Vítima reconheceu na televisão o homem que o abordou e concluiu que foi a mesma pessoa que entrevistou Carlos Silvino.
O jovem aliciado para desmentir as acusações que fez no processo Casa Pia confirmou ontem ao seu advogado que a pessoa que o abordou este mês foi a mesma que entrevistou Carlos Silvino.
"Fui informado pelo meu cliente de que a pessoa que o contactou foi o senhor Carlos Tomás", revelou Miguel Matias ao CM, explicando que o ex-aluno da Casa Pia reconheceu o autor do aliciamento na televisão, na sequência das notícias sobre a entrevista em que ‘Bibi’ diz agora que são todos inocentes e que foi obrigado a mentir.
Na altura, o jovem ligou imediatamente ao advogado, assustado, para dizer que tinha sido abordado por um homem que se identificou como jornalista e que lhe pergun-tou se não queria desmentir o que tinha dito no processo. O próprio Carlos Tomás, que em 2004 escreveu um livro com a ex-mulher de Carlos Cruz, Marluce, confirma o encontro com ‘Nuno’, mas nega o aliciamento e o teor da conversa. "Não lhe fiz proposta nenhuma", disse ontem.
Questionado pelo CM sobre as medidas que vão ser tomadas, o advogado das vítimas explicou que ainda estão a ser analisadas, mas admitiu que poderá estar em causa um crime contra a realização da Justiça, o que poderá dar origem a uma participação criminal.
Recorde-se que ‘Nuno’ foi considerado credível pelo tribunal e o seu depoimento foi mesmo entendido pelos juízes como fundamental para sustentar as condenações, designadamente os dois crimes dados como provados contra Carlos Cruz na avenida das Forças Armadas. "Relatou com dificuldade os actos de abuso, foi um relato em que houve emoção, por vezes mesmo expressão de sofrimento", disse a juíza Ana Peres na leitura do acórdão, a 3 de Setembro, que condenou seis arguidos e absolveu Gertrudes Nunes, dona da casa de Elvas, devido a uma alteração legal.
"É ÓBVIO QUE FOI COMPRADO"
Bernardo Teixeira sente-se "enganado pela segunda vez" com Carlos Silvino, após a nova versão do principal arguido da Casa Pia. "Não tem noção do que causa às vítimas com isto", diz o jovem que deu a cara e escreveu um livro sobre o drama vivido na instituição. Confrontado com as novas declarações do ex-motorista da Casa Pia, Bernardo não tem dúvidas em afirmar: " É óbvio que foi comprado, ele não ganha nada com isto." Quando questionado sobre por quem terá sido comprado ‘Bibi’, diz apenas: "Ele começou o testemunho a dizer que o Carlos Cruz é inocente, nem disse ‘somos todos inocentes’. Parece que o senhor Carlos Cruz não lhe sai da cabeça."
DOCUMENTOS DESMENTEM 'BIBI'
Na entrevista em que diz que são todos inocentes e que foi obrigado a mentir, Carlos Silvino justifica as acusações aos outros arguidos e a confissão devido ao "copo de água" que lhe davam na PJ. Certo é que de todas as vezes que foi interrogado pelos inspectores o ex-motorista da Casa Pia não confessou qualquer crime e o máximo que disse – a 7 de Julho e 26 de Agosto de 2003 – foi admitir ter dado boleia a jovens, mas sublinhando que tal aconteceu sempre a pedido dos alunos e no âmbito de deslocações suas relacionadas com outros assuntos: jogos de futebol ou compras. ‘Bibi’ chega a mencionar os nomes de alguns arguidos, mas sempre na perspectiva de ter ouvido falar ou em situações não comprometedoras, como quando diz que via Ferreira Diniz a assistir a jogos de futebol onde participava o seu afilhado, o também ex-casapiano Ricardo Torres.
Os documentos que constam dos autos desmentem também a nova versão de ‘Bibi’ sobre os reconhecimentos efectuados às casas onde, segundo a Acusação, ocorreram os crimes, designadamente à moradia de Elvas. Ao contrário do que afirma, a diligência foi acompanhada pelo seu advogado José Maria Martins, como está registado no auto de reconhecimento de local a que o CM teve acesso.
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