page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Uma fábrica de campeões

Sandro Eusébio treina vários praticantes de Powerlifting, em Vila do Conde, para participarem no Campeonato do Mundo

23 de outubro de 2011 às 00:00

Passam horas a treinar para serem os melhores. Dedicam-se de corpo e alma ao desporto e à competição. O grupo de praticantes de Powerlifting, modalidade de peso que cruza os exercícios de halterofilismo e culturismo é composta por três provas (agachamento, supino e levantamento terra), reúne-se diariamente na Academia Corpos, em Vila do Conde. O objectivo é serem os melhores do Mundo e levar o nome de Portugal o mais além possível.

A academia, localizada num armazém cor-de-laranja, é uma autêntica fábrica de campeões. O amor à camisola leva muitos a viajar de vários pontos do País só para serem treinados por Sandro Eusébio, presidente da WPC (World Powerlifting Congress); impulsionador da modalidade e também o melhor atleta de força em Portugal: levantou 420 Kg em agachamento, no Campeonato do Mundo da Finlândia, em 2010.

O primeiro objectivo deste grupo é treinar intensamente e quase sem descanso para o Campeonato do Mundo, que se realiza de 14 a 19 de Novembro, em Riga, na Letónia. Pedro Claro, 46 anos, da Figueira da Foz, campeão europeu de Supino na categoria de Raw (sem equipamento) e equipado, e Luís Baptista, 35 anos, campeão europeu na categoria até 140 quilos de Powerlifting, treinam diariamente para atingir o tão aguardado sonho.

"Estou confiante e bem preparado. Tenho grandes esperanças que vou conseguir bater o recorde do Mundo", diz Pedro Claro, que dedica as 24 horas do seu dia ao desporto. "Comecei no Boxe ainda muito novo. Depois passei para o Halterofilismo e o Powerlifting surgiu repentinamente. Hoje já não passo sem isto. Se não tiver hipótese de treinar sinto-me muito triste. Às vezes nem as dores me conseguem fazer parar", refere, entusiasmado.

Quem também sonha com a competição mundial é Paulo Vilas Boas, 25 anos, carinhosamente tratado por ‘Xouras’ e que recentemente foi campeão nacional, na categoria 75 Kg no campeonato WPC da Exponor. Fez um levantamento terra de 280 Kg. "Treino desde os 16 anos. Oito meses depois fiz a minha primeira prova. Desde aí comecei a competir. Hoje o Powerlifting é o meu mundo. Há cinco anos consecutivos que sou campeão nacional na categoria 75 Kg", explicou o jovem, que trabalha em artes gráficas, mas que treina entre duas a três horas por dia. "Passo mais tempo aqui do que em casa. Isto é um vício. Mesmo que não treine, como é agora o caso, porque estou lesionado, venho para aqui ajudar", afiançou.

Também Sérgio Silva, 34 anos, professor de Educação Física na Secundária Rodrigues Freitas, em Vila do Conde, não passa sem ir à Academia Corpos. "Fui campeão nacional em 2010. Isto é mais do que uma paixão. É aqui que consigo relaxar e esqueço o stress do dia-a-dia", explica. Para os alunos, Sérgio é um herói. "Perguntam como podem ser como eu e onde podem competir", conta.

TUDO EM FAMÍLIA

É em família que Sandro Eusébio passa grande parte do seu tempo. O mentor da modalidade em Portugal tem três Academias Corpos: a de Vila do Conde, a de Alvarelhos, Trofa – a primeira a abrir, em 2002 –, e a mais recente, em Ribeirão, Famalicão. "Os meus quatro filhos passam grande parte do tempo aqui na academia. É aqui que treino os atletas e também a minha mulher", referiu.

Para Carla Carneiro, 34 anos, mulher de Sandro Eusébio e campeã de Powerlifting em 2009, treinar todos os dias é fundamental. "Comecei quase ao mesmo tempo que o Sandro. É aqui que passamos grande parte do nosso tempo. Também os nossos quatro filhos [de 3, 7, 9 e 15 anos] têm aqui um espaço. Eles não têm noção de que os pais participam em competições. Pensam que é uma brincadeira", contou a atleta, que tem alguma mágoa, porque, em Portugal, as mulheres que participam nas provas de competição são muito poucas.

"Nos homens há sempre aquela rivalidade: ‘se tu consegues eu também tenho de conseguir’. Nas mulheres é diferente. Como não há muitas praticantes, eu não tenho aquela vontade de querer fazer melhor do que outras. Mas gostava que as mulheres olhassem para isto com prazer e que treinassem como eu", diz.

MÁQUINA DE 6000 EUROS

Sem apoios de nenhuma entidade, Sandro Eusébio, explicou que todo o dinheiro que gasta com as máquinas sai do seu bolso. "Tudo o que tenho aqui na academia é meu. Fui eu que comprei. Todo o dinheiro extra que tenho serve para comprar material", adiantou o campeão, que tenta economizar dinheiro de todas as formas. "A máquina para praticar agachamentos cá em Portugal custa mais de 6 mil euros. Eu compro as peças que vêm da Finlândia e monto a minha própria máquina. Estou quase a conseguir registar a patente para depois comercializar", diz Sandro, que também foi árbitro, em Junho deste ano, no Campeonato da Europa.

Apesar de já ter feito várias investidas para conseguir apoios, a verdade é que todas as portas se fecham e ninguém quer apoiar o Powerlifting. "Uma vez pedi ajuda à Câmara Municipal de Trofa para levar a equipa a Barcelona. Disseram que emprestavam o autocarro, mas que os motoristas, a estadia, o gasóleo e as portagens ficavam todas por nossa conta. No entanto se fosse para o futebol já havia mais do que um autocarro", acusa, lembrando que, nessa altura , regressou a Portugal com "cinco campeões ibéricos".

No próximo dia 4 de Dezembro irá realizar-se em Vila do Conde, um Campeonato Nacional por equipas de Powerlifting: "Consegui uma parceria com o Círculo Católico de Operários e as provas irão decorrer lá", assegura.

FOI À FINLÂNDIA

Farto de respostas negativas, Sandro resolveu, no ano passado, viajar até à Finlândia, onde decorria o Campeonato do Mundo. Pegou na carrinha e na família e fez-se ao caminho. "Nunca nenhum português tinha participado nesta prova. Quando cheguei inscrevi-me, fiz um agachamento de 420 Kg e bati o recorde mundial", recorda Sandro Eusébio, acrescentando que foi desclassificado na prova seguinte, "mas consegui o respeito de todos os que participavam". Durante a viagem emagreceu oito quilos. "Conduzi o tempo todo. Demorei três dias a chegar. Mas valeu a pena. A vontade era maior do que tudo. E tinha de ir", concluiu.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8