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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

500 empresas de Braga já fecharam as portas

Os sindicatos querem que o Presidente da República explique, “claramente, que efeitos e impactos positivos” teve, para a economia portuguesa, a viagem realizada à China.

18 de janeiro de 2005 às 13:00

Adão Mendes, coordenador da União dos Sindicatos de Braga e membro da Comissão Executiva da CGTP, disse ao Correio da Manhã que “os efeitos negativos, esses não são difíceis de adivinhar, a julgar pelas consequências nefastas que tiveram as viagens do género efectuadas pelo senhor Presidente da República à Roménia e a Marrocos. O que nós queremos saber é se os empresários que integraram a comitiva foram procurar novos mercados, novos clientes, nova tecnologia e novos caminhos de modernização das empresas, ou se foram desbravar terreno para a deslocalização dos seus sectores de produção para esses países”.

Referindo que o esforço de internacionalização da economia portuguesa que o Presidente da República tem levado a cabo “é louvável”, Adão Mendes diz que “o problema é que, à boleia das boas intenções da Presidência, alguns patrões aprendem o caminho das pedrinhas, como se costuma dizer, e, de um dia para o outro, as empresas aparecem em países como a China, a Índia, Marrocos ou Roménia”.

Confrontado com as declarações do presidente do Conselho de Administração da Coelima, Aurélio Silva, que garante que “não é intenção da empresa acabar com as fábricas em Portugal”, Adão Mendes lembra que “no prazo de cinco anos, a fábrica de Braga, por exemplo, passou de mais de mil para menos de 500 trabalhadores e todos os dados apontam para o acentuar, este ano, do emagrecimento das empresas”.

Mas este sindicalista, profundo conhecedor dos problemas que enfrenta o sector têxtil, diz que a Maconde e a Riopele são apenas dois exemplos, porque a deslocalização, assegura, “vai bater à porta de muitas outras fábricas”.

“Nós sabemos que a Outerinho e a Lameirinho, duas das maiores empresas de Guimarães, já estão a reduzir a área da fiação e que parte dela está em vias de ser deslocalizada”, disse Adão Mendes, acrescentando que “a Riopele tinha, há meia dúzia de anos, cinco mil trabalhadores e, actualmente, tem 1 600”.

De resto, o sindicalista reafirma que “toda a gente teme que aconteça no pós-visita à China o que aconteceu nos meses que se seguiram às visitas que o senhor Presidente da República realizou a Marrocos e à Roménia, ou seja, a deslocalização para esses países de equipamentos e linhas de produção”.

E os números, no que toca ao desemprego e ao encerramento de empresas, são tudo menos animadores. Só no distrito de Braga, em 2004, fecharam as portas, a maioria por deslocalização ou falência, cerca de 500 empresas, e inscreveram-se nos centros de emprego à volta de 23 mil trabalhadores. Os sindicalistas dizem que “o País precisa com urgência de medidas e políticas que estanquem o desemprego e não que os empresários fechem as fábricas em Portugal para abrirem onde a mão-de-obra é muito mais barata”.

Por isso é que exigem que Jorge Sampaio explique, “preto no branco”, os benefícios desta viagem à China para a economia portuguesa.

TRABALHADORES PREOCUPADOS

Os trabalhadores da Riopele, em Vila Nova de Famalicão, não escondem a sua preocupação perante a eventualidade da empresa têxtil optar por investimentos na China, ainda para mais numa altura em que têm notado uma quebra de encomendas.

Apesar do bom relacionamento e da confiança na administração, a generalidade dos operários considera que a abertura aos chineses vai agravar um problema que afecta profundamente a região. “Eu nem vi as notícias, mas na fábrica não falámos de outra coisa. Obviamente, estamos todos muito preocupados, porque aquilo que temos visto à nossa volta, com muitas empresas a fechar a irem para o Leste e agora para Ásia, é muito complicado, desabafou José Carlos Silva, há 35 anos na unidade da Riopele em Pousada de Saramagos. Um colega de trabalho sublinhou ainda que “os chineses já estão a dominar o mercado todo daqui, com lojas por tudo quanto é canto… imagine-se o futuro”. A contrastar com o ambiente pessimista, Cristina Fernandes, há 38 anos a trabalhar na Riopele, garantiu confiar plenamente na administração da empresa. “Isto é uma autêntica família e os administradores tratam muito bem todos os trabalhadores”, afirmou, frisando que “não tem havido despedimentos e até foram contratados no último ano mais operários”.

Adão Mendes, 56 anos de idade, natural do concelho de Guimarães, funcionário da têxtil Riopele (com actividade suspensa), é sindicalista desde antes do 25 de Abril. Conhecido pela capacidade de luta, coordena há 16 anos a União dos Sindicatos de Braga e tem assento na Comissão Executiva da CGTP. Também se tornou nacionalmente conhecido como árbitro de futebol (esteve na primeira categoria de 1985 a 1994), mas foi nos ‘jogos’ do sindicalismo que mais se notabilizou. Rosto dos famosos protestos da Grundig, nos dolorosos anos 80, Adão Mendes está associado às maiores acções de luta realizadas no distrito de Braga, nomeadamente no Vale do Ave, e é um dos nomes marcantes da luta contra o trabalho infantil.

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