Artigo exclusivo
Arguidos recusam responsabilidades na morte e deixam no ar a possibilidade de o espancamento ter ocorrido em momento anterior.
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“Depois de o algemarmos, fui embora e dei por concluída a minha participação. Antes da minha hora de saída, lembro-me de que alguém me disse que o passageiro estava bem, mais calmo, já tinha inclusivamente comido. Nunca me passou pela cabeça que a nossa participação, sendo proporcional no uso da força, tivesse qualquer consequência. Presumi aliás que já tivesse sido desalgemado e que não houvesse mais nenhum problema”, garantiu Duarte Laje, que foi perentório em dizer que quando entraram na sala Ihor estava bastante maltratado.“Ele estava agitado, sentado no chão, com algum tipo de descontrolo e alternava entre o sentar e o deitar. Apercebi-me de outra situação anómala: adesivos nos pulsos e nas pernas. Notei ainda que ele apresentava algumas marcas no rosto. Eram dois hematomas, na testa e no queixo e tinha uma espécie de escoriações nos braços”, explicou.Também Bruno Sousa, que falou ao tribunal, disse que nada fizeram. Só retiraram a fita adesiva do corpo de Ihor e colocaram algemas médicas. Decidiram-se depois, novamente, pelas algemas de metal, porque o cidadão ucraniano estava visivelmente agitado. “Pusemos o colchão a meio da sala e até comentamos que tínhamos de tirar as fitas adesivas, que estavam muito apertadas. Eu retirei a algema metálica e o senhor começou a reagir. Ele conseguiu rebentar com as algemas médicas e decidimos que as ligaduras eram inúteis.”O mesmo discurso teve Luís Silva, o terceiro arguido, que também garante que não bateu no cidadão ucraniano. Aliás, todos deixam no ar a hipótese de Ihor ter sido espancado antes de chegarem àquele espaço.Não explicam porque não pediram ajuda. Um dos arguidos reconheceu por exemplo que Ihor estava bastante sujo quando o encontraram, o que levou a procuradora a questionar se não é normal permitirem que as pessoas vão à casa de banho. “E também é normal tirarem-lhes o telefone e o dinheiro, se não estão presos”, perguntou. Sim, respondeu o inspetor. Por explicar marcas do bastão extensível no corpo de Ihor O bastão extensível que um dos arguidos usava - e que é visível nas imagens de videovigilância apreendidas pela Polícia Judiciária - levou esta terça-feira Luís Silva a garantir que outros funcionários também os usavam. Ao contrário do que tinha sido dito pelo ministro Eduardo Cabrita e a diretora do SEF, Cristina Gatões, de que os bastões extensíveis não faziam parte do equipamento do SEF e que não foram distribuídos pelos inspetores, Luís Silva garantiu o contrário. “Eu comprei-o em 2004 no casão militar porque não havia para todos. Era na altura legal e sempre os usámos. Nunca houve nenhuma diretiva em sentido contrário e o SEF distribuiu-os por muitos inspetores.” O que Luís Silva não conseguiu explicar é como é que no corpo de Ihor há marcas compatíveis com o mesmo bastão. O inspetor garante que nunca o usou na sala de detenção e afirma mesmo que só usaram as mãos para manietar o passageiro. Também por explicar estão as marcas de uma bota, igualmente no corpo de Ihor, compatíveis com o calçado de um dos arguidos. “Não vou comentar pormenores. Isso farei em sede de julgamento”, disse Ricardo Sá Fernandes, quando confrontado pelo CM. A uma pergunta do juiz, se os arguidos disseram – após saírem da sala onde estava Ihor – “hoje já não precisamos de ir ao ginásio”, todos garantiram que não. Foram aliás perentórios a negar o uso da força.
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