Quem anda pelas ruas de Lisboa vê milhares de pombos, mas é raro encontrar um pombal. No entanto existem, às centenas, escondidos nos terraços, onde os donos os treinam com rigor. Quando não prestam, torcem-lhes o pescoço.
Os pombos mais fracos têm morte certa: Artur Lonha, antigo torneiro mecânico da Lisnave, gosta de os comer. Torce-lhes o pescoço, depena-os e cozinha-os. Fritos, grelhados ou guisados tornam-se um óptimo petisco. “Os pombos estúpidos vão para o tacho”, diz o columbófilo. O 'Caga-neiras', a 'Coxinha' e a 'Teimosa' foram alguns dos que se salvaram do fogão. Mais ágeis e resistentes, já deram muitas alegrias ao dono. Filhos de bons reprodutores, portaram-se bem nas corridas da especialidade. São os chamados pombos correio (ver caixa). Largados em Barcelona, chegaram sem dificuldade ao pombal, situado no terraço de um prédio de 14 andares na Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa.
LIMPAR O POMBAL
Há mais de dois mil columbófilos urbanos no distrito de Lisboa, divididos por 52 colectividades, que dependem da Federação Portuguesa de Columbofilia. Ser sócio de uma delas é fundamental para obter a licença que permite montar os pombais no topo dos prédios e em quintais. Depois, vem um osso duro de roer: é necessário uma autorização dos vizinhos em reunião de condóminos.
Há quem não precise de se chatear com burocracias. Basta ter um amigo dono de um prédio. Foi o caso de Artur Lonha, que herdou do pai o gosto pelos pássaros. Na juventude, este era o passatempo preferido a par dos jogos de futebol e dos bailaricos. “Agora os jovens vão todos para as noitadas e ninguém se interessa por pombos”, diz. De facto, esta é uma actividade que requer muito tempo e trabalho. Todos os dias, religiosamente às onze da manhã, o antigo torneiro mecânico sobe ao terraço do prédio. Pega num pau de madeira, que tem preso na ponta um pano de cor vermelha gasto pelo tempo, e põe-se ao lado do pombal. Abre as portas e aponta a bandeira.
Os pombos entram em alvoroço, num arrulhar cada vez mais intenso. É altura de esticarem as asas. Formam um único bando, que voa sobre os Estádios de Alvalade e da Luz. Num movimento sincronizado dirigem-se até à zona do aeroporto, muito próximo do radar, e regressam ao pombal.
O passeio é quase sempre o mesmo. Artur Lonha costuma esperar pelos pombos mais de duas horas. Às vezes mais tempo. Quando está com o amigo Benjamim revezam-se à hora do almoço. Se estiver sozinho, a mulher traz-lhe duas ou três sandes e uma cerveja. Aproveita o tempo para ler jornais da especialidade e fala ao telemóvel com outros columbófilos. Em dia de jogo de futebol liga a televisão, guardada numa pequena arrecadação do terraço. E, claro, trata da higiene dos pombos. É importante que os vizinhos não reclamem.
A limpeza do pombal exige muito tempo. Normalmente, coloca-se areia no chão e depois varre-se as fezes – também há quem opte por forrar o sítio com papel de jornal – muda-se também a água, dá--se novas sementes e, uma vez por semana, vitaminas. As vacinas também são dadas pelos donos. Pegam no pombo e enfiam a seringa no cachaço.
PIRATAS DO AR
Cada columbófilo é uma espécie de veterinário. Carlos Cardoso, antigo mecânico na açucareira Sidul, trata os seus pombos como filhos. Os pombais estão montados no quintal de um prédio da Praça do Chile.
Aos 67 anos, Cardoso mostra uma energia fora do comum. Sobe e desce rapidamente as escadinhas que separam a casa do quintal, entra nos pombais e pega nos pombos como se fossem brinquedos. Todos os dias, por volta do meio-dia, eles são postos em liberdade. Voam cerca de uma hora e regressam exaustos. Têm à sua espera um prato de sementes. 'Tuxa', uma cadela rafeira, observa os pombos e ladra furiosamente, mas nunca se aproxima. Tem medo.
Carlos Cardoso começou a gostar de pombos por volta dos 17 anos. As conversas com os amigos no restaurante Portugália influenciaram-no. Entre um bife e uma imperial, as discussões iam sempre parar ao mesmo. Todos diziam ter a melhor ave.
Um dia, os companheiros ofereceram--lhe um casal de pombos e ele dedicou-se à criação. Até hoje. “Não vou de férias porque tenho de tratar deles”, conta.
Os vizinhos só reclamaram uma vez. Um belo dia, um amigo, lembrou-se de rebentar bombinhas de Carnaval para obrigar os pombos a voar. O barulho foi tanto que os habitantes das casas ao lado barafustaram. Agora, não há razões para isso. À uma da tarde os pombos regressam a casa e Cardoso fecha as persianas do pombal. No Verão podem voar duas vezes por dia. Têm de estar em forma para as corridas. Quando eles voltam, é preciso olhar sempre com cuidado para ver se não entrou um pombo estranho.
Os que vivem na rua estão normalmente infectados com salmonelas e podem por em perigo a saúde dos outros pombos e até mesmo dos donos. Por isso, o columbófilo é contra as pessoas que lhes dão comida nas ruas. “É das piores asneiras que se podem fazer. Há milhares de pombos vadios cheios de doenças”, diz.
RADAR APURADO
O gosto pelas provas de pombos é comum a todos os columbófilos. Celestino Brás fala com emoção da 'Vaca Malhada', da 'Pandorinha' e do 'Pintadinho'. Portaram-se bem nas corridas e, em menos de um dia, voaram de Barcelona, onde foram deixados, até Lisboa. Celestino é natural de Olhão, no Algarve, e sempre gostou de pássaros. Com os primos e amigos começou a criar pombos. Interrompeu a actividade quando veio para a capital estudar Engenharia Civil. Aqui casou, comprou casa na Praça de Alvalade, e decidiu voltar a Olhão para buscar os seus meninos. “Em 1986, trouxe alguns pombos para cá. Os actuais são descendentes destes”, conta.
O que mais o fascina é a capacidade de orientação destas aves. Há várias teorias sobre o assunto: alguns especialistas afirmam que os pombos se orientam pelo Sol, outros dizem que é através de cheiros. “É um grande mistério, mas não tenho dúvidas que se os pombos pudessem parar no caminho para se abastecerem, eram capazes de regressar ao pombal vindos de qualquer parte.”
FESTIVAL AÉREO
Em dia de competição, os columbófilos colocam anilhas nas patas dos pombos e metem-nos numa caixa à porta da colectividade. Depois, transportam-nos até ao local da prova, normalmente em Espanha. Ao fim de algumas horas é vê-los de binóculos apontados ao céu. Quando as aves se aproximam, apitam várias vezes para chamar os pombos. Em caso de vitória, o prémio ronda os 25 euros. Mas ninguém anda nisto por dinheiro. “Tenho um grande carinho por eles”, diz Celestino, de 50 anos.
Artur Lonha, o mesmo que torce o pescoço dos pombos mais fracos e os come fritos, ainda hoje não se esquece daqueles que mais alegrias lhe deram. Como a 'Rosa Mota', uma pomba campeã, que deixou morrer de velhice. E de quem guarda ainda hoje uma anilha, que traz ao pescoço pendurada num fio.
SISTEMAS ANTI-POMBOS
As fezes dos pombos vadios, muito ácidas, podem degradar monumentos nacionais, como os Mosteiro dos Jerónimos ou o da Batalha. As Câmaras Municipais costumam montar dois tipos de sistemas anti-pombos: um feito com arames cheio de picos, e outro feito com fios eléctricos, que dão aos pombos um pequeno choque. Nos prédios normais, mesmo nos mais novos, o sistema não é implantado. “Essas preocupações não são tidas em conta”, diz o columbófilo Celestino Brás. Normalmente, os pombos de rua procuram edifícios não habitados para pousar. Monumentos e casas velhas são os sítios preferidos.
- Alguns achados arqueológicos indicam a existência do pombo há 6.500 anos a. c.
- No Egipto anunciava-se a subida das águas do Nilo através dos pombos-correios
- Os romanos, no período da ocupação da Gália, faziam chegar as notícias a Roma, por meio de uma série de pombais escalonados até à capital do império
- Na Idade Média só aos senhores feudais e ao clero era autorizada a criação de pombos correio
- As vitórias nos Jogos Olímpicos eram dadas a conhecer através dos pombos correio
- Em 1815, a primeira notícia recebida em Londres, a anunciar a derrota de Napoleão em Waterloo, foi transmitida por um pombo-correio
- Em 1948, o governo português concedeu o Estatuto de Utilidade Pública ao pombo-correio
- Na década de 50, na Argentina, cerca de 60.000 pombos ainda serviam como meio de comunicação postal
O pombo-correio é fruto dos cruzamentos de algumas raças belgas e inglesas, efectuadas na segunda metade do século XIX. Este tipo de pombo difere dos outros pelo apurado sentido de orientação e o porte atlético.
O pombo-correio caracteriza-se pelas seguintes características: resistência, vivacidade, rapidez de voo, penas abundantes, rabo sempre pregueado, pescoço erguido e grande resistência à fadiga. Têm um peso médio compreendido entre 425 e 525 gramas, para os machos, e 480 gramas para as fêmeas. É capaz de percorrer num só dia distâncias de 700 a mil quilómetros, a velocidades superiores a 90 quilómetros por hora.
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