bondade" que é difícil encontrar nos bairros problemáticos: "Tinha que ter um corpo violento, uma casca muito violenta, para depois se perceber que por debaixo há uma pessoa frágil."

Muito distante do maléfico Telmo, a quem deu corpo em ‘Sangue do Meu Sangue’, que João Canijo dirigiu em 2011, Jorge divide a cama de solteiro com o filho Nelson (David Semedo) num quarto da casa atribuída à sua família num bairro social - foi escolhido o da Bela Vista, em Setúbal, mas várias cenas decorrem no bairro da Jamaica, um conjunto de prédios inacabados no concelho do Seixal -, sonha recuperar o amor da brasileira Susana (Mariana Nunes), que passa noites a fazer limpezas e planeia regressar à terra natal levando consigo o miúdo de oito anos que chora quando vê o pai levar murros num combate.

Ainda que nascido da vontade que Nuno Lopes tinha de interpretar um pugilista, pois são "pessoas que lutam literalmente pela vida", ‘São Jorge’ é um filme sobre boxe tanto quanto ‘Casablanca’ era um filme sobre casinos clandestinos. O "trabalho extraordinário" de Mariana Fonseca, que foi ouvir histórias de pugilistas, revelou que muitos deles trabalhavam em cobranças difíceis. Foi assim que Jorge deixou de ser imaginado como um segurança no argumento escrito por Marco Martins e Ricardo Adolfo e passou a integrar um ramo de negócio que floresceu em Portugal devido a uma conjuntura marcante para a longa–metragem que agora vai estrear.

BAIRROS FORA DO MAPA

Conquistar os habitantes da Bela Vista e da Jamaica não foi tão difícil quanto seria de prever. "Sentimos que o cinema abre portas que normalmente não seriam abertas. Tem qualquer coisa de mágico e as pessoas sentem que finalmente haverá um ponto de vista generoso sobre as suas vidas", explica, admitindo que para entrar nesses bairros, escolhidos de entre muitos, foi essencial a ajuda de assistentes sociais e de residentes respeitados pelos vizinhos.

Alguns interpretam-se a si próprios, embora o modo como ‘São Jorge’ foi filmado tenha levado a que muitos dos que o descobriram em Veneza e noutros festivais internacionais nem se tenham apercebido de que José Raposo ou Mariana Nunes são atores, tal como é possível confundir Beatriz Batarda com a moradora do bairro da Bela Vista que interpreta. "Queríamos ter um lado muito documental, em que as pessoas fizessem delas próprias, a dizerem o texto que lhes apetecia. O nosso trabalho foi apagarmo-nos enquanto atores", diz Nuno Lopes, orgulhoso por ajudar a "pôr um rosto nos números da crise".

Tal como durante as nove semanas de rodagem muitos lhe perguntavam se a Jamaica ficava perto de Lisboa, apesar de estar a dez minutos da capital - "passando a ponte, está-se lá" -, o ator ficou convencido de que esses bairros também não constavam da geografia de quem tinha responsabilidade de governar. "Não entram no mapa dos políticos, no mapa de quem diz coisas como ‘estamos a viver acima das nossas possibilidades’. É sinal de que não estava a pensar naquelas pessoas", acusa, referindo-se ao então primeiro-ministro, Passos Coelho, ouvido na rádio, quando ia a caminho de ruas em que se cruzava com portugueses "que são sucateiros para terem o que comer à noite".

Ninguém espere, no entanto, ver Nuno Lopes a ter intervenção política fora da representação. "O trabalho de ator é ser contrapoder e nunca aparecerei a apoiar um partido", promete, ressalvando as causas sociais que apoia. Prefere não identificar aqueles que o tentam, "quase uma vez por ano", mas não é preciso um mestrado em Ciência Política para deduzir para que lado do centro pende o crítico acérrimo de Donald Trump, perturbado com a hipótese de vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas e com a destituição de Dilma Rousseff no Brasil.

VANTAGEM DE PODER ESCOLHER

"A televisão e a publicidade, pelo menos no meu caso, são a única forma de poder ter uma escolha artística, de me manter a fazer coisas de que gosto", diz o protagonista das últimas campanhas publicitárias da NOS, também dirigidas por Marco Martins. "Gosto sempre de pensar que estou a fazer mais um personagem e que não há grande diferença", diz, nada interessado em perceber o que a empresa acredita que ele simboliza para o consumidor.

Quando se lhe pergunta se um ator que faz 250 episódios de telenovela é como um pugilista a fazer cobranças difíceis, ri e explica que o género televisivo não o atrai. "Fiz uma novela no Brasil [‘Esperança’, em 2002] e sei bem o que passei", diz quem privilegia a publicidade, pois "não toma dez meses de vida a fazer algo que não me interessa". Ainda que compreenda quem as faz.

Maravilhado pela "generosidade do público" que foi ver ‘A Noite da Iguana’ em Lisboa e no Porto, garante que não pensa na sua carreira em termos de metas - até porque crê não ter idade para cumprir o "desejo profundo" de fazer quatro vezes a peça ‘À Procura de Godot’, de Samuel Beckett, interpretando cada uma das personagens -, pelo que a qualquer momento pode voltar à comédia, que lhe deu grande popularidade em programas televisivos como ‘Os Contemporâneos’.

ATOR "PORQUE É VITAL"

Protagonista do segundo filme de Marco Martins em que é um pai, depois de ‘Alice’ (2005), em que encetava uma busca desesperada pela filha desaparecida, Nuno confirma que ambos gostam muito de dramas familiares, mas crê que o filme anterior só foi possível por o amigo ainda não ser pai nessa altura. "Não era possível contar aquela história com a distanciação suficiente. Às vezes ajuda não fazer parte da história que se está a contar."

Ele próprio continua sem filhos, mas só tem coisas boas para dizer de David Semedo, o Nelson do seu Jorge, "um príncipe" encontrado após um casting a milhares de rapazes negros e mulatos da Margem Sul. E realça a sua entrega ao filme, contrariando o chavão de que é um inferno trabalhar com animais e com crianças. Embora compreenda que sejam um problema para "um realizador que tenha uma ideia muito fechada daquilo que quer fazer", destaca que uma das virtudes de Marco Martins reside na capacidade de, tendo as cenas preparadas, ser capaz de aproveitar "a luz que está ou a pessoa que tem pela frente" para melhorar o resultado final.

Caído o pano em ‘A Noite da Iguana’, apetece-lhe agora fazer televisão ou cinema. Com a convicção de quem viu um dos seus últimos projetos, ‘Posto Avançado do Progresso’, filmado em África, sem antídoto para o veneno de cobras avistadas nas cenas de exteriores, atrair apenas 1500 pessoas. "Entristece-me. Não me ofende, pois as pessoas têm direito a ver ou não ver. Mas o nosso trabalho merecia mais", diz, salientando que voltaria a fazê-lo mesmo que soubesse à partida que seria visto por poucos. "Faço um filme ou uma peça imaginando-me na plateia e pensando no que poderia fazer melhor para me agradar enquanto espectador."

Para quem é ator "porque é vital", ao ponto de não querer deixar esse trabalho mesmo que enverede pela realização e encenação, a profissão alternativa é ser DJ. Dias antes da entrevista à ‘Domingo’ saiu do teatro direto para o Maus Hábitos, onde foi passar música. "É justamente por fazer uma peça com um papel muito intenso que tenho de vir para aqui. Quando meto música há uma liberdade que não tenho como ator. A única responsabilidade é divertir as pessoas." Relativa, mas presente. "Tenho um público à frente", admite, mesmo que só lhe cobrem músicas para dançar.   

NEORREALISMO PORTUGUÊS

Levado ao limite em nome do filho 

"Discuti muito com o Marco a ideia de fazermos um filme neorrealista italiano contemporâneo", explica Nuno Lopes, referindo-se à génese de ‘São Jorge’, que estreia em Portugal na quinta-feira. A história de Jorge, que acaba de perder o emprego, não consegue pagar a pensão de alimentos à mãe do filho que e aceita fazer cobranças difíceis para não o perder lembra ‘Ladrões de Bicicletas’, em que um pai e um filho procuravam recuperar nas ruas da Roma do pós-guerra o meio de transporte sem o qual o primeiro ficaria sem trabalho e deixaria de conseguir sustentar a família. Só que transposto para os bairros mais pobres da Grande Lisboa, onde arranjar um trabalho com salário mínimo rende poucos euros mais do que o subsídio de desemprego. É dessa realidade que tenta fugir o protagonista, mas a decisão tomada em nome do filho acaba por ter consequências trágicas.

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