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Ataque às torres gémeas do World Trade Center a 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque

25 anos depois, como se ensina o 11 de Setembro a quem nunca o viveu?

Professores, investigadores e Ministério da Educação explicam como se enquadra o ataque terrorista no ensino português.

Professores, investigadores e Ministério da Educação explicam como se enquadra o ataque terrorista no ensino português.

10 de setembro de 2026 às 21:41

Que espaço deve ocupar o 11 de Setembro nos livros de História? Passaram 25 anos da tragédia que mudou o mundo e o Correio da Manhã foi saber o que pensam os professores, investigadores e o Ministério da Educação sobre como se ensina esta matéria nas escolas portuguesas.

Manuela Almeida Gomes é professora há 40 anos. Já lecionou em diferentes pontos do País. Agora, é na Escola Secundária Alberto Sampaio, em Braga, onde transmite o saber às gerações mais novas. Para a professora, lecionar este tema é “obrigatório”. Explica que o acontecimento está enquadrado no programa de História do 12.º ano e nas respetivas Aprendizagens Essenciais.

Mas o que são as Aprendizagens Essenciais? São documentos de orientação curricular que definem o núcleo fundamental de capacidades, conhecimentos e atitudes que todos os alunos em Portugal devem desenvolver em cada disciplina.

Na Escola Secundária de São João da Talha, em Loures, Tiago Leitão, professor há cinco anos, leciona ao 9.º ano e descreve uma realidade diferente de Manuela. “Nas Aprendizagens Essenciais não está discriminado que se deve falar do 11 de Setembro”, explica. “É um evento que se mistura entre várias opções que o ministério nos dá, como as migrações, a insegurança e o antiterrorismo”. 

De acordo com a professora Manuela Gomes, os antigos programas das disciplinas foram substituídos, enquanto referencial curricular, pelas chamadas Aprendizagens Essenciais. Na sua perspetiva, estas são mais "vagas do que os programas que existiam antes”. Permitem uma “grande autonomia” a professores e alunos, possibilitando diferentes abordagens ao tema. Ainda assim, muitos professores continuam a recorrer aos antigos programas como uma referência, apesar de saberem que a tutela disponibiliza atualmente as Aprendizagens Essenciais.

É neste terreno incerto que o 11 de Setembro parece ganhar, ou perder, espaço, consoante o ano de escolaridade e o professor. 

Se para Manuela Gomes o obstáculo não é a obrigatoriedade, mas sim a distância histórica, para Tiago Leitão o problema chama-se “falta de tempo”. "O 9.º ano tem um currículo de história muito denso", destaca. Com dois tempos práticos por semana, o programa obriga a percorrer a 1.ª e 2.ª Guerra Mundial, a extensão dos fascismos, as correntes artísticas e arquitetónicas dos anos 20, "para não falar da Guerra Fria e das mudanças sociais e económicas que aconteceram após a Segunda Guerra Mundial". 

É impossível um professor de História conseguir cumprir o programa e, por isso, o tema acaba por ficar por lecionar”
Tiago Leitão

Professor de História

O resultado, diz, é quase inevitável. "Para mim, eu acho que é impossível um professor de História conseguir cumprir o programa e, por isso, o tema acaba por ficar por lecionar”. A isto somam-se fatores conjunturais, como as greves, que este ano afetaram ainda mais a conclusão do programa e a abordagem a temas como este.

Manuela Gomes não identifica o mesmo problema. O tema já está consolidado no manual do 12.º ano, na parte final do programa, e a disciplina, sublinha, está em "atualização constante", o que obriga os professores a recorrerem a diferentes recursos e a manuais que se renovam ciclicamente, em intervalos de seis anos. 

Como se ensina o 11 de Setembro?

A dificuldade de ensinar um acontecimento que ainda não ganhou o distanciamento que o ensino da História exige é algo que os docentes têm em comum. 

"Quando nós estamos muito distantes daquilo que estamos a estudar, temos um conjunto de dificuldades. Quando estamos a estudar aquilo que é próximo de nós, que vivenciamos, temos outro conjunto de dificuldades: estamos demasiado próximos", diz Manuela Gomes, para quem a História, "pelo facto de ser ciência", é "extremamente complexa" e qualquer simplificação ou generalização "equivale, na maior parte dos casos, a erros".

Tiago Leitão chega à mesma conclusão: "É preciso também ter atenção que não há muito afastamento histórico sobre esses acontecimentos. E nós, na História, requeremos muitas vezes um afastamento histórico para estudar, porque senão estamos a dar a nossa opinião e não é tão imparcial como deveria ser."

Nos dois testemunhos, os manuais escolares surgem como um indicador concreto, quase mensurável, do espaço que o 11 de Setembro ocupa - ou não - no ensino da História.

Manuela Gomes refere que a disciplina de História corresponde, em regra, a nove livros nas diferentes editoras, dado que cada ano do ensino secundário é composto por três domínios distintos. O 11 de Setembro surge no terceiro manual, na terceira parte do 12.º ano.

Tiago Leitão faz um exercício semelhante com "resultados mais preocupantes". A sua escola adotou o manual “Somos História”, da Areal, onde o tema surge nas páginas 228 e 229, já no fim do livro. Curioso, o professor consultou outros dois manuais, de outra editora, e não encontrou uma única referência ao 11 de Setembro em nenhum deles. “Eu sinto que quando estive a ver os manuais, os três manuais que tenho aqui em casa, apenas num deles havia referência ao 11 de Setembro”. 

Manual
Manual "Somos História" onde o tema surge nas páginas 228 e 229 FOTO: Direitos Reservados

Na sala de Manuela Gomes, o método de ensino passa pelo cruzamento sistemático das fontes de diferentes naturezas, como "filmes, documentários, reportagens, imagens, cartazes, imprensa” - e por um exercício deliberado de contraste de perspetivas. Nesse processo, defende que é fundamental que os alunos assumam uma “perspetiva ativa” perante as fontes e as explicações, em vez de meros recetores de informação transmitida pelo professor. 

Tiago Leitão aposta também no uso de diferentes fontes, por vezes noutro registo, mais visual e mais performativo. Recorre ao vídeo dos aviões a embater nas Torres Gémeas, em Nova Iorque, porque acredita que o impacto visual gera uma reação mais forte nos alunos, ao ponto de estes chegarem a questionar se são geradas por Inteligência Artificial. Depois do impacto inicial,  segue-se a contextualização.  

Para o professor, importa abordar a questão da guerra do Afeganistão, os “posicionamentos táticos” da época, e um debate sempre com fontes históricas à mistura. 

“Em História, nenhum acontecimento é tratado como uma efeméride”
Manuela Almeida Gomes

Professora de História

Nenhum dos dois professores trata o 11 de Setembro como um episódio fechado no passado. Para Manuela Gomes, o acontecimento é indissociável da “história geopolítica complicada” que se vive hoje no Médio Oriente, e recusa a ideia de datas isoladas: “Em História, nenhum acontecimento é tratado como uma efeméride”. O terrorismo, sublinha, deve ser enquadrado “no quadro das questões transnacionais e da globalização”, e o próprio 11 de Setembro é, para si, sobretudo uma lição sobre a fragilidade das grandes potências. “Todos os impérios caem. Não se consegue dominar tudo ao mesmo tempo e em todos os espaços”, diz. 

Já o professor Tiago Leitão, interliga o acontecimento à imagem dos Estados Unidos como autoproclamada “polícia do mundo”, destacando a posição dominante que o país assumiu no panorama internacional. Uma posição que, diz, “o Irão vem demonstrar”. E questiona também o peso relativo que o 11 de Setembro ocupará, no futuro, na memória coletiva, ao lado de outros marcos como as eleições de Donald Trump, de Barack Obama, nos EUA, o Brexit no Reino Unido ou a crise financeira de 2008. [Esta crise teve origem nos EUA devido ao colapso do mercado de hipotecas de alto risco. Os bancos fizeram muitos empréstimos para comprar casas a pessoas que tinham dificuldades em pagá-los. Quando muitas dessas pessoas deixaram de pagar, os bancos começaram a perder muito dinheiro e alguns faliram. A crise acabou por se espalhar para outros países e afetar empresas, trabalhadores e famílias em todo o mundo].

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O tema do 11 de Setembro foi abordado no exame nacional de História A pelo menos sete vezes desde 2001 até ao presente ano

Memória vs. História: a perceção dos alunos sobre o 11 de setembro

Do lado dos alunos, os dois professores descrevem uma perceção semelhante. A distância cresce mas, dizem ambos, não significa necessariamente desinteresse. “É uma data do senso comum, os alunos já estão familiarizados sobre o tema”, nota Manuela Gomes. Diz, também, que o tema continua a ser escolhido por alunos para trabalhos da História Contemporânea e há uma questão que acaba por ser comum a todos os discentes: “Como é que uma potência como os Estados Unidos, com tecnologia avançada, foi alvo de um ataque daquele tipo sem ter sido detetado?”.

Tiago Leitão é mais cauteloso quanto ao grau de conhecimento prévio dos alunos: “Há alguns que conhecem, mas nem todos”. 

O 11 de Setembro na História Contemporânea

Para Alexandra Esteves, investigadora da Universidade do Minho e especialista em Assuntos Contemporâneos, “o 11 de Setembro está longe de ser um acontecimento que pertence apenas à memória daqueles que o vivenciaram, pois é, de facto, uma data que não deve ser desconsiderada quando se pretende compreender e estudar contemporaneidade”. Enquanto historiadora e investigadora do período contemporâneo, entende que “independentemente do nível de ensino dos estudantes e usando os recursos adequados a cada faixa etária, os docentes devem fazer distinção entre memória e História”, usando, no contexto de sala de aula, exercícios de desconstrução da própria narrativa.

A especialista acrescenta ainda que a tragédia de 2001 alterou a “perceção do próprio terrorismo” e que, sob o ponto de vista histórico, não aconteceu num vazio. “Será necessário relacionar este acontecimento com outros, nomeadamente com o fim da Guerra Fria, a presença norte-americana no Médio Oriente, a guerra no Afeganistão, o surgimento do jihadismo transnacional, o conflito israelo-palestiniano e até mesmo a história da Al-Qaeda. [...] Talvez possamos considerar que o 11 de Setembro foi um acontecimento charneira (funcionou como um ponto de viragem fundamental na História). Por si só, não inaugurou uma nova época, mas terá acelerado e reorientado processos que já estavam em curso”.

Quando a nova geração deixar de ter contacto direto com pessoas que viveram o 11 de Setembro a data continuará a existir através de várias fontes: testemunhos orais gravados, documentos, fotografias, entre outros. 

O 11 de Setembro é uma memória para quem o viveu, para quem não viveu é História. Ora, é precisamente na construção da História que o papel dos historiadores, dos professores, das escolas e das universidades ganha particular relevância
Alexandra Esteves

Investigadora e Especialista em Assuntos Contemporâneos

“O desafio que temos atualmente, 25 anos após o 11 de Setembro, não é apenas recordar o que aconteceu, mas também compreender como o que aconteceu foi transformando o mundo e como foram construídas diferentes interpretações. O 11 de Setembro é uma memória para quem o viveu, para quem não viveu é História. Ora, é precisamente na construção da História que o papel dos historiadores, dos professores, das escolas e das universidades ganha particular relevância”, refere Alexandra Esteves.

A abordagem do 11 de Setembro e do terrorismo no currículo português

O currículo português dá alguma autonomia às escolas para decidirem como abordar determinados temas, de acordo com o seu contexto e com o seu projeto educativo. 

Segundo o Ministério da Educação, “a abordagem aos atentados de 11 de setembro de 2001 e do fenómeno do “terrorismo” no currículo português não é feita, em regra, através de um conteúdo autónomo e transversalmente obrigatório em todas as disciplinas. Esta flexibilidade deve ser entendida à luz do Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho, que consagra a autonomia das escolas na gestão e desenvolvimento curricular. O diploma prevê, nomeadamente, a possibilidade de as escolas identificarem opções curriculares eficazes, adequadas ao contexto, enquadradas no projeto educativo”.

Isto significa que, por exemplo, uma escola pode abordar o tema em História, outra pode abordar através de um projeto que envolva História, Geografia e Português e outra pode dar-lhe menos destaque, desde que as suas opções estejam enquadradas no currículo e no projeto educativo. 

De acordo com o EduQA, o tema da tragédia do 11 de Setembro pode ser enquadrado em diferentes disciplinas, designadamente: 

História (9.º ano) - pode ser abordado quando se estudam os desafios do mundo contemporâneo;

História B (11.º ano) - no contexto dos problemas transnacionais da era da globalização;

História A (12.º ano) - no contexto das alterações geoestratégicas, tensões políticas e transformações socioculturais do mundo atual; 

Ciência Política (12.º ano) - numa ligação mais direta, onde as Aprendizagens Essenciais incluem explicitamente o tema “Guerra e Terrorismo”; 

Geografia C (12.º ano) - no âmbito da geopolítica, da geoestratégia e da segurança mundial; 

Economia C (12.º ano) - a partir das consequências económicas e sociais dos atentados e dos processos de globalização; 

Sociologia (12.º ano) - no âmbito de temas como a sociedade do risco, a estigmatização e os processos de inclusão e exclusão; 

Cidadania e Desenvolvimento - pode ser trabalhado através de temas como a paz, segurança, democracia e desafios da sociedade atual.

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