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“Não apanho mais, vou-me atirar ao rio”

Leandro tinha 12 anos e foi agredido na escola. Família foi hospitalizada em estado de choque. <br/>

03 de março de 2010 às 00:30

Leandro Filipe, de 12 anos, frequentava o 6º ano na Escola EB 2/3 Luciano Cordeiro, em Mirandela. Vítima de bullying, era frequentemente ameaçado e agredido por colegas mais velhos. Ontem, Leandro não aguentou mais. Saiu a chorar do estabelecimento de ensino, pelas 15h00, e nem o irmão gémeo nem os três primos, sensivelmente da mesma idade, o conseguiram travar. 'Não apanho mais, vou-me atirar ao rio', disse a criança, perante a incapacidade dos familiares que não o conseguiram demover.

Márcio, gémeo de Leandro, foi internado no Hospital de Mirandela em choque. Viu o irmão despir-se na margem e ainda o tentou agarrar. Não teve força, Leandro cumpriu a ameaça. Ao final da noite de ontem, o corpo não tinha ainda sido encontrado.

Também os pais de Leandro e a irmã de nove anos tiveram de receber tratamento. Estavam em estado de choque, não aceitavam o trágico desfecho. 'Há um ano, o meu menino esteve internado depois de ter sido agredido pelos colegas. Os pais apresentaram queixa, mas ninguém fez nada porque os outros eram menores', contou ao CM Zélia Morais, avó de Leandro, desfeita em lágrimas. Também Tânia Baptista, de 11 anos, lembra que viu várias vezes Leandro a chorar. 'Queixava-se que lhe batiam. Andava triste e não dizia porquê. Só que lhe batiam', conta a amiga, que não consegue encontrar explicação para o facto de o menino ser rejeitado pelos colegas.

Contactado pelo CM, o presidente do Conselho Executivo não quis prestar declarações.

BUSCAS SERÃO HOJE RETOMADAS NO RIO TUA

As buscas para resgatar o corpo de Leandro começaram às 15h30, minutos depois do seu desaparecimento. No local estiveram as corporações de bombeiros de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Carrazeda de Ansiães. A equipa cinotécnica da GNR (composta por militares e cães) e elementos da PSP também estiveram no local. Nada encontraram.

Os bombeiros avançaram para as águas do Tua, com botes de resgate, mas os mergulhadores também não detectaram qualquer sinal da criança. A área de procura foi restringida a um quilómetro a jusante do rio, mas hoje será alargada. As buscas foram suspensas às 18h00 devido à forte corrente.

ESCOLA ACUSADA DE IGNORAR AVISOS

Zélia Morais, avó do menino, não perdoa a escola por ter ignorado a violência de que o neto era alvo. Em lágrimas, disse ao CM que as agressões eram constantes e que a última, que motivou o suicídio, aconteceu no estabelecimento de ensino. A tia também não percebia o que levara Leandro a desistir. 'A minha filha disse-me que ele saiu da escola a chorar. Já sabia que era agredido na escola, mas não sabia que pudesse chegar a este ponto'.

SAIBA MAIS

HISTÓRIAS DRAMÁTICAS

O registo dos casos de bullying começa a 8 de Janeiro de 1991, numa escola de Dallas, EUA, onde, diante de 30 colegas e da professora de inglês, Jeremy Wade Del-ly, de 15 anos, se matou por causa das perseguições que sofria.

7% das crianças espanholas (9- 16 anos), sofre de bullying e a situação é ainda pior na França (13%) e no Reino Unido (23%).

LEI TUTELAR EDUCATIVA

A violência praticada por menores de 16 anos é castigada pela Lei Tutelar Educativa que prevê desde admoestação até internamento em centro educativo.

CONSELHOS DOS PAIS

Converse com o seu filho e ajude-o a encarar bem as brincadeiras normais na escola.

Elogie as capacidades e reforce a auto-estima do seu filho.

Inscreva o seu filho em actividades desportivas ou culturais.

Esteja alerta para detectar faltas à escola, mudanças repentinas de humor, tristeza ou nervosismo.

Comunique de forma sistemática com os professores e a escola.

'OS PAIS DEVEM AVISAR A ESCOLA E OS PROFESSORES': João Grancho Presidente da Associação nacional de Professores (ANP) sobre o fenómeno do bullying

– O jovem de 12 anos que se matou em Mirandela é o primeiro caso em Portugal de uma vítima de bullying que se suicida?

João Grancho – Esta situação ainda não está muito clara, pode estar associada a outros problemas. A confirmar-se, será o primeiro caso.

– A linha de apoio a vítimas de bullying, gerida pela ANP, recebeu algum contacto desta zona?

– Não. Em 2009 só foi reportado um caso em que houve ameaça de suicídio, mas não em Mirandela.

– Que tendência nota nos contactos com a linha 808 968 888?

– Tem havido uma grande redução, penso que em razão de uma intervenção mais atenta das escolas e da prioridade dada à investigação da violência escolar.

– O que devem fazer os pais para prevenir o bullying?

– Estar atentos a sintomas como tristeza ou alteração do rendimento escolar e fazer o acompanhamento sistemático dos filhos.

– E o que fazer quando se descobre que um filho é vítima?

– Alertar órgãos de gestão da escola e professores. A escola deve intervir junto dos agressores. E as vítimas devem partilhar o problema com um adulto em quem confiem.

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