Fernanda Policarpo, 49 anos, foi detida nos protestos contra a troika em frente ao hotel Ritz, em lisboa
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Os habitués das manifestações conhecem-lhe a personagem de cor. Chamam-lhe a República de cada vez que aparece descalça, de vestido mesclado de azul e cor-de-rosa, bandeira nacional na mão, ramo de alecrim na outra. Ela chama-se a si própria a ‘Cidadanita', naquelas ocasiões. O País inteiro ficou a conhecê-la na semana passada quando foi agredida e detida pela PSP durante uma manifestação contra a troika junto ao hotel Ritz, em Lisboa. Em dois dias, Fernanda Policarpo recebeu mais de uma centena de pedidos de amizade na rede social Facebook e o seu nome tornou--se uma espécie de hino contra as contas do País, os governantes e a "tirania" das autoridades. "Estava na manifestação quando um jovem polícia me agarrou no braço e me empurrou com força. Disse-me: ‘Sai daqui car****'. De repente já estava rodeada de polícias, todos a empurrarem-me, a magoarem-me, e dei-lhes duas bandeiradas, esquecendo-me de que o pau da bandeira portuguesa era de madeira e podia magoar. Sei que a violência gera violência e arrependi-me logo do meu ato, porque sou uma pessoa pacífica, tanto que quando entrei no carro da polícia pedi-lhes logo desculpa pela atitude", conta, com a voz por um fio - de tanto gritar na manifestação - e os braços ainda doridos da detenção.
Fernanda, de 49 anos, atriz de teatro, passou uma vida inteira sem pisar uma manifestação que fosse. "Nem no 25 de Abril, nem no 1º de Maio, nunca tive esse hábito, achava que não serviam para nada, aquilo dos cartazes, das pessoas a berrar. Até que resolvi espreitar a de 15 de outubro [de 2012]." E depois a de 14 de novembro. E por aí fora - "apetecia-me e ia sem dizer a ninguém" -, fosse na Assembleia da República, na residência oficial do primeiro-ministro, na Avenida da Liberdade, na Praça de Espanha. Sempre com o mesmo traje e a mesma bandeira a tiracolo.
Identidade e residência
A participação na última vai sentá-la no Campus de Justiça no próximo dia 30 de abril. Está com termo de identidade e residência, o que significa que não pode ausentar-se do País sem avisar as autoridades. "Não estou ligada a nenhum movimento social nem partidário - embora vote sempre à esquerda -, vou por mim com a personagem que criei." E quando pensa no mundo ideal imagina um órgão de soberania composto por cidadãos, com poder para pedir contas das promessas não cumpridas. "Agora vou às manifestações porque vejo as lojas fechadas, as casas vazias, os jovens a irem embora, as pessoas a ficarem sem emprego, os que têm emprego a temer perdê-lo, mas vejo ao mesmo tempo uma grande solidariedade a nascer destas dificuldades. E hoje, quando vejo alguém a comer o que sobra nos caixotes do lixo, ou a pedir de mão esticada, penso que já estive mais longe de me acontecer isso do que estou agora. Aquela posso ser eu."
No porta-moedas - que abre para vermos -, Fernanda tem um euro e sete cêntimos, que têm de durar até ao fim do mês. No Dia da Mulher (8 de março), deu por si em casa, sem comida e com fome. "Fui a um restaurante, apontei para a barriga e disse que não tinha dinheiro. Deram-me de comer." Os dias já lhe foram mais fáceis. "É sempre que estou no teatro que me afundo financeiramente." Nunca teve contrato de trabalho, mas até 2011 - altura em que voltou aos palcos - chegou a receber "2400 euros numa empresa de sondagens, a fazer inquéritos políticos pelo País, de norte a sul. Dormia no carro, comia umas tostas e umas maçãs e ao amanhecer já estava de volta à estrada". Agora, apesar de continuar na área, o mercado mudou e o apelo dos palcos voltou a dar de si. "Tenho de trabalhar o dobro para ganhar metade mas nem assim; as sondagens já não dão o que deram, até porque as metodologias são mais exigentes e com condições impraticáveis." A somar, a faculdade do filho - que está no segundo ano de Cultura, Literatura e Línguas. "Pedi um empréstimo a uma pessoa conhecida para pagar as propinas do meu filho, mas ultimamente não ganho o suficiente para pagar a Segurança Social, quanto mais a prestação da casa, do carro, a comida, as despesas e o empréstimo. Soube agora que a Segurança Social penhorou os meus bens, e o primeiro foi a retribuição dos impostos (IRS), pelo que estou sem dinheiro para nada." Uma das irmãs, que está na Suíça, envia-lhe dinheiro para se conseguir aguentar, "mas também esse se esgota" antes do virar do mês. Foi na altura de maior bonança financeira que, sem fiador e sem contrato de trabalho, conseguiu pedir um empréstimo ao banco para comprar a casa onde hoje vive com o filho, de 22 anos, que acha a "mãe um pouco velha para as demonstrações artísticas" nas manifestações e também para a profissão de atriz. "Ficou chocado com as imagens que viu da detenção mas acha-me uma certa graça." Quanto à família, "uma irmã apoia, as outras dizem-me que devia arranjar um emprego a sério". Os pais, idosos com mais de 80 anos, não a reconheceram na televisão, e Fernanda nada lhes disse. Foi casada durante dezasseis anos, mas o desemprego do então marido desequilibrou a relação e fê-la sair de casa. Hoje tem uma relação com um violoncelista que é o seu "fã nº 1".
Na adolescência (na altura namorava com um conhecido músico português), descobriu que o teatro era uma forma de expressar aquilo que a timidez não permitia nas relações íntimas. Na infância, numa aldeia em Ponte de Sor, as cinco irmãs Policarpo - Fernanda é a mais nova - eram "a atração das festas populares", onde atuavam ‘em rancho'. "Os meus pais eram camponeses, daqueles que trabalhavam um mês inteiro para conseguir um litro de azeite, tanto que ralhavam quando comíamos uma azeitona toda de uma vez, mas a minha mãe inventava histórias para estarmos sossegadinhas à noite e o meu pai construía e tocava flautas."
Infância na aldeia
Quando tinha quatro anos, a família mudou-se para a terra onde ainda hoje vive - Santo António dos Cavaleiros. "O meu pai conseguiu uma casa no campo de futebol em troca de tratar do mesmo, e só uns anos mais tarde mudámos para um prédio de apartamentos. A minha irmã mais velha começou a trabalhar com nove anos, nunca foi criança." Fernanda teve mais liberdade. "Por ser a mais nova nem se lembravam de mim: fui eu que me inscrevi na escola primária, por exemplo. Acho que o facto de me sentir tão livre (e de ser muito miúda na altura do 25 de Abril) fez com que a revolução não me tivesse marcado muito naquela altura." Com 15 anos, estava no 9º ano, apresentou-se a João Grosso, que fazia parte do teatro Emarginato, e disse que queria ser atriz. "Uma semana depois, estreámos uma peça que ridicularizava situações do quotidiano, com sala cheia. Mantive-me nesse grupo durante quatro anos e, tal como hoje acontece, as receitas de bilheteira só davam para pagar as despesas, pouco sobrava para os atores." Ao longo desses anos, dedicou-se sobretudo ao "teatro político, inclusivamente - era Pinto Balsemão primeiro-ministro - fizemos uma ação teatral na Assembleia da República". Contracenou com atores que hoje são nomes grandes dos palcos (e do pequeno ecrã): Adriano Luz, Custódia Gallego, Juvenal Garcês, José Raposo e Vítor Norte. Estreou-se na peça ‘Pedido de Casamento', de Tchekhov, com João Grosso, mas marcaram-na várias ao longo do percurso, como a ‘Volpone' e ‘A Celestina', ambas no Teatro Aberto. Também passou pelo Teatro Experimental do Porto, mas a certa altura ficou pelo caminho na representação. Ainda fez uma incursão televisiva - um papel com uma única cena - na telenovela ‘Palavras Cruzadas', onde contracenou com Manuela Marle. Chegou a ganhar um prémio de melhor atriz quando estava no Teatro Ibérico, que teve honras de página inteira nos jornais na época. Isso e a ação de rua que protagonizou na Ribeira do Porto, vestida sedutoramente e engolindo fogo, a alertar para o perigo de incêndio naquela zona.
Gravidez impede projetos
Entretanto foi estudar teatro, dança, canto, sapateado e ioga num projeto financiado pela Gulbenkian e fez um curso de artes circenses no Chapitô, onde aprendeu a andar no arame. Nessa altura, desanimou. "Eram seis meses de trabalho, seis meses de desemprego, e era uma instabilidade muito grande. Resolvi tirar o curso de Animação Sócio-Cultural, mas quando surgiu trabalho na área descobri que estava grávida." Foi aí que conheceu o universo das sondagens, que "davam um rendimento que pelo menos estava na minha mão" e "permitiam estar com o meu filho enquanto ele era pequeno". Esteve longe dos palcos quase vinte anos. "O facto de não ter telefone fez com que as pessoas deixassem de comunicar comigo, por isso esqueci o teatro por uns tempos." Em 2009, volta à carga com uma ideia baseada no improviso, mas é em 2011 que se reencontra com aqueles que ‘perdera' entretanto. "Começa aí a minha ruína financeira, porque o teatro não põe comida na mesa." As manifestações a que vai também não, mas quando aparece vestida de ‘Cidadanita' é mais do que a personagem. "Vou porque de certa forma é arte aquilo que eu faço, é uma manifestação artística, mas também vou por mim, para mostrar o meu trabalho e a minha indignação ao mesmo tempo." Quando no 14 de novembro viu "a carga policial sobre a pessoa de cadeira de rodas e os jovens que só tinham ido assistir" sentiu que podia criar "um símbolo da Nação". Quando passa, descalça, pela cidade de Lisboa, as pessoas param para olhar e os "miúdos da escola dizem que é ‘bué fixe'". Quando na manifestação pela paz começou a lançar ao vento frases do poema ‘Ode à Paz', de Natália Correia, foi aplaudida. Já levou velas para a frente da Assembleia, mesmo quando o carro ficava a quilómetros de distância.
"Fui a pé uma vez para uma manifestação. E, das outras vezes, para poupar combustível, deixo o carro num sítio mais longe e faço o resto do caminho a pé. Já cheguei a entrar num autocarro, dizer que perdi a carteira ou que fui assaltada para não ter de comprar bilhete e voltar da mesma forma. É triste dizer isto, mas é assim, às vezes tem de ser assim."
Fernanda volta ao palco no 25 de Abril
No próximo 25 de Abril, Fernanda Policarpo vai subir ao palco num espetáculo multidisciplinar - ‘Liberdade' - no Auditório Carlos Paredes, em Benfica. "Vou cantar e representar, agora ando em ensaios, embora seja muito com base no improviso." A televisão seria uma saída possível para a crise que Fernanda atravessa - confessa -, mas os castings que tem feito nos últimos tempos não têm surtido efeito. "Não me chamam. Eles apostam em atores que conhecem desde jovens e que as pessoas sentem que conhecem desde sempre, eu já sou considerada velha, mas não desisto, tenho de arranjar uma forma de sobreviver, senão um dia destes até a casa perco", conta. No passado, também chegou a trabalhar no palco com a dupla ‘Batatinha e Companhia' - em espetáculos para a infância -, mas também não durou muito tempo. "O teatro é a minha ruína e o meu escape ao mesmo tempo. Não lhe consigo resistir mas ele deixa-me sem dinheiro."
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