A ligação de Dias Loureiro a Abdul El Assir, empresário libanês amigo pessoal do ex-conselheiro de Estado, foi-lhe fatal. Sob suspeita está a verdadeira extensão e forma (‘luvas’, comissões, mais-valias) que os dois terão recebido na venda da participação da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) na Redal, empresa de águas de Marrocos, e na operação de compra e venda da Biometrics Imagineering, firma de Porto Rico que deu um prejuízo de 34,2 milhões de euros ao Grupo SLN. Os dois negócios, ambos com a participação do intermediário libanês, estão na base da constituição de Dias Loureiro como arguido no caso BPN. Como os dois negócios envolveram verbas de 57 milhões de dólares, suspeita-se que, apesar dos prejuízos da SLN, tenha havido lucros pessoais.<br/>
A relação entre os dois negócios foi confirmada na comissão de inquérito ao BPN, quando Loureiro revelou que 'El Assir tinha um contrato com a SLN de prestação de serviços em todo este negócio [da Redal]' e Oliveira e Costa deixou claro que foi pressionado para aceitar comprar a Biometrics. Com estas revelações, os investigadores do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) avaliam se, no âmbito da venda da Redal aos franceses da Vivendi e da compra e venda da Biometrics, foram pagas comissões ilegais.
Dias Loureiro foi ouvido no DCIAP durante todo o dia de ontem e saiu com termo de identidade e residência. À saída, disse: 'Fui ouvido como arguido relativamente a dois negócios: o da Biometrics e Redal de Marrocos. Pude esclarecer o que quis esclarecer, fui ouvido de manhã e à tarde, redigimos as minhas declarações.' E rematou: 'Vou lutar para dizer que não cometi nenhuma ilegalidade. Pude dizer ao senhor magistrado que só hoje é que percebi alguns contornos, sobretudo do negócio da Biometrics, que me passaram completamente ao lado. Fui confrontado com documentos que nunca tinha conhecido.' E concluiu: 'Há agora uma grande luta pela frente.'
SAIBA MAIS
ANOS-CHAVE
O negócio de Porto Rico foi celebrado no mesmo dia, no final do ano de 2001. A Redal foi vendida em 2002.
34,2
milhões de euros foi o prejuízo provocado pela compra da Biometrics, de Porto Rico, no Grupo BPN/SLN.
26,1
milhões de dólares foi o valor da venda da participação da SLN na Redal aos franceses da Vivendi.
OUVIDO O DIA TODO
Dias Loureiro foi ouvido no gabinete do procurador Rosário Teixeira: começou às 10h00, com intervalo para almoço e acabou às 20h00.
SAIU DE JAGUAR COM MOTORISTA
O ex-conselheiro de Estado do Presidente da República tinha à sua espera o motorista num Jaguar azul, novinho em folha, de Novembro de 2008. Ao que o CM apurou, a viatura é propriedade da empresa DL Gestão e Consultoria SA, cujos sócios são Dias Loureiro e as suas duas filhas.
EL ASSIR APRESENTOU BILL CLINTON
Dias Loureiro conheceu El Assir em 2001, 'a propósito de um serviço em que precisávamos dele em Marrocos', segundo disse no Parlamento.
O empresário libanês, apontado como negociante de armas, apresentou a Dias Loureiro Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, e o rei de Espanha. Através de offshores, El Assir obteve créditos do BPN, a quem devia 42,9 milhões de euros, segundo dados do Banco de Portugal, de 2004.
Em 2006, Espanha pediu a Portugal dados sobre as contas de empresas de El Assir no BPN, mas, devido ao sigilo bancário, isso foi negado. Espanha emitiu um mandado de captura para El Assir.
OLIVEIRA E COSTA FOI DECISIVO
A intervenção de Oliveira e Costa na comissão parlamentar de inquérito ao BPN, a 5 de Maio deste ano, foi decisiva para se perceber as ligações de Dias Loureiro e El Assir com a alienação da Redal, em Marrocos, e a compra e venda da Biometrics, em Porto Rico. O ex-líder do BPN revelou nessa audição, realizada a seu pedido, que a SLN alienou a empresa de águas de Rabat porque aceitou comprar a Biometrics.
Na manhã seguinte à reunião dos sócios da Biometrics em Lisboa, no início de Junho de 2002, Oliveira e Costa teve uma conversa esclarecedora com Jorge Vieira Jordão, ex-técnico da SLN que foi sempre contra a compra da Biometrics: 'Dr. Jordão, já sei que a reunião de ontem foi muito incómoda para si e se as explicações técnicas aliviaram algumas das suas dúvidas não as excluíram por completo, por isso manteve firmeza. Eu também não estou confortado com este negócio, mas ontem à noite o Dr. Dias Loureiro telefonou-me a dizer que o El Assir tinha assumido uma posição radical: ou a compra da Biometrics ia para a frente ou desligava-se do apoio que estava a dar ao Grupo para vender a Redal.'.
Em sua defesa, o ex-líder do BPN rematou: 'De facto, não me opus ao negócio [...], mas julgo não ser difícil de se reconhecer, por quem estiver de boa-fé, que o fiz coagido pelas circunstâncias.'
CARLOS ALEXANDRE PODERÁ OUVIR EX-CONSELHEIRO
Oliveira e Costa deverá ser ouvido como testemunha neste processo em que Dias Loureiro foi ontem constituído arguido.
O depoimento que fez no Parlamento, na comissão parlamentar de inquérito às falhas da supervisão do Banco de Portugal no caso BPN, foi decisivo para envolver Dias Loureiro nas malhas da lei. Na sequência disso, pode acontecer que Dias Loureiro seja inquirido uma segunda vez e não está excluído que possa ser presente ao juiz de instrução Carlos Alexandre.
O ex-conselheiro de Estado só se demitiu do órgão de consulta do Presidente da República depois de Oliveira e Costa ter revelado as ligações de dois negócios que seriam do conhecimento de Dias Loureiro.
NOTAS
DCIAP: CÂNDIDA ALMEIDA
Cândida Almeida , directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, depois de receber o despacho do PGR disse que Dias Loureiro seria ouvido rapidamente.
ARGUIDO: OLIVEIRA E COSTA
O ex-presidente do BPN foi constituído arguido em Novembro de 2008 e está em prisão preventiva desde essa altura. Já tentou alterar a medida de coacção, pedido que foi recusado.
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