Camilo Castelo Branco é um fantasma na nossa imaginação. Um ídolo verdadeiro. Um autor a que regresso sempre
É suposto que para esta coluna eu escolha novidades que os leitores possam partilhar entre si – depois de eu as partilhar com os leitores. Passeio pelas estantes das livrarias, pelo catálogo dos discos acabados de sair, pelos filmes que chamam por nós para o mundo do verão, pela programação de música que acompanho como uma salvação para a minha própria vida. Com o crescente ruído do Mundo, a ampliação de gritaria e de batida eletrónicas, uma espécie de histeria que toma conta das novas gerações que não entendo (sou dos que não tem vergonha de ter envelhecido, como estava previsto pela ordem natural das coisas), a música de há dois e três séculos tem sido uma tábua de salvação, a par do jazz. Como se houvesse uma ligação entre Handel, Monteverdi, Pergolesi, Georg Philipp Tellemann, Buxtehude, Marin Marais, Bach, Schubert, Debussy, Mahler – e os sopros de Lester Young, Coltrane ou Miles Davis. Interessa-me pouco a relação, mas sei que ela existe. A música salvou-me várias vezes da solidão e da irrelevância em que a vida se transforma. Com o desaparecimento de alguns dos que me eram próximos, com a doença, as escolhas que nos tornaram mais ou menos infelizes, a necessidade de concentração, a música salvou-me. Livros e música tornaram-se companhias insubstituíveis; não os troco por quase nada. Talvez apenas por uma praia logo de manhã, durante o verão. Um almoço com os meus pais. Um passeio com os meus filhos. Por uma roda de amigos bebendo cerveja e apreciando coisas banais como futebol, meteorologia e viagens por fazer.
Camilo
Este verão escolho o meu autor. Podia ser Eça, que cada vez mais me apetece reler. Podia ser a poesia de Cesário Verde, de Manuel António Pina, de Ruy Belo, de Vasco Graça Moura. Podiam ser romances que li recentemente, de Ruben A., de Agustina, de Lobo Antunes. Ou ‘Uma Família Inglesa’, de Júlio Dinis, a que regresso em tempos de exaustão. Ou os livros familiares de J. Rentes de Carvalho, que me reconciliam com a simplicidade. Mas é um nome impopular que enche o meu verão deste ano: Camilo Castelo Branco. Leio pela enésima vez ‘A Brasileira de Prazins’, uma obra-prima, ‘O Retrato de Ricardina’, uma pérola de desventura e maldade, ‘Anátema’, violência e paixão, ‘Os Brilhantes do Brasileiro’, vingança e bizarria, a beleza amarga das ‘Novelas do Minho’, a risota irrelevante de ‘A Queda dum Anjo’, a luz filtrada de ‘Mistérios de Lisboa’, o ferro em brasa de ‘Eusébio Macário’ (um catálogo de figuras da pátria) e de ‘A Corja’, a miséria de ‘Maria Moisés’ ou ‘Doze Casamentos Felizes’ e ‘Vinte Horas de Liteira’. O leitor não se preocupe. Isso basta-me para este mês de sonolência, em que o apelo da novidade é quase nulo e a galeria de personagens de Camilo se transforma num planisfério de todo o género humano, colorido de paisagens de maldade e de infortúnio, de histórias que hoje não sabemos classificar nem dizer se nos fazem rir ou nos obrigam a imaginar que choramos. Camilo é de outro tempo. Impopular e importante como poucos – com ele vamos até ao mistério e à degradação, não importa qual chegue primeiro.
Filme
‘Jason Bourne’
Jason Bourne é uma criatura do cinema mas, antes, passou pelo talento descoordenado dos livros de Robert Ludlum, um autor que não figura nas nossas melhores galerias. Matt Damon regressa para o quinto filme da série; um repo-sitório de violência, banalidade, cons-piração e sofrimento. Deve ver-se Bourne, faz parte de nós.
Realizador Paul Greengrass
intérpretes Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vicent Cassel e Julia Stiles
Exibição cinemas
Música
Yo La Tengo
Se para mim há uma canção de verão, chama-se ‘This Is the Day’, dos Yo La Tengo, do álbum ‘Summer Sun’, de 2003 (mas também podia ser ‘Oh, So Protective One’, do álbum ‘Broken Dreams Club’, dos Girls). Oiçam os Yo La Tengo enquanto o verão valer a pena. E depois de ele passar (e de já não valer nada) oiçam-nos de novo, sem tristeza, nem comiseração – só um pouco de melancolia. Vão ver que tem sentido.
disco ‘Summer Sun’
editora Matador (2003)
Museu
Arte sacra
De passeio pela província – onde ainda vale a pena viajar hoje em dia – faça uma paragem em Macedo de Cavaleiros para visitar o seu minúsculo e tranquilo Museu de Arte Sacra, e ver a delicada coleção de ex-votos. Deus está nos detalhes mais insignificantes, tanto como nas escolhas mais banais. A simplicidade do lugar é comovente e a mostra é delicada e bem trabalhada.
localização Casa Falcão,
em Macedo de Cavaleiros
Jogos
Do Brasil
Não acredite no folclore que vem pela televisão com a ginástica rít- mica e os 1500 metros de corrida. Uma geração de especialistas em ladroagem quase destruiu o Brasil. A Guanabara, uma joia de beleza letal, está mesmo suja. As favelas estão cheias de pobres e controladas por bandidos. O Rio está degradado depois de ter passado pela cidade a pior geração de políticos de que há memória. Este mês não é a véspera do regresso do Brasil. Uma pena.
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