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Viveu como escravo durante 25 anos

Rui Machado, de 30 anos, não conhece o gosto de simples prazeres da vida como uma peça de fruta ou uma fatia de pão. Não aprendeu a ler nem a escrever e nem sequer sabe o que é dinheiro. Carrega no corpo as marcas da pancada que apanhou e dos maus tratos que sofreu nos últimos 25 anos – como escravo numa exploração agrícola de um primo e padrinho.

10 de fevereiro de 2005 às 13:00

É filho de uma mulher deficiente mental engravidada por um homem que ela nunca soube quem foi. Rui era uma criança normal e viveu com a mãe e o avô até aos cinco anos – até que ficou entregue aos cuidados do primo e padrinho, Casimirio Pereira, na Casa de Mascate, uma quinta em Coucieiro, Vila Verde, nos arredores de Braga.

O Ministério Público está a investigar este caso. Rui esteve durante 25 anos privado da liberdade e de contactos com o mundo. Tem um vocabulário reduzido e não consegue formar frases com as palavras.

“Fazia todo os trabalhos, na vacaria, no campo. Dinheiro? Nunca tive… Batiam muito”, disse ele, ontem, aos repórteres do Correio da Manhã.

Exibe por todo o corpo as marcas de anos a fio de pancada. Durante os 25 anos de autêntica escravatura na Casa de Mascate, não se lembra de alguma vez ter ido ao médico. As feridas – como gretas profundas provocadas pelo manuseamento de ácidos e lixívias em trabalhos de limpeza – eram tratadas, algumas vezes, por um farmacêutico que se deslocava à exploração agrícola.

Rui consegue explicar que dormia num armazém – e ali comia, sentado na enxerga, com o prato nos joelhos, sempre com a porta trancada por fora. Para lá dos altos muros da Casa de Mascate apenas saía à noite, uma vez por outra, sem os “patrões” darem por isso. A fome dava-lhe coragem para se aventurar às escondidas pelas redondezas: pedia comida pela vizinhança e voltava para o seu lugar no armazém.

Rui Machado garante que foi chicoteado várias vezes. Sempre que os donos da quinta descobriam restos de comida de fora marcavam-lhe o corpo a chicote. Como de uma vez em que que lhe encontraram dois pães frescos e parte de um pacote de bolachas escondidos num saco: chicotearam-no sem dó nem piedade para ele aprender a não sair para matar fome. Nem fruta lhe davam – só da podre. Rui nunca viu televisão. A mãe, solteira e deficiente mental, vivia na mesma quinta. A vida de Rui deu uma volta quando ela foi internada num lar, na Póvoa de Lanhoso. O menino ainda frequentou a escola durante uns meses, mas tinha grande dificuldade em aprender. Vizinhos da quinta garantem que “ele não aprendia porque trabalhava duro e adormecia na escola”.

O sofrimento de Rui Manuel terminou no último mês de Novembro. A denúncia de um vizinho na GNR de Vila Verde levou as autoridades a agir. O ‘escravo’ foi libertado pelo comandante do posto, três guardas e duas assistentes sociais.

Segundo os exames médicos então efectuados, Rui foi vítima de agressões violentas e obrigado a esforços excessivos: apresentava pernas arqueadas, músculos deformados. “Tinha feridas profundas e várias cicatrizes que indiciam torturas físicas. Notava-se atraso mental e dificuldade nas palavras, provavelmente por falta de estímulo mental”, revelou ao CM fonte hospitalar.

RECUPERA

Rui Manuel está agora internado numa casa particular de assistência social no concelho de Vila Verde. Já engordou e endireitou a coluna e as pernas. Diz que não quer sair dali.

TAREIAS

Na Casa de Mascate vive Casimiro Pereira, assim como a mulher, uma filha e uma neta. Lá, também trabalha o filho de Casimiro. Rui diz que todos lhe batiam, menos um: João, o ex-genro de Casimiro, que um dia largou e foi-se embora. Hoje, é emigrante no Luxemburgo.

ROUPA

Quando a GNR e as assistentes sociais, numa manhã de Novembro, bateram à porta da Casa de Mascate, Rui estava a lavar tapetes. Foi obrigado a mudar de roupa à pressa. Mesmo assim, antes de sair da quinta, as assistentes sociais exigiram que lhe vestissem roupa mais asseada – e até essa teve que ser inutilizada. O cinto estava sujo com bosta de vaca. Também nunca teve um par de meias: eram sempre descasadas e até rotas.

PENSÃO

Rui Manuel Machado, nascido a 13 de outubro de 1974 e com B.I. caducado “há muitos anos”, está a receber pensão social, por deficiência, desde a década de 90. Mas ele nem sabe o que isso é e nunca viu o dinheiro.

DESVIADO

Sempre que iam trabalhadores de fora para a quinta, o Rui Manuel era mantido noutra zona da propriedade. Pouca gente, a não ser os vizinhos a quem ele pedia comida, tinha conhecimento da sua triste existência.

FERIDAS

O tratamento das feridas mais graves de Rui terão sido feitos por um farmacêutico de Vila Verde, referenciado pela vítima como ‘Chico’, que terá já confirmado às autoridades ter-se deparado com ferimentos graves.

RELÓGIOS

O Rui sempre desejou ter relógios. Já recebeu vários, desde que saiu da quinta de Coucieiro. São ofertas de pessoas sensibilizadas com o caso. Agora, já manifestou o desejo de ter um rádio.

“QUE O RAPAZ NÃO REGRESSE ÀQUELA CASA”

Na freguesia de Coucieiro, os populares mostram-se sobretudo satisfeitos por Rui Manuel ter finalmente saído da Casa de Mascate, levantando sempre a suspeita de que, “provavelmente, lá vão outra vez dar a volta a isto e nada vai acontecer”. Os moradores não escondem que o caso é “inacreditável” e “uma vergonha para todos”. Mas garantem que foram feitas muitas queixas por causa do assunto, que estranhamente acabavam “abafadas”.

O CM encontrou também moradores que referiram “nada ter a dizer contra a família de Casimiro”, embora prefiram não se meter no assunto. Garantem que nunca viram o rapaz: “O que se passa dentro dos muros, a gente não vê e não sabe”.

Sameiro Freitas diz que assumir as denúncias “é uma questão de solidariedade, para ficarmos de bem com a nossa consciência de católicos”. Mas sublinha que apenas pode falar do que viu. “A verdade é que o corpo dele diz tudo, mas eu nunca vi ninguém bater-lhe”, esclareceu. Diz, porém, que “ele andava sempre muito maltratado”. Contou ainda: “Uma vez, bateu-me à porta e pediu-me para lhe dar trabalho, que só queria poder viver com a mãe”.

“Desde que saiu daqui, nunca mais ouvimos o barulho da limpeza das fossas, que era o que ele fazia, todos os dias, aí pelas seis da manhã”, diz Amélia Azevedo, que não tem a mais pequena dúvida: “O rapaz era um autêntico escravo”.

Esta vizinha da Casa de Mascate garante que chegou a assistir a agressões.

“Uma vez, eu e o meu filho estávamos em cima da placa da garagem, e o filho do dono da quinta estava a bater-lhe com uma mangueira. Gritei e falei muito mal. Depois, meteram-no no armazém e puseram os tractores a trabalhar”, revelou, secundada pelas irmãs Rosário e Lurdes.

“Ele pedia muitas vezes de comer, dávamos-lhe um bocado de pão com queijo ou marmelada e ele devorava tudo”, confirmaram as vizinhas. Mas tinham de “dar tudo às escondidas, se não ele levava mais porrada”.

A vizinha Sameiro Martins recebeu também visitas do Rui, sempre à noite. Recorda-se que o Rui, uma vez, se queixou de ter levado uma valente coça”.

O PADRINHO NEGA MAUS TRATOS

O padrinho de Rui, Casimiro Pereira, nega que o afilhado tenha sido vítima de maus tratos ou obrigado a trabalhos forçados na sua casa, ou na exploração agrícola. Garante que “o rapaz dormia no quarto dele” e acrescenta que o trata como um filho. “Não fazia trabalhos nenhuns. Andava connosco, quando íamos para o campo, mas não fazia quase nada”, disse Casimiro Pereira ao CM. Sobre as cicatrizes e aos ferimentos no corpo de Rui, justifica as marcas com quedas na infância. “Depois do avô falecer, andava por aí vadio. Parecia um cão. Ele andava miserável e abandonado. Dormia debaixo das mesas. Tomei conta dele e da mãe. Andei à procura de casas ou instituições para ficarem com eles, mas não foi possível. Através do padre da freguesia, consegui internar a mãe na Póvoa de Lanhoso”, afirma Casimiro. “Há uns anos”, diz, foi alvo de “denúncias falsas à Segurança Social” e que não deram em nada. “Tomara que tivessem ficado com ele…”, desabafa.

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