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Uma rosa com espinhos

O atual presidente do governo regional tem 55 anos e o cultivo das rosas tem-lhe saído melhor do que a política. Depois da câmara do Funchal, na qual o seu sucessor terá encontrado uma dívida superior a 100 milhões, viu-se agora chamuscado pelo “excesso de optimismo” na gestão do incêndio na Madeira. Pelo caminho, ainda um plano de pagamento de dívidas à segurança social, mas não só.

28 de agosto de 2016 às 12:53

A campanha eleitoral   que lhe pôs à frente a   bandeja   da Madeira,   herdada   de   Alberto   João   Jardim, as velhinhas suspiravam por aquele homem que com barba parecia ser Jesus Cristo. Agora saiu crucificado do incêndio que fustigou a ilha. Os críticos disseram que preferiu ser orgulhosamente só, ao invés de tocar a rebate e pedir ajuda.

O que se pode dizer de Miguel Albuquerque, 55 anos, é que antes da política teve sempre jeito para as rosas. Aquelas com espinhos e as outras que, supostamente, não   terão   mas   acabam, eventualmente, por picar. O dono da Quinta do Arco, onde estão milhares de rosas,   algumas   premiadas, fez três casamentos. Três rosas que lhe deram seis filhos: três deles adoptados. A   primeira   é   sueca,   a   segunda durou 1 4 anos e é arquiteta;   era   vereadora   do PS,   quando   ele   foi   eleito presidente da câmara pela primeira   vez,   e   cuidava-lhe da ‘imagem’. A terceira e atual trabalhava num centro de idosos da câmara: "À terceira   é   de   vez",   brinca um amigo. Sorte com as rosas, ou melhor, com as raparigas   giras,   nunca   lhe faltou. É um adepto moderado   do   clube   Nacional. Antes de agarrar a bola da presidência, jogou ténis todos os dias. Possui pontaria e olho forte para praticar o que tanto gosta: caça desportiva.   Nos   estudos, não viu a raposa porque a sua memória admirável o salvou. Bom aluno, embora irrequieto,   completou   a primária no Colégio Lisbonense e o secundário no Liceu Jaime Moniz. A amizade entre o deputado social– -democrata Adolfo Brazão e o 3º presidente do Governo Regional da Madeira intensificou-se na época académica quando, entre 1979 e 1984, ambos frequentavam   o   curso   de   Direito   da Universidade   Livre,   em Lisboa. Nesta fase, o desassossego   estava   domado: "Era um dos melhores alunos.   Possuía   uma   grande capacidade de estudo."

Em Lisboa, evidentemente, não só se estudava. Havia farra e, claro, festas. Miguel Albuquerque vivia na casa   da   mãe,   nos   Olivais Sul. Os pais haviam-se divorciado   ainda   os   filhos eram crianças. A mãe ainda   reside em Londres e o pai morreu em   Madrid,   em   2014,   depois de viver na Venezuela.

Miguel Albuquerque veio ao   Mundo   em   berço   de ouro. Frequentou colégios particulares até ao secundário.   Cresceu   em   casas grandes - as Quintas Madeirenses -, com bananais e muitos animais, no centro do Funchal. Aos fins-–de-semana, por vezes, ficava com os avós paternos também na Quinta Olinda, onde havia um quarto de armas usado pelo avô paterno, apaixonado da caça, um salão de jogos, campo de badmington, campo de croquet e cavalariças.

Os avós maternos habitavam noutra quinta, e também tiveram forte influência na educação dos rapazes Albuquerque.   O   avô,   o tenente   Francisco Ernesto   Machado, esteve conexo   à revolta   da   Madeira,   em 1931, contra Salazar.

A boa vida a que a maioria da rapaziada não vira a cara seria refreada pela avó Vera,   que   proporcionou aos   netos   uma   educação esmerada. Chamado pelo irmão   Francisco   de "mano", apesar de ser protector "tentava fazer-me partidas".   "Foi   sempre muito   determinado,   pois quando se empenhava em algo lutava por ser sempre o   melhor.   Prova   disso, quando se tornou nadador bateu inúmeros recordes, com sacrifícios de treinar duas vezes por dia às 6h da manhã e à tarde em água gelada por vezes". E Francisco prossegue: "É a falta de   paciência   para   alguns assuntos   mundanos,   sobretudo quando o tema é o de dizer mal de alguém, assim   como   o   enorme   respeito pela diferença e pela vida privada das pessoas".

As dívidas

Algarve e Porto Santo são os   destinos   favoritos   do presidente. As viagens para o estrangeiro bastam-lhe as de Estado. Nacionalista de coração, gosta de comida italiana, é tido como leal e sincero, antipatiza com burocracias, deseja que os assuntos sejam despachados de forma rápida. Impaciente,   e   muito.   Se   o   assunto tem o azar de se desviar da direcção que Miguel Albuquerque projectara, não faz cerimónia   e,   quem   não ‘aguenta a bebida’, dá sóbrio valentes gritos a quem quer que se seja. É teimoso. Da direcção do grupo parlamentar social-democrata, reforça Jaime Filipe Ramos:   "É   muito   teimoso. Para   aquilo   que   acredita tem a teimosia necessária". E   tem   algo   que   lhe   oferta popularidade:   "Uma   boa identificação com o dia-a-–dia   da   população.   Sabe dialogar e ouvir". E sabe nadar, Miguel Albuquerque. E como sabe. Aos 15 anos sagrou-se   campeão   da   Madeira na modalidade de natação crawl. Fora de água, há o piano, que toca desde novo:   "Tínhamos   um   em casa   e   sempre   ouvimos muita música. A nossa mãe vivia em Londres e enviava-nos sempre os LP’s com os ‘Top of the Pops’ de cada mês.   Tentava-mos   imitar essas   músicas   no   piano", lembra o irmão, Francisco Albuquerque,   enólogo   de notoriedade internacional. Miguel Albuquerque chegou a integrar uma banda que se juntava em bares e hotéis funchalenses.

Márcio Nóbrega, proprietário do Scat Funchal Music Club,   convidou,   em   tempos,   ‘Velhos   Hotéis’   para actuar: "Uma boa banda, e tal como acontece com todas as bandas que vêm ao Scat, a casa encheu". O reportório musical, como nos faz saber Luís Nunes, guitarra-baixo do grupo, concentra-se "essencialmente na música portuguesa e na música popular brasileira. Também algum gosto pelo jazz... E standards...".

Mas, desde que Miguel Albuquerque   começou   a campanha eleitoral, nunca mais, sequer, houve um ensaio. As notas musicais durante   os   19   anos   em   que chefiou a Câmara Municipal do Funchal mudaram de tom - terá deixado uma dívida   de   100   milhões,   segundo o seu sucessor.

Quadro do PSD que remonta à Juventude Social– -Democrata, liderou a JSD– Madeira, na década de 80, na mesmíssima altura em que   Pedro   Passos   Coelho era líder nacional da Jota. Apoiou Mário Soares e disse não a Freitas do Amaral nas   benditas   eleições   de 1986. Alberto João Jardim reprovou tal atitude. Teria ainda hipóteses de reprovar outras   posições:   em   Novembro de 2012, Miguel Albuquerque perdeu por escassos   votos   para   Jardim, que   nunca   lhe   absolveu   a ofensa. A desarmonia entre os dois já acontecera com o apoio   que   dera   ao   amigo Pedro Passos Coelho à liderança   do   partido,   contrariando a estima de Jardim por Paulo Rangel.

O jardim do homem nascido no Funchal no quarto dia de Maio de 1961 dispõe de outra dimensão. São rosas, senhores. Miguel Filipe Machado de Albuquerque é membro da Royal National Rose Society, da The World Federation of Rose Societies e da American Rose Society. Está ligado a um roseiral na freguesia do Arco de   São   Jorge,   no   norte   da ilha, onde vive uma colecção com cerca de 17 mil roseiras de mais de 1700 espécies (o quarto maior roseiral da Europa).

E são as rosas que o endividam – as duas sociedades da   Quinta   do   Arco,   onde está o famoso roseiral e que inclui uma unidade hoteleira,   tiveram   definido   um plano de pagamento das dívidas, admitiu já o próprio.

Foi o deputado José Manuel Coelho que levantou a lebre em Julho de 2015, na Assembleia Legislativa da Madeira, quando questionou Albuquerque sobre dívidas de 117 mil euros à Segurança Social, 45 mil euros à Empresa da Electricidade e 215 mil euros ao Fundo do Turismo. Albuquerque escudou-se então em facto indesmentível mas que, porém, lhe era completamente alheio. Dívida maior tinha a Madeira.   "Miguel   Albuquerque   não   é   grosseiro como Jardim, deu uma aragem boa à ilha e tornou a Assembleia mais respeitosa", diz um socialista.

Já Guilherme Silva sentou-se na cadeira de deputado pelo Círculo Eleitoral da Madeira de 1987, até Albuquerque subir ao cargo máximo;   e   ficou   de   fora. Não faz mal: "Os partidos precisam de renovação. E a sucessão não era fácil: uma liderança forte e longa de Alberto João Jardim. Miguel Albuquerque tem todo o direito de escolher quem bem entender para deputado".

Sobre o presidente já Hélder   Spínola,   o   doutor   em Biologia Molecular que em 2014 acabou por ser retirado, e à força, da bancada do Governo   Regional,   não precisa de investigar o que pensa: "A vida dele é a política. Não é um político de craveira intelectual, embora tente transparecer. Não é um pensador profundo. É mais   plástico   (no   sentido da imagem e de se moldar)   do que ideológico".

Da oposição, aterra esta visão: "Miguel Albuquerque   não   é,   digamos,   um       estadista. É superficial na abordagem do assunto. Que se   veja   o   que   aconteceu". Vemos,   nos   incêndios           que fustigaram a Madeira: "Disse   que   a   coisa   estava controlada. E não estava". Valha–lhe   Cristiano                 Ronaldo,   que   depois   do         incêndio   lhe   telefonou para   lavrar   a   maior   das                             solidariedades.

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