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Marco Paulo Pereira Vaz saiu de casa no sábado à noite na companhia de um dos irmãos mais novos, Adilson, de 17 anos. Caminharam pelas ruas da Quinta do Mocho, Sacavém, e foram ao Salão – uma loja abandonada onde a comunidade faz festas aos fins-e-semana – beber cerveja e dançar música africana. <br/><br/>
A festa, que contava com a presença de mais de cem pessoas, abrandou quando Marco se envolveu numa sessão de pancadaria, motivada por rixas antigas, com outro jovem que mora naquele bairro e com quem tem quezílias por pertencerem a grupos rivais.
Nervoso e sem apoio, Marco telefonou para uns amigos do Bairro da Bogalheira, em Camarate, onde viveu vários anos. Pediu ajuda. Os amigos de Marco, um grupo com cerca de oito elementos, passaram junto à festa e abriram fogo com as caçadeiras de canos serrados a partir do interior de dois carros em movimento. Balearam sete pessoas e fugiram. Entretanto, Marco e o irmão, Adilson, fugiram para casa.
Os ponteiros do relógio passavam pouco das 05h00. O gang que já tinha sofrido sete baixas correu em direcção a casa de Marco, o rés--do-chão esquerdo do lote dois da avenida Amílcar Cabral, para um ajuste de contas. Dez elementos tentaram arrombar a porta do prédio, que está esburacado por disparos antigos, mas não conseguiram. Mudaram de estratégia: apedrejaram a janela da sala até a partir. Rebentaram os estores e invadiram a casa, partindo tudo o que apanhavam à frente. O objectivo era abater o rival, que já estaria marcado. Marco correu para a cozinha, onde acabou morto à pedrada e com um tiro de caçadeira no abdómen.
A mãe, Benvinda Pereira, e seu pai – confinado a uma cadeira de rodas – foram trancados no quarto pelos jovens, com idades entre os 16 e os 20 anos. Adilson e outro irmão de 11 anos, ficaram fechados noutra divisão. 'Só ouvi gritos, estavam a matar o meu filho', conta a mãe da vítima. Ao ‘Portugal Diário’, Benvinda relatou que na manhã de sábado um dos seus filhos, de 11 anos, ouviu ameaças. 'O meu filho mais pequeno foi ao talho e viu um grupo de rapazes aqui do barro dizerem: hoje vamos matar o irmão desse puto.' Eram 11h00. A PJ procura, com o apoio da PSP, localizar os 18 suspeitos que estão a monte.
PERFIL: MARCO PEREIRA VAZ
Conhecido como um 'miúdo sossegado', Marco vivia em França com o pai e o irmão Adilson há cerca de um ano. Voltou há um mês e meio para renovar documentos
GANG FOI AO BAIRRO DA BOGALHEIRA
O grupo de dez indivíduos que matou Marco Vaz fugiu do local do crime em vários carros e dirigiram-se ao Bairro da Bogalheira, em Camarate – onde a vítima viveu vários anos – na tentativa de encontrarem os autores dos disparos feitos na festa e que atingiram sete elementos do seu gang.
Segundo Francisca Oliveira, testemunha do episódio violento e vizinha da vítima mortal, quando os jovens saíram de casa de Marco, ainda de armas em punho, gritaram: 'Isto não vai acabar por aqui.'
A PSP de Loures registou uma ocorrência pelas 06h20 de ontem. 'Houve um outro tiroteio que apenas provocou danos patrimoniais', diz fonte da PSP, escusando-se a confirmar se este tiroteio – cujas balas só acertaram no exterior de prédios e em alguns carros – está relacionado com o que sucedeu uma hora antes na Quinta do Mocho.
O CM sabe que o objectivo da ida do gang da Quinta do Mocho era encontrar os elementos da Bogalheira que foram ao seu bairro e balearam sete pessoas. No bairro, alguns moradores negaram a existência de um tiroteio; outros apenas quiseram passar a ideia de que era 'um bairro de respeito'.
UM DOS FERIDOS COM PROGNÓSTICO RESERVADO
Três dos sete jovens baleados na Quinta do Mocho, em Loures, estão internados nos hospitais de Santa Maria e Curry Cabral, em Lisboa, mas apenas dois feridos têm prognóstico reservado. Um dos jovens foi operado de urgência no Santa Maria devido aos ferimentos no abdómen e tem prognóstico reservado. Outro foi atingido no abdómen e está clinicamente 'estável' no Curry Cabral.
O terceiro internado, de 17 anos, está no Stª Maria. Foi atingido por estilhaços nas costas e pernas, mas não corre risco de vida. Os restantes feridos tiveram alta ontem.
PJ ESTÁ NO RASTO DOS ATIRADORES
Os inspectores da Secção de Homicídios da Judiciária de Lisboa chegaram à Quinta do Mocho ainda de madrugada, recolhendo testemunhos e fazendo uma inspecção completa ao local do crime. Reuniram várias informações que permitiram rapidamente identificar os suspeitos dentro dos dois gangs – autores dos disparos que fizeram um morto e sete feridos. Até à hora de fecho desta edição estavam a monte, escondidos fora dos bairros de origem, mas a PJ conta prendê-os a qualquer momento.
MAI GARANTE REFORÇO DE POLICIAMENTO
No dia 12 de Julho, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, anunciou em Loures que este concelho e o de Sintra vão ser os primeiros de Lisboa a receber contratos locais de segurança, que prevêem o reforço da segurança comunitária e o policiamento de proximidade. A partir de Outubro o protocolo assinado com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses começa a funcionar. Até lá, garantiu o ministro, o Corpo de Intervenção e o Grupo de Operações Especiais da PSP 'vão intervir sempre que for necessário'. O MAI recusou comentar os tiroteios de ontem.
QUINTA OCUPADA DE FORMA ILEGAL
O bairro da Quinta do Mocho nasceu às portas de Lisboa, em Sacavém, depois do 25 de Abril. Imigrantes africanos, sobretudo angolanos e santomenses, começaram a habitar ilegalmente os prédios inacabados, numa área de 260 mil metros quadrados. O terreno, que até 1975 era propriedade de uma empresa privada, foi expropriado pelo Estado depois da revolução. Os edifícios inacabados foram ocupados por imigrantes que, na sua maioria, viviam em estaleiros. Os prédios acabaram demolidos e os moradores realojados num bairro social ali construído. A criminalidade acentuou-se nos anos 90, com a segunda geração.
NOTAS
REFORÇO: POLÍCIA PRESENTE
Por ser um bairro problemático, a PSP mobilizou, em Julho, várias equipas da Unidade Especial para o local. Ontem à tarde uma equipa das Brigadas de Intervenção Rápida patrulhava o bairro
PROVAS: CARTUCHOS E SANGUE
A Polícia Judiciária recolheu ontem vestígios de sangue no local do crime e na loja onde começou o tiroteio. O sangue e os cartuchos encontrados serão analisados pela Polícia Científica
FAMÍLIA: SEM REALOJAMENTO
A mãe da vítima mortal quer agora sair do bairro, mas a Câmara Municipal de Loures descarta a possibilidade de realojamento, pois o incidente foi de ordem pública e não social
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