Centenas de idosos em todo o País demoram-se pelas camas dos hospitais depois de receberem alta. Esmagados pela solidão, esperam e desesperam pela família que não têm ou nunca mais chega. E pelo apoio social que tarda.
A omelete vai esfriando no prato. José pede cinco minutos. Desaparece pela porta do refeitório e volta à carga de barriga confortada. Rapou o tabuleiro do almoço, “e o que mais fosse”, diz com um sorriso rebelde que mostra uma reentrância nua, enfeitada por um dente solitário.
O único que a boca de 68 anos cala e consente. “69, no dia 12 de Abril, se lá chegar”, precisa o antigo motorista. Aos 13 anos fez-se ao volante pela primeira vez e veio sozinho de Tomar a Lisboa. Levou 53 anos em viagens, dentro e fora de portas, noite e dia, a amealhar 75 mil réis por jornada. Mas a vida nem sempre correu sobre rodas. “Tinha semanas que não descalçava os sapatos. Nem sabia de que lado era a cama! A minha avó ralhava tanto comigo por ter vindo para motorista...”, conta José Manuel Santos, invejando os traçados espanhóis. “Ó, Ó! Cabem cinco carros uns ao lado dos outros!” É preciso pôr-lhe travão nas palavras, que jorram entarameladas, entre atropelos.
Cimentam um discurso acidentado que lhe vai humedecendo os olhos. Os mesmos que durante dez anos estacionaram num telheiro da Praça de Espanha. Fixos numa morada “onde nunca tive problemas”, entre duas barracas, quando os alicerces da família se desmoronaram e as ruas lhe passaram a dizer mais que uma casa de tijolo.
Desde Janeiro ocupa a cama 14 de um dos pavilhões de Medicina do Hospital Curry Cabral, com capacidade para 28 internos, momentaneamente desafogado das macas que se costumam amontoar nos corredores. Saneada a pneumonia que o trouxe do labirinto de tendas e comerciantes para o hospital, já podia ter ‘ordem de marcha’.
Só tarda quem lhe dê boleia para um lar de pedra e cal. “A minha enteada não me vem cá buscar. Não sei que se passa. Ela sabe que tenho alta...”, suspira José, depois de um 2005 marcado pelo princípio de trombose e enfarte. Aqui, onde qualquer corpo e qualquer alma se despem de preconceitos, a bata verde disfarçada pelo abafo de malha não esconde a fralda que mede forças com as incontinências.
APENAS UM ENTRE CENTENAS
José é apenas um das centenas de casos auscultáveis no País, votados ao abandono nos hospitais, com um suporte familiar mínimo ou nulo. No Hospital Curry Cabral, em Lisboa, são actualmente oito os internamentos problemáticos, quase todos com mais de 70 anos.
A idade tem tanto de provecta como a velhice de pouco digna. São doentes crónicos, em situação de dependência, que se transformam em casos sociais quando recebem alta clínica e ninguém os vem reclamar.
Com o destino adiado, vão ocupando as camas dos hospitais, aguardando reencaminhamento. “Num albergue não recebem o José, ainda está à espera de ir para um lar particular”, explica Paula Silva, assistente social no hospital há sete anos. “Tem um filho, toxicodependente, que raramente cá vem e que não tem condições para o receber.
E ele não está em condições de ser recebido”, continua, confirmando o fenómeno de auto-exclusão e o feitio torcido do sexagenário, viúvo há mais de uma década. Muitos vivem isolados.
Em outros casos, as estruturas familiares, rotinizadas num ritmo de vida célere, não conseguem responder às necessidades de cuidados dos idosos. Para muitos, a porta da urgência do hospital, aberta 24 horas por dia, é o acolhimento de recurso. A saúde não lhes chega. Como não chega a casa, a comida, o banho, a medicação e a roupa lavada. Falta humanizar o Outono da vida. “As famílias estão demasiado sobrecarregadas e não têm capacidade de resposta. É insustentável ter um idoso crónico em casa.
As estruturas sociais em geral não acompanharam a família monoparental. Temos uma população muito envelhecida e este desnível não foi acautelado”, considera Maria de Jesus Santos, assistente social no Curry Cabral desde 1982.
Esperançada na articulação entre o serviço médico dos hospitais e o trabalho dos técnicos das instituições sociais locais, coordena uma equipa de oito profissionais que seguem de perto casos como estes.
Em 2005, promoveram uma caracterização mais exaustiva dos doentes retidos, casos em que a alta clínica não coincide com a social, em que não reúnem condições para voltar para casa e o apoio domiciliário não é suficiente.
Os casos mais críticos, entre as mais de 2000 situações problemáticas no hospital, foram 80 (41 homens e 39 mulheres), 13 dos quais acabariam por falecer no hospital. A média de dias de protelamento das altas rondou os 40. Já as idades, situam-se nos 72. Em épocas de ‘pico’, como os meses de Inverno, chegam a lotar 10% das 500 camas disponíveis.
CURVA DO ENVELHECIMENTO
A curva do envelhecimento, sempre pronta a provocar sinistros, é tão sinuosa no continente como nas ilhas. Na Madeira, entre cerca de 250 mil habitantes, 17% são idosos.
O Centro Hospitalar do Funchal recebe diariamente vários casos sociais cujo destino é uma incógnita. “Há situações de pessoas que não têm família e até casos de pessoas que estavam emigradas em países que as reencaminham para o país de origem”, explica Filomeno Paulo Gomes, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Funchal, que engloba o Hospital do Marmeleiro e o Hospital Cruz Carvalho.
Contabilizam-se cerca de 110 casos de ‘altas problemáticas’ no cômputo das duas unidades, que recebem 23 mil internamentos e efectuam 150 mil consultas por ano. O tempo de permanência no hospital pode prolongar-se ‘ad infinitum’. “Muitas situações são definitivas.”
A solução não é fácil, mas as principais medidas poderão passar pelo “reforço do apoio domiciliário, das unidades de internamento de longa duração e dos centros de promoção de autonomia.” Como complemento, Filomeno defende uma continuada “acção de sensibilização junto das famílias.” “Há muito mais gente e a viver mais tempo, cada vez mais situações que evitam a mortalidade.
Os lares da segurança social têm um número total de 500/700 camas. Há outras tantas que esperam integração. Daí a dificuldade e necessidade de resposta”, frisa o responsável, considerando que a Rede de Cuidados Continuados de Saúde – em projecto-piloto até ao final do ano passado – “tem funcionado relativamente bem.”
Grande parte das esperanças dos utentes e profissionais de saúde são depositadas nesta teia de assistência, que convoca os esforços do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança e Solidariedade Social. “Espero que haja uma resposta para os concelhos Amadora-Sintra”, defende Adélia Gomes, coordenadora do Serviço Social do Hospital Fernando Fonseca, um dos mais afectados pelo arrastamento dos casos.
“Seria positivo ter uma unidade com vocação intermédia transitória, com pessoal habilitado, que permitisse a ponte entre as famílias e os idosos.” Só no ano passado, cerca de 1850 idosos passaram pelo Serviço Social deste hospital.
Nem todos os casos se revelaram problemáticos no concílio da alta clínica com a social, mesmo assim, o balanço mantém-se preocupante. Actualmente, as situações de ‘abandono’ são 40. “A dificuldade é maior quando se tratam de idosos completamente isolados, em situação de dependência.
Esta tem vindo a aumentar, não é transitória, é definitiva. As situações de incapacidade são cada vez mais volumosas”, explica, apontando para as dificuldades inerentes ao regresso ao domicílio e para a insuficiência do apoio familiar e das instituições locais. “São muitos os que ficam em contexto hospitalar por ausência de um suporte social. Os serviços não dão resposta em tempo útil”, continua Adélia, esclarecendo que o reencaminhamento dos idosos pode demorar vários meses, até um ano, permanecendo entretanto nos serviços onde as situações são detectadas. “Tentamos articular a resposta com a Segurança Social, informando as famílias. Damos uma lista de lares lucrativos com alvará como hipótese.”
De resto, segundo a coordenadora, é prática corrente nesta unidade suportar internamentos em lares particulares com o conhecimento da Segurança Social.
CONTRA A INDIFERENÇA
“Para que o diagnóstico não seja a indiferença”, é o repto lançado pelo Presidente do Conselho de Administração do Curry Cabral, Pedro Canas Mendes, que atribui um papel preponderante às “instituições sociais, supervisionadas pelo Estado, que ainda não têm resposta para os problemas de apoio precário.” “É como se estas pessoas não existissem. Caem nos lares ou vão parar aos hospitais. Tudo passa pela estrutura social. Formamos uma couraça à nossa volta. Não os coloco num lar lucrativo porque sou humano e bom gestor. Uma cama alugada custa 100 euros por dia. Aqui custa 40/45 euros”, esclarece.
Democrático como poucos, o peso da idade não perdoa género nem classe social. O corpo delgado e a pele enrugada de Domiciana vergam-se aos 85 anos da dona. A cabeça, admiravelmente lúcida, não soçobra às vergastadas do tempo. “A minha vida foi um sonho! Nunca trabalhei, só viajei!”, conta, sem reservas, enquanto as enfermeiras de serviço percorrem os corredores tratando da higiene dos pacientes.
Só a audição, hoje reduzida a zeros, se esboroou de tal forma que obriga a um questionário escrito, que a vista, ainda em bom estado, fareja, linha a linha, desconfiada. A garganta, que amiúde reclama um gole de água, lá vai soltando as respostas da idosa, senhora do seu fino nariz. “Vivi 27 anos com uma pessoa muito rica, que morreu com Parkinson há 37”, confessa Domiciana, nascida em Castelo de Vide, em 1920.
Não deixou descendência. Ficou sozinha desde a viuvez, acolhendo hóspedes na sua casa da Avenida de Berna. A pouca família que sobrou pouco lhe pode valer – uma irmã com 84 anos, na Trofa, e sobrinhos dispersos por Gaia.
Vencida pela artrose, e acometida por uma infecção urinária que culminou em insuficiência renal, deu entrada no Curry Cabral há cinco meses. A antiga residência fica ali ao lado. Tão perto e tão longe.
As pernas já não permitem deslocações e falta companhia. “Não sei o que resolvem. Queriam pôr-me num lar, mas eu não queria. Se pudesse andar...”, suspira. “Acabou-se... Nem sei que dizer, é a vida”, desabafa, conformada. Até ao final do mês, o destino de Domiciana será traçado. O encaminhamento para um lar apoiado pela Misericórdia é a hipótese mais viável.
A FATIA DOS ABANDONOS NO GRANDE BOLO DA TERCEIRA IDADE
RUGAS VISTAS DE PERFIL
Em regra, têm mais de 70 anos e apresentam problemas crónicos, num quadro de dependência quase absoluta. Quando permanecem mais de 72 horas sem visita, surge um dos primeiros indicadores críticos e a necessidade de sinalizar os assistentes sociais.
Segundo a Direcção Geral de Saúde, a ausência desta especificidade nas estatísticas dificulta a obtenção do número global de casos. Chegar à família nem sempre é fácil. Muitas vezes, porque não existe ou sobra apenas um dos elementos do casal, igualmente idoso.
Em outros casos, a ausência de documentação implica um moroso levantamento dos dados pessoais (situação extensível aos imigrantes clandestinos em Portugal). Se os casos de inconsciência são dramáticos, os de lucidez são ainda mais penosos, pela consciência do desamparo. Nos centros urbanos, a factura é mais pesada, com a rarefacção dos vínculos de proximidade. “Na província a solidariedade é mais notória”, considera Maria de Jesus, para quem o factor da sazonalidade não é ponto assente. “Nunca consegui confirmar se os casos de abandono acontecem mais nas férias ou no Natal. É em todas as alturas, mais nos meses de Inverno.”
O cenário confirma que Portugal não se livra dos encargos decorrentes do envelhecimento contínuo da população, com o inerente aumento da requisição de assistência médica e social. O grupo de portugueses com mais de 65 anos constitui cerca de 17% da população, chegando a atingir 20% nos grandes centros urbanos, com um índice de dependência, face à população em idade produtiva, estimado em cerca de 24%. 300.000 pessoas vivem em situação de isolamento.
Segundo o INE, a fatia mais idosa, acima dos 80 anos, rondava já os 401.008 habitantes em 2004. Prevê-se que até 2050 possa alcançar cerca de 950 mil.
CENTROS DE SAÚDE
Dos 363 existentes no Continente, apenas 14 prestam cuidados continuados de 1º nível.
Total de Utentes com mais de 65 anos em Portugal é de 1.647.658 idosos abrangidos por estes cuidados 94.241.
Fontes: Inquérito do Ministério da Saúde sobre Cuidados Continuados de Saúde 2004 e Ministério da Segurança Social e do Trabalho
REDE PARA CONTINUAR
Depois de algumas experiências-piloto, a recém-aprovada Rede de Cuidados Continuados Integrados, no âmbito dos Ministérios da Saúde e do Trabalho e Solidariedade Social (16 de Março) promete finalmente conhecer um impulso, apostando em diferentes modalidades de internamento.
Até 2015, está prevista a criação de 14 mil camas, numa articulação com as Administrações Regionais de Saúde e os sectores público e privado. Espera-se a mobilização de equipas com origem nos serviços comunitários de proximidade, abrangendo os hospitais, os centros de saúde, os serviços distritais e locais de segurança social, a rede solidária e as autarquias.
Para evitar as situações de abandono nos hospitais, deverão ser criadas unidades para convalescências até 30 dias, unidades de estadia média e de reabilitação para internamentos resultantes de episódios agudos até três meses e, finalmente, uma outra modalidade de acompanhamento de casos de doença progressiva que inviabilizam o regresso à família.
Entretanto, apenas uma minoria tem acesso a uma resposta estruturada especificamente para estes cuidados.
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