Último filme do realizador americano, ‘O Amigo Gigante’, adapta obra de Roald Dahl sobre uma órfã e o seu enorme amigo
O problema de Steven Spielberg são os complexos de inferioridade intelectual. Conheço casos: gente que, apesar de um talento invulgar para as coisas lúdicas, sonha com as profundezas da respeitabilidade.
Imagino o jovem Steven, a filmar obras-primas como ‘Duel’ ou ‘Jaws’ – e a comparar-se angustiadamente aos colegas de geração, como Scorsese ou Malick, dois mestres da metafísica em celulóide. "Serei atrasado?", perguntaria Spielberg, contemplando o seu E.T..
Inquietações destas fazem mal à cabeça – e Spielberg foi vítima da sua. Não bastava brincar com o cinema; era preciso levá-lo a sério e deixar uma "mensagem", tentação fatal que ele cumpriu em ‘A Cor Púrpura’, ‘A Lista de Schindler’, ‘Amistad’. Bons filmes? São. Mas filmes de uma competência burocrática, artificial.
De vez em quando, o velho Spielberg, o genuíno Spielberg, ainda vinha à tona para nos dar ‘Apanha-me se puderes’. Mas depois as inseguranças do passado obrigavam-no a um ‘Munique’ e o caldo voltava a entornar. Para usar a dicotomia clássica, o mundo de Spielberg é puro Méliès; mas ele insistia, para grande desperdício de tempo e dinheiro (nossos e dele), em seguir os irmãos Lumière.
O FILME
Fui cliente de Roald Dahl até 1989 – ano em que o escritor declarou que "compreendia" a "fatwa" lançada por Khomeini a Rushdie. Expulsei o cavalheiro da minha estante. Mas não sou ingrato: li-o na infância e o seu ‘The BFG’ faz parte do cânone de qualquer criança afortunada. História conhecida: a órfã Sophie avista um gigante a meio da noite e é raptada por ele. Mas o gigante é alma boa, apesar de inculta (o linguajar do gigante é uma proeza literária de Dahl e, no filme, do talento de Mark Rylance), e será providencial em derrotar os outros gigantes que têm o hábito de devorar seres humanos vivos. No livro, se a memória não me falha, existia uma conversa hilariante entre Sophie e o Amigo Gigante sobre o sabor das várias nacionalidades (os gregos eram demasiado oleosos, por exemplo). Spielberg, sem surpresas, evita ofender "sensibilidades" – e, como recompensa, oferece-nos a sequência belíssima da ‘caça aos sonhos’, que não existe no livro: o Amigo Gigante gosta de capturar sonhos como se fossem borboletas, para depois os soprar sobre as crianças que dormem. Spielberg filma tudo isto como a destreza de um alquimista, misturando as doses certas de humor e, claro, beleza formal. Uma combinação que se espalha pelo filme todo, como se ‘O Amigo Gigante’ fosse também um sonho que Spielberg elaborou só para nós. Como o gigante do cinema popular que, malgré lui, ele sempre foi e será.
Quando lemos o livro, descobrimos no fim que o autor do mesmo foi o próprio Amigo Gigante, já devidamente letrado por Sophie. Spielberg segue os passos do personagem e sopra para o ecrã um sonho que podemos ver acordados.
Intérpretes: Rebecca Hall, Mark Rylance, Bill Hader e Jemaine Clement
Exibição: cinemas
TELEVISÃO
RTP 2
Sazonalmente, lá vem a conversa do "serviço público de televisão". O que é? Como se faz? Para que serve? Chega de discussões inúteis. A actual RTP 2 dá a resposta: é oferecer a programação que não passa em nenhum outro canal. O documentário sobre as aventuras da arte moderna, por exemplo, é um dos grandes momentos de televisão que vi em 2016. Parabéns, rapazes.
FILME
‘O SR. JUIZ'
Eis a história de um juiz implacável que encontra entre os jurados a mulher que sempre amou. Quando acrescentamos que esse juiz é o grande Fabrice Luchini e a musa é Sidse Babett Knudsen (actriz norueguesa da série ‘Borgen’), o que temos? Um dos mais belos e subtis filmes franceses dos últimos tempos.
Realizador: Christian Vincent
Interpretações: Fabrice Luchini e Sidse Babett Knudsen
Exibição: DVD
LIVRO
'A CAMA DE PROCUSTO'
"Uma boa máxima permite-nos ter a última palavra sem sequer começar uma conversa", escreve o notável Nassim Nicholas Taleb neste livro de máximas. Se ainda não conhece o autor de ‘Antifrágil’ (obra-prima do pensamento contemporâneo que passou despercebida entre nós), começar pelos seus aforismos é um bom aperitivo.
Editora: Dom Quixote
FUGIR DE
'RACE - 10 SEGUNDOS DE LIBERDADE'
Quando Hitler organizou os Jogos Olímpicos de 1936, o objectivo era claro: legitimar o seu regime ditatorial e mostrar ao mundo a superioridade da raça ariana. Jesse Owens estragou-lhe os planos com quatro medalhas de ouro. Uma história destas merecia uma obra à altura. Infelizmente, Stephen Hopkins oferece um produto nulo que nunca supera a mediocridade de um (mau) telefilme.
Exibição: cinemas
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