De Luanda a Gago Coutinho, fizemos dois mil quilómetros em seis dias. Esperava-nos a pior zona da guerra, onde os ataques eram constantes.
Após 10 meses de tropa no continente, embarquei em novembro de 1971 no Boeing 707 da Força Aérea com destino a Luanda. Depois de cinco dias no Grafanil com um desconforto total, começámos uma viagem apocalíptica até Gago Coutinho, conhecida como ‘terras do fim do mundo'. A primeira etapa foi até Nova Lisboa - 12 horas e 600 km em cima de camionetas de carga e misturados com mercadorias como se fôssemos gado. Seguimos depois para o Luso, num comboio do início do século XX, com os bancos de travessas em madeira, durante dois dias sem paragens e sem casas de banho. Na última etapa da viagem, mais 500 km, meteram-nos em camionetas de carga para percorrer picadas, propícias à colocação de minas e a emboscadas.
Percebemos que nos esperava uma difícil jornada. Depois de termos feito este percurso numa tensão permanente, com as armas apontadas para a mata à espera de um ataque, chegámos às ‘terras do fim do mundo' com mais de 2 mil km percorridos em seis dias, todos partidos e quase sem poder andar.
A vila de Gago Coutinho era a pior zona de guerra em Angola. Ficava perto da fronteira com a Zâmbia, de onde partiam as forças que nos vinham fazer a vida negra, através de colocação de minas e ataques surpresa. A sede do batalhão coordenava os destacamentos de Ninda, Chiume e Mussuma, com uma companhia cada e apoiados por uma equipa de quatro homens do nosso pelotão.
GUERRA PERMANENTE
A missão do Pelotão de Morteiros 81 era dar apoio com armas pesadas e dotar os destacamentos com capacidade de fogo na defesa dos postos avançados. Também os camaradas da Companhia de Comando e Serviços faziam tudo o que a guerra exigia: colunas, patrulhas, reforços, transmissões, etc.
Embora eu passasse a maior parte do tempo a fazer serviço no posto de rádio, durante os 12 meses que estivemos no Leste saí para o mato por três vezes, em colunas que iam abastecer os destacamentos. Aconteciam atos de guerra - explosões de minas anticarro e antipessoais, pontes destruídas, emboscadas ou acidentes. Por vezes, para percorrer 80 km de picada demorávamos três ou quatro dias, isto quando não rebentava uma mina anticarro que causava feridos graves. No primeiro mês em Gago Coutinho morreu um camarada devido a uma doença súbita e, mais tarde, houve outra morte por acidente, quando um camarada limpava a G3 no destacamento de Ninda. Nos restantes 11 meses, apenas tivemos alguns feridos menos graves. Estas foram as baixas do pelotão, que tinha menos de 50 homens. À escala do batalhão a que estávamos adstritos, o número de mortos e mutilados pelas minas foi bastante superior.
Neste fim do mundo, além da tropa, os únicos brancos eram o cantineiro e o agente da PIDE, a quem entregávamos prisioneiros. O clima de guerra era permanente. Os acontecimentos aqui narrados não foram os mais marcantes desse período vivido no mato. Os piores, evito descrevê-los devido à perturbação que ainda me provocam ao fim de 42 anos.
O segundo ano de comissão foi passado no Grafanil, perto de Luanda. Embora sem correr riscos de maior, a nossa missão era fazer serviço à porta de armas e o policiamento da unidade. Tivemos de enfrentar alguns conflitos e até confrontos físicos para impor a ordem e disciplina.
Regressámos a 7 de novembro de 1973. Fomos tão longe para combater numa guerra sem futuro e sem qualquer sentido.
Vítor Venido
Comissão
Angola, 1971/73
Força
Pelotão de Morteiros 3058
Atualidade
Aos 64 anos, é casado, tem duas filhas e uma neta. Vive em Lisboa.
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