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Com medo, mas longe do perigo: Como os portugueses viram o 11 de Setembro

Muitos sentiram que Portugal estava em segurança, mas há quem tenha imaginado o rebentar da Terceira Guerra Mundial.

11 de setembro de 2026 às 09:30

Carmen Rego lembra-se daquele dia como se fosse hoje. Estava a trabalhar quando tudo aconteceu. Era funcionária no hospital, onde há o hábito de ter as televisões ligadas para entretenimento dos doentes. "De repente, alguém começou a dizer 'Ai, olha, um incêndio numa das torres gémeas'. Primeiro disseram que tinha sido uma explosão. Depois começámos a ver que tinha sido um avião que tinha embatido", conta. 

Rapidamente, os utentes e os funcionários do hospital foram transmitindo de boca em boca o que entendiam sobre o estava a acontecer. "Pela maneira como a situação ia, já falavam numa Terceira Guerra Mundial", relembra Carmen, reconhecendo, atualmente, algum exagero. Mas todos tentaram prestar atenção aos telejornais para perceber o que se tinha realmente passado. "E foi aí que nós percebemos que pessoas tinham até saltado das janelas [das torres] e que muita gente tinha morrido. E víamos aquela onda de fumo que se estendia por metros e metros na zona", descreve. 

Depois, veio o pavor: "Se isto se está a passar num país como os Estados Unidos, o que é que se vai passar no resto do mundo?", pensou. 

Carmen teve ainda a preocupação de contactar familiares seus e do marido que viviam nos Estados Unidos para se certificar de que estavam bem. Confirmou-se, mas, ainda assim, diz que sentiu a situação como "um balde de água fria", consciente das consequências que surgiriam, face à influência dos EUA no mundo. Uma vez que o marido de Carmen, Jaime, tem cidadania norte-americana, ambos viveram o receio de que, com o eventual despoletar de uma guerra, ele fosse convocado. “Levámos ali uns bons tempos, uns bons meses, talvez até um ano, com receio", confessa.  

Não houve uma Terceira Guerra Mundial, mas a forma de encarar o mundo definitivamente mudou, mesmo a quilómetros de distância. 

A viagem que o casal tinha planeada para Bali, na Indonésia, foi substituída por um destino dentro da Europa, onde acreditavam estar mais protegidos. "Eu vi muitas pessoas que deixaram de viajar para certos sítios. Ficavam com medo".  

Atualmente, Carmen vive com a família nos Estados Unidos e, agora mais perto do palco de toda a tragédia, assegura que o 11 de setembro marcou a comunidade e que contribuiu para uma onda de preconceito para com cidadãos de países do Médio Oriente aumentou. "Para muitas pessoas, principalmente aquelas menos instruídas ou que são mais tradicionais, que não são até muito a favor da imigração, foi por causa deles [cidadãos do Médio Oriente] que aquilo aconteceu. Catalogam-nos. E as pessoas que perderam família [no atentado] têm naturalmente rancor a certas nacionalidades".  

"Nunca pensei que fosse acidente porque o que eu estava a ver não podia ser um acidente" 

Jorge Braz trabalhava no aeroporto das Lajes, na Ilha Terceira, nos Açores, mas já estava a caminho de casa quando ouviu os primeiros relatos na rádio. 

Chegou depressa a casa e ligou a televisão. Os jornalistas começaram a relatar que se tratava de um atentado terrorista e Jorge diz nunca ter tido dúvidas. "Nunca pensei que fosse acidente porque o que eu estava a ver não podia ser um acidente. Um avião em pleno voo não vai embater, consegue desviar-se", afirma. 

Jorge assume que, perante as imagens, sentiu essencialmente raiva ao pensar "como é que era possível alguém fazer uma coisa daquelas". 

Apesar de terem a base norte-americana ali localizada, Jorge explica que, pelo menos na Terceira, as pessoas não mostraram ter medo de sofrer um possível ataque. Para ele, os ilhéus tendem a pensar que este tipo de acontecimentos não pertencem à sua realidade. "Quando se passa qualquer coisa é pouco provável que a gente sinta que se possa vir a passar connosco também. O nosso isolamento faz-nos criar uma certa camada de proteção", explica. 

Nos tempos que se seguiram, Jorge viu as mudanças no mundo da aviação a serem implementadas aos poucos. "Nos dias seguintes, já começamos a falar no security (segurança), em que se implementasse o security. Nós sabíamos que existia, tínhamos alguma informação de que existia, mas aqui não havia nada", recorda Jorge.

O próprio controlo de áreas reservadas ao staff era quase nulo e a revista era "sumária". "Funcionava mais à base da confiança no pessoal que estava a trabalhar. 'este trabalha aqui, este tem de ser de confiança'", indica Jorge. 

A segurança mais apertada e preparada tomou então o lugar da confiança tranquila depositada entre os trabalhadores do aeroporto. 

Foi também com o passar do tempo e com a cobertura televisiva nos dias que se seguiram à tragédia que as pessoas foram tomando mais consciência do impacto daquilo que tinha acontecido, acredita Jorge: "É curioso que naquela altura há uma ideia de que havia pouca gente ligada ao assunto, ou preocupada com o assunto". 

Mesmo com a informação disponibilizada, houve espaço para que se criassem algumas teorias. "Houve boatos de que estavam árabes a circundar o perímetro de segurança da Base das Lajes. Alguém deve ter visto alguém a rondar a base, ou qualquer coisa do género, e houve logo um alarme", recorda, desvalorizando.

“A grande potência mundial foi atacada desta maneira e permitiu que a atacassem desta maneira. Portanto, já não há grande potência mundial” 

"Eu vinha de Tomar e estava e entrar na CREL, quando ouvi no rádio que um avião tinha embatido contra uma das torres gémeas", foi assim que Manuela [nome fictício] começou por contar como viveu o 11 de setembro de 2001. 

Manuela conta que se apressou a chegar a casa para ligar a televisão e ver o que se passava. "Quando cheguei a casa liguei aos meus pais para dizer 'liguem a televisão, tentem ver, um avião embateu contra as torres gémeas' e estou eu a ter esta conversa, já com a televisão ligada, e vejo o segundo avião a embater contra a segunda torre", relembra. 

Diz que foi uma estranha sensação de impotência, mas que não sentiu medo. Afinal, não tinha por hábito viajar para os Estados Unidos e Portugal ainda ficava longe. Mas percebeu logo, com as duas torres atingidas, que não poderia tratar-se de um acidente e as primeiras notícias já levantavam a hipótese de estarmos perante um atentado terrorista. 

Restou o espanto. “A grande potência mundial foi atacada desta maneira e permitiu que a atacassem desta maneira. Portanto, já não há grande potência mundial”, concluiu.

Funcionária do SEF durante vários anos, Manuela explica que, quando regressou ao trabalho no dia seguinte à tragédia, notou logo “um grande rebuliço”. “A informática foi dinamizada rapidamente para que se fizessem aplicações para cruzamento de dados. Passou a haver partilha internacional de dados, passou a haver um reforço muito mais acentuado da segurança aeroportuária”, conta. "Percebi perfeitamente a necessidade urgente de se criarem aplicações que conseguissem detetar informação certificada onde se pudessem ir buscar informações de pessoas que estivessem dentro do país, porque na altura falou-se que poderiam estar dentro do nosso país elementos [ligados aos atentados]", afirma Manuela, que diz sentir que Portugal, pela sua posição geoestratégica, pudesse ser encarado como um local de refúgio para pessoas ligadas aos talibã. 

É também com base nessa crença, que assume não ter sentido um real receio de que algo semelhante viesse a acontecer em Portugal. "Isso foi uma coisa que sempre me descansou: acreditar que nós não somos uma zona para ataque, nós somos um sítio de refúgio dessas pessoas", clarifica.

No entanto, o medo era notório na apreensão com que as pessoas passaram a encarar quem vinha de países do Médio Oriente. Essa preocupação estava estampada nos aeroportos, mas também nas unidades hoteleiras que passaram a ser o ponto de revista para quem entrava em Portugal por terra. 

Manuela recorda um episódio caricato em que uma unidade hoteleira recebeu um pedido por parte de três muçulmanos que pretendiam lá alojar-se, mas que faziam um pedido bastante específico: queriam três telemóveis de um determinado modelo e com determinadas características que tinham de ser adquiridos pelo próprio hotel para que eles os utilizassem durante a estadia. Ciente de que este pedido soava suspeito, um responsável encaminhou esta informação, por email, para o SEF. No entanto, mandou também para os hóspedes.

Manuela não tem a certeza se a atitude do homem foi um lapso ou até uma tentativa de afugentar o grupo. “Havia uma camada de pessoas da sociedade, que perceberam a gravidade [do terrorismo], mas depois havia outra camada que era ingénua. Pronto, porque aquela informação era para ser dada só a nós”. O que se seguiu foi que os três muçulmanos nunca chegaram a colocar lá os pés e perdeu-se-lhes o rasto.  

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