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Quase todos passam droga, alguns também roubam, os chefes não se arriscam a tanto e lucram na sombra. Compram armas sem registo e alugam, cedem ou vendem as caçadeiras e pistolas que aterrorizam dezenas de vítimas em assaltos à mão armada na Grande Lisboa. A PSP vigiou, filmou e escutou tudo durante sete meses e, através da 5ª Esquadra de Investigação Criminal, permite agora ao Ministério Público acusar 30 elementos do grupo de crimes que vão dos roubos ao tráfico de droga e armas.
Poucos trabalham, e quem o faz tira daí vantagem para o mundo do crime. É o caso de um segurança de uma discoteca da Costa de Caparica que se servia dos contactos profissionais para fornecer armas aos grupos de assaltantes violentos da Margem Sul; mas também de M. H. B., a cozinheira da cadeia do Linhó que abastecia dois presos com haxixe (ver texto na página ao lado).
O grupo dividia-se por zonas problemáticas de Lisboa e Loures, tais como a Quinta da Fonte ou Quinta das Mós, onde centenas de polícias armados entraram antes das 07h00 de 31 Março. Estava em marcha a operação ‘Azul Vivo’ da PSP, sob coordenação da Unidade Especial de Combate ao Crime Especialmente Violento do DIAP de Lisboa, dirigida pela procuradora Cândida Vilar.
Nas dezenas de escutas telefónicas e vigilâncias, os agentes controlaram com distância segura várias transacções de armas para assaltos. Deixaram sempre seguir os vendedores até à operação final, em Março – mas tiveram o cuidado de, sem prejuízo da investigação, levar a cabo várias operações cirúrgicas para evitar a utilização das armas em crimes violentos. Foi o caso de um negócio junto ao Aeroporto da Portela, em que depois a PSP seguiu e acabou por deter o receptador de um revólver de calibre .32.
Há elementos do grupo suspeitos de serem operacionais em assaltos a carrinhas de valores e estabelecimentos, mas, acima de tudo, foram apanhados ao telefone a negociar a venda, aluguer ou empréstimo de armas por centenas ou milhares de euros, consoante a modalidade. E, se preciso, também havia armas para 'despachar' alguém – como quando pensaram em vingar o homicídio de um amigo na Quinta do Mocho.
SEGURANÇA GUARDA ARMAS NO TRABALHO
Um dos acusados – segurança de profissão – guardava armas de fogo nos cacifos dos locais onde trabalhava, nomeadamente de um hospital em Lisboa e numa discoteca da Costa de Caparica.
TENIS E CHUTEIRAS SERVIAM DE CÓDIGO
De acordo com as intercepções telefónicas, os envolvidos no tráfico de armas referiam-se às mesmas utilizando códigos pré-definidos: 'ténis' e 'chuteiras' eram armas, 'jogo' significava assalto.
FAMÍLIA AJUDAVA A ESCONDER DROGA
No caso de um dos arguidos acusado de tráfico de droga, o produto estupefaciente era guardado em casa, na Quinta das Mós, com conhecimento, autorizaçãoe colaboração dos familiares.
NAMORADAS COLABORAM
No caso de um dos arguidos acusado de tráfico de droga, o produto estupefaciente era guardado em casa, na Quinta das Mós, com conhecimento, autorizaçãoe colaboração dos familiares.
QUEM INVESTIGA
MARIA JOSÉ MORGADO
A procuradora-geral adjunta dirige o Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa (DIAP), cuja Unidade Especial de Combate ao Crime Violento coordenou toda a investigação. Depois de casos como ‘Máfia da Noite’ e ‘No Name Boys’, volta a marcar pontos com o desmantelamento de mais uma rede criminosa.
DÁRIO PRATES
Subintendente é comandante da Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa, cujas equipas da 5.ª Esquadra de Investigação Criminal investigaram o grupo a fundo durante sete meses. Recolheram indícios para avançar com a operação ‘Azul Vivo’, um trabalho agora concluído com a acusação formal de 30 suspeitos.
PLANO PARA VINGAR HOMICÍDIO DE MARCO NA QUINTA DO MOCHO
O jovem assassinado a tiro de caçadeira em Agosto do ano passado na Quinta do Mocho, Loures, faria parte do grupo agora acusado. Os amigos preparavam-se para vingar a sua morte, mas a operação ‘Azul Vivo’ pôs fim a esse objectivo.
Na altura, Marco Paulo Pereira Vaz, de 19 anos, envolveu-se numa rixa com outro jovem daquele bairro com quem tinha problemas por pertencerem a grupos rivais. Sozinho e sem apoio, Marco telefonou para os amigos do bairro da Bogalheira, em Camarate, que pegaram em armas e passaram junto à festa onde Marco tinha sido agredido. Abriram fogo com as caçadeiras de canos serrados a partir do interior de dois carros em movimento, baleando sete pessoas, e puseram-se em fuga.
Marco e o irmão, Adilson, fugiram para casa, mas o gang rival foi atrás deles. Dez elementos tentaram arrombar a porta do prédio, mas não conseguiram e apedrejaram a janela da sala até partir. Rebentaram os estores e invadiram o rés-do-chão, partindo tudo o que apanharam à frente. Marco correu para a cozinha, mas foi morto à pedrada e com um tiro de caçadeira no abdómen.
O grupo fugiu do local do crime e dirigiu-se ao bairro da Bogalheira, onde a vítima viveu durante vários anos, na tentativa de encontrar os autores dos disparos feitos durante a festa – e que tinham atingido sete elementos do seu gang. Houve novo tiroteio, mas não se registaram mais vítimas.
Os amigos do jovem assassinado planearam desde então a vingança pelo homicídio. O CM sabe que nas escutas telefónicas feitas ao grupo foram interceptadas conversas entre os seus elementos nas quais era combinada uma retaliação pela morte de um dos seus membros.
O objectivo só não foi concretizado porque os líderes foram presos em Março deste ano. O homicida nunca foi encontrado.
COZINHEIRA DO LINHÓ ABASTECIA CADEIA DE DROGA E TELEMÓVEIS
Os tentáculos deste grupo estendiam-se até o Estabelecimento Prisional do Linhó, em Sintra. Através de uma cozinheira de 36 anos, que traficava para eles, faziam entrar naquela cadeia droga e telemóveis que a mulher entregava a dois reclusos ligados ao gang.
M. H. B., residente em São Domingos de Rana , Cascais, foi presa em Fevereiro – numa operação cirúrgica um mês antes da grande intervenção policial – quando a PSP a abordou à entrada do estabelecimento prisional. Naquele dia levava 263 gramas de haxixe na mala. Está em prisão preventiva desde então e será julgada também no âmbito deste processo.
A cozinheira, apurou o CM, é suspeita de já ter estado envolvida noutros esquemas semelhantes, mas para este grupo era o primeiro serviço. Ia abastecer dois reclusos, que, com droga para revender e telemóveis, eram considerados 'reis e senhores' dentro da cadeia.
CHEFE EM JIPE DE 100 MIL EUROS
Apesar de nunca ter tido profissão conhecida, um dos principais cabecilhas deste gang passeia-se no seu bairro, em Loures, ao volante de um jipe Hummer, que em Portugal custa mais de 100 mil euros – com dinheiro que a polícia acredita ser proveniente do tráfico de armas e de droga. É um veículo construído a pensar no Exército norte-americano, mas que, além de pessoas honestas, se tornou também uma imagem de marca de gangsters e traficantes um pouco por todo o Mundo. Em Portugal, se comprado novo, o preço ultrapassa sempre os 100 mil euros. Gasta entre dez a 19,5 litros de gasolina a cada 100 km e tem capacidade estrutural para receber blindagem.
SAIBA MAIS
TRÁFICO E POSSE
Os arguidos deste processo estão acusados por crimes de posseilegal e tráfico de armas, tráfico de droga e, num dos casos, até por branqueamento de capitais.
48
Número de arguidos que constavam da proposta de acusação redigida pela PSP e entregue ao Ministério Público.
30
Número de pessoas acusadas pela Unidade Especial do DIAP de Lisboa por diversos crimes. Para as outras 18 foram extraídas certidões para serem investigadas em inquéritos autónomos.
PALOP DOMINAM
O grupo acusado era composto por 13 elementos portugueses. Os outros 17 são oriundos dos PALOP: quatro angolanos, quatro cabo-verdianos, quatro guineenses, três são-tomensese dois moçambicanos.
NOTAS
QUINTA DAS MÓS: CÂMARA ALOJOU
Muitos dos envolvidos neste processo vivem em habitações sociais da Quinta das Mós cedidas pela Câmara de Loures. Tinham sido ali alojados poucos meses antes da operação ‘Azul Vivo’
FETAIS: PRESO DEVIDO AO FILHO
Numa das buscas domiciliárias de 31 de Março, em Fetais, a PSP procurava um suspeito. Maso pai também acabou preso por ter em suaposse três armas de alarme adaptadas
LOURES: 'CLUBE DOS SOLTEIROS'
O núcleo-duro do grupo reunia-se numa casa em Fetais, que era conhecida como o ‘Clubedos Solteiros’. Neste espaço foram apreendidasarmas brancas e de fogo e até uma espada
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