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Economia
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AZEITONAS A APODRECER POR FALTA DE MÃO-DE-OBRA

"Uma desgraça". Foi desta forma que Vítor Dórdio, especialista na área da olivicultura, definiu ao Correio da Manhã a produtividade média de azeitona por árvore no nosso país: cerca de dois quilos. A causa deste valor reside sobretudo nos elevadíssimos custos da mão-de-obra para o trabalho da apanha da azeitona, o que faz com que muitos proprietários optem por a deixar na árvore.
20 de Outubro de 2002 às 00:05
Sendo Portugal o sétimo produtor mundial de azeite, o sector assistiu na última campanha a uma quebra acentuada, que no Alentejo atingiu os 50 por cento, em grande parte resultante dos referidos custos. O empregado ganha de acordo com o que o lagar paga ao produtor pela azeitona.

Do lagar, o produtor recebe "X" por quilo, verba que varia consoante a qualidade da azeitona, e é esse mesmo montante que entrega ao empregado. O lucro está na ajuda à produção que recebe da Europa. "Se estas ajudas terminarem ninguém apanhará a azeitona", esclareceu a mesma fonte.

Não obstante esta adversidade e a falta de mão-de-obra, situação atenuada pela execução deste trabalho por pessoas de etnia cigana, o sector tem vindo a melhorar quer em termos da qualidade do produto, quer ao nível dos lagares. Vítor Dórdio, que falou ao CM à margem da Expo Vinaz, certame que hoje termina no Redondo -- evento aonde vão ser analisados também os sectores do vinho e da cortiça --, explicou que desde 1998 muitos foram os lagares de azeite que fecharam as portas, sobretudo na Beira Interior e em Trás-os-Montes. No Alentejo, talvez porque há anos que vinham sendo reformulados, a "razia" foi menor.

Uma aposta forte tem sido também feita na qualidade do produto. Numa altura em que os preços estão praticamente nivelados e em que os compradores exigem certificados atestando a credibilidade do produto, todos os esforços são poucos para que se alcance quanto antes um sucesso idêntico aos dos vinhos.

Entre 75 a 100 euros por dia

Produtor de uma marca de azeite prestigiada - Ourogal - André Luís Lopes considera “chocante” o que se passa com a falta de mão--de-obra para a apanha da azeitona. “Ao preço de 12,5 ou 15 cêntimos por quilo, um apanhador de azeitona pode ganhar diariamente entre 75 a 100 euros. Ainda assim, quando vamos aos centros de emprego, não conseguimos que os desempregados se interessem por trabalhar com este nível de remuneração”.

Já não bastava o facto de nos situarmos ao lado do maior produtor mundial de azeite (Espanha) e de apresentarmos um olival demasiado envelhecido, para agora as empresas se defrontarem com a falta de mão-de-obra na apanha de azeitona, colocando em risco a nossa capacidade de sobreviver nos mercados nacional e internacional. É que, de acordo com números recentes, consumimos 75 mil toneladas de azeite quando a produção nacional é 40 mil toneladas. Como de costume, os produtores espanhóis agradecem.
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