A alguns dias de passarem os 101 anos da fundação da CUF, no Barreiro, pelo seu avô Alfredo da Silva, faleceu na madrugada de ontem, ao cabo de três anos em estado de coma, o empresário José Manuel de Mello, de 81 anos, pai de 12 filhos.
No grupo que chegou a valer 5% do PIB português, ele foi sempre o homem que tomou conta das finanças, mas também quem criou a Lisnave e a Setenave, e nas incidências do 25 de Abril viu quase tudo ser nacionalizado para depois reerguer uma fortuna ainda maior que herdada do pai. Na mais recente tabela das fortunas portuguesas, feita pela revista ‘Exame’, a família Mello aparece em 3º lugar, com bens avaliados em 1.245 milhões de euros com o grupo José de Mello e participações na José de Mello Saúde, Brisa, EDP, Efacec, CUF e Selecta. Curiosamente, foi nas cinco maiores a única fortuna cuja avaliação subiu no tempo de crise 2008-2009, e em que o nº 1, Américo Amorim, apareceu com os valores reduzidos a um terço.
José Manuel de Mello, nascido em Cascais em 8 de Dezembro de 1927, era o mais novo de quatro filhos. A irmã mais velha, Maria Cristina Mello, esteve casada com António Champalimaud, de quem teve sete filhos antes de se divorciarem e faleceu em 2006 com 86 anos. Maria Amélia de Mello, que casou com José Manuel Espírito Santo Silva, faleceu em 1992 com 70 anos. Sobrevive Jorge de Mello, de 88 anos, que na repartição de tarefas de liderança se ocupou do sector industrial do grupo CUF, constituído por mais de 70 empresas e marcante na economia nacional até pouco depois do 25 de Abril de 1974.
Como o Presidente da República, Cavaco Silva, afirma na sua mensagem de condolências, José Manuel de Mello 'sempre assumiu uma atitude empresarial pautada por um empreendorismo dinâmico e inovador, a que soube também agregar um grande sentido de responsabilidade das suas empresas em relação à sociedade envolvente'. O homem de negócios tinha também as suas paixões, à frente das quais, por estranho que pareça, estava o campo. Foi por isso que estudou para engenheiro agrónomo e teve como derradeira aposta empresarial fazer o melhor vinho português na Herdade da Ravasqueira, em Arraiolos.
EXÉQUIAS NA BOA NOVA DO ESTORIAL
O corpo de José Manuel de Mello encontra-se em câmara ardente, desde ontem à tarde, na Igreja da Boa Nova, no Estoril, onde se celebrou missa e estiveram várias personalidades a apresentar condolências à família enlutada. Entre elas, o CM notou as presenças do advogado e antigo ministro Vasco Vieira de Almeida, Marcelo Rebelo de Sousa e Germano de Sousa, ex--bastonário dos médicos. O funeral está marcado para esta manhã após exéquias com início às 10h00.
O QUE DISSE
'Comecei a minha vida profissional como funcionário da CUF a vender adubos no Médio Oriente'
In ‘Expresso’ 16 Abril 2005
'A minha fé numa evolução liderada por ele [Marcelo Caetano] foi desaparecendo progressivamente'
In ‘Público’ 6 de Março 1994
'Portugal habituou--se a viver numa mentira. Todos mentem uns aos outros. E não acredito nos novos'
IN ‘expresso’ 24 Janeiro 2004
'Não me sinto orgulhoso de um dia, no Brasil, ter virado a cara a Marcelo Caetano'
In ‘expresso’ 16 de Abril 2005
'Não me esqueço que foi no tempo de Soares que se abriu a banca à iniciativa privada'
In ‘Público’ 6 de Março 1994
CONVIDAVA FUTEBOLISTAS PARA CAÇADAS
Vítor Gomes, Eduardo e Capitão-Mor, futebolistas em destaque no plantel do Grupo Desportivo da CUF, no início dos anos 70, foram várias vezes convidados para caçar coelhos na Herdade da Ravasqueira que a família Mello possuiu no concelho de Arraiolos, no Alentejo, segundo contou ao ‘CM’ João Aranha, à altura presidente do clube participante na Primeira Divisão Nacional, com um 4.º lugar à frente do Sporting e presença nas competições europeias da UEFA.
A propósito, João Aranha recordou ainda que aquando de uma ida da equipa da CUF à Suécia para defrontar o Hamarby e o Landskrona na Intertoto, José Manuel de Mello tratou com parceiros escandinavos da Lisnave uma recepção inesquecível para um plantel. Apesar de reservado como adepto, José Manuel torcia pelo Benfica , ao contrário do irmão Jorge, todo sportinguista.
RETIDO A 12 DE MARÇO DE 1975 NO AEROPORTO
Mercê do apoio de accionistas estrangeiros cujos bens nunca foram nacionalizados, José Manuel de Mello manteve-se mesmo nos momentos mais tensos do PREC à frente da ‘revolucionária’ Lisnave e não escapou a algumas peripécias. No dia seguinte aos confrontos do 11 de Março, esteve de manhã à noite, a sandes e cervejas, retido no aeroporto de Lisboa, onde pretendia apanhar avião para uma reunião em Paris. Cercavam-no, segundo contou a Maria João Avilez, no ‘Público’, em 1994, uns 30 fuzileiros e pára-quedistas fortemente armados que no fim lhe disseram para ir para casa.
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