Cerca de 200 mil portugueses, de todas as idades, tomam diariamente medicamentos anti-inflamatórios para combater as dores crónicas e as inflamações provocadas por doenças reumáticas. Em doses elevadas, este tratamento prolongado aumenta para o dobro o risco de ataque cardíaco.
Este alerta resulta de uma investigação feita aos anti-inflamatórios com as substâncias activas ibuprofeno e diclofenac. Os resultados da pesquisa foram ontem divulgados por uma equipa de cientistas da Universidade de Oxford, em Inglaterra, na conceituada publicação ‘British Medical Journal’.
Dentro desta categoria terapêutica encontram-se alguns dos medicamentos mais vendidos em Portugal, incluindo para o tratamento de crianças, com os nomes Brufen e Arfen (substância activa o Ibuprofeno) e Diclofenac Bexal (com o princípio activo Diclofenac).
Os médicos receitam estes remédios para o tratamento de diversas doenças reumáticas, espondilite anquilosante, osteoartrose e outras.
Segundo os autores do estudo, 800 miligramas de ibuprofeno três vezes por dia aumentam o risco de enfarte cardíaco em 51 por cento, enquanto a toma de 75 miligramas de diclofenac duas vezes por dia aumenta a probabilidade de sofrer um ataque de coração em 63 por cento.
Segundo o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed), “na sequência de diversos estudos por vezes com resultados contraditórios”, passou a ser obrigatório incluir nos folhetos informativos a referência ao “aumento do risco cardiovascular associado ao uso destes fármacos”.
O laboratório Abbott, que produz o Brufen, diz ao CM que está atento: “Fazemos uma monitorização contínua da informação disponível.” Sabe, por isso, que “estudos recentes descreveram uma diversidade de possíveis efeitos secundários” nos doentes que tomam os anti-inflamatórios não-esteróides por longos períodos.
O Laboratório Medinfar, que comercializa o Arfen, lembra que “a Agência Europeia de Medicamentos obriga todos os anti-inflamatórios, e não apenas o Ibuprofeno, a conter informação nos folhetos referente à segurança cardiovascular”. Helena Paradela, da Sandoz Farmacêutica, fabricante do Diclofenac, diz que “não recebemos ordem para retirá-los dos mercado” e que os folhetos contêm informação sobre a possível ocorrência de problemas cardíacos”.
'É PRECISO AVALIAR RISCO E BENEFÍCIO'
Analisando o risco de ataque cardíaco que correm os doentes reumáticos, o cardiologista Manuel Carrageta defende que os anti-inflamatórios devem ser tomados com “muita parcimónia” e adverte: “Estes medicamentos provocam a coagulação do sangue, que causa os acidentes vasculares e cardíacos. Mas não só, como são muito tóxicos causam também problemas no estômago, nos rins e no fígado.” O especialista aconselha os doentes a tomarem doses pequenas e durante poucos dias.
No entanto, para atenuar as grandes dores que os reumáticos sentem, estes precisam tomar todos os dias doses fortes de anti-inflamatórios não-esteróides – como o Ibuprofeno e o Diclofenac. Se o não fizerem, além do sofrimento causado pela dor crónica, ficam incapacitados e podem morrer. Este diagnóstico foi traçado ao CM pelo reumatologista Aroso Dias, antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia. “Os doentes precisam de tomar toda a vida doses elevadas de medicamentos, mas o risco [de enfarte] é controlado.” Este especialista diz não acreditar que estes remédios, dos mais vendidos em Portugal e em todo o mundo, sejam retirados do mercado: “Todos os anti-inflamatórios têm efeitos adversos. É preciso avaliar o risco-benefício.”
VIOXX
O anti-inflamatório Vioxx terá causado mais de 27 mil ataques cardíacos ou mortes súbitas de 1999 a Setembro de 2004. Foi retirado do mercado e o fabricante (Merck) foi condenado a pagar indemnizações.
INFARMED
O Infarmed esclarece que “não foram notificados casos de enfarte” pelo uso destes medicamentos em Portugal. Os problemas associados ao tratamento prolongado constam nos folhetos das embalagens.
NO MERCADO
Em Portugal está autorizada a venda de 97 remédios de Ibuprofeno. Destes, 15 são genéricos. De Diclofenac há 85 autorizados, 21 genéricos. Há em comprimido, xarope e injecção.
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