Entre imagens retiradas, estreias adiadas e histórias reinventadas, o cinema norte-americano recuou perante o trauma.
Entre imagens retiradas, estreias adiadas e histórias reinventadas, o cinema norte-americano recuou perante o trauma.
Do outro lado de uma janela, vê-se o Ground Zero, em Manhattan, na cidade de Nova Iorque ainda em luto e a tentar reconstruir-se. Há escombros por recolher, máquinas, homens que ainda trabalham no terreno. O protagonista, prestes a entrar na prisão, atravessa as últimas horas de liberdade enquanto, do outro lado da janela, se tenta perceber como continuar.
Em '25th Hour' (A Última Hora), lançado apenas 15 meses depois dos atentados, o realizador Spike Lee não coloca a tragédia do 11 de Setembro que assolou o coração norte-americano no centro da história, mas opta por mencioná-la na paisagem. Permanece à margem, num momento em que Hollywood ainda estava a aprender a olhar e a lidar com determinadas imagens.
O impacto dos atentados do 11 de setembro ultrapassou o plano político e de segurança, instalando uma sensibilidade coletiva perante imagens não só relacionadas com violência, terrorismo e contextos de catástrofe, mas qualquer símbolo ou gesto que pudesse despertar algum tipo de desconforto. Em Hollywood, a mudança tornou-se particularmente visível, e a indústria teve de decidir o que fazer com imagens que, de repente, deixaram de pertencer apenas à ficção. Produções que continham referências a ataques, aviões ou às próprias Torres Gémeas foram revistas ou adiadas e determinadas cenas chegaram mesmo a ser eliminadas.
O cinema "foi muito cauteloso na forma como lidou com a tragédia" e a primeira reação "foi a de retração", aponta Rui Pedro Vieira, jornalista do CM e crítico de cinema.
O trailer do 'Homem-Aranha' (2002), onde o super-herói lança uma teia entre as duas Torres Gémeas para prender um helicóptero onde fugiam assaltantes, foi retirado de circulação por decisão da produtora Sony Pictures, assim como os cartazes referentes ao filme onde se mostrava o reflexo das Torres nos olhos do Spider-Man. O filme foi gravado nos primeiros meses de 2001 e continha várias imagens das Torres Gémeas e da zona do complexo do World Trade Center, que também foram retiradas da produção final.
'Gangues de Nova Iorque', de Martin Scorsese, com estreia marcada para o Natal de 2001 e 'Men in Black II', lançado em 2002, 'Collateral Damage', protagonizado por Arnold Schwarzenegger, e o filme de animação 'Lilo & Stitch' , são outros exemplos de produções que viram o roteiro alterado ou sofreram alterações.
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Todos os anos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), os alunos de História do Cinema recordam o 11 de Setembro. É assim que começa o currículo da disciplina. Pedro Florêncio, realizador e docente daquela instituição, faz questão de trazer sempre novas imagens a cada turma que passa pelas suas mãos, um trabalho que requer um regresso aprofundado àquele evento que provoca um “grande fascínio” no professor.
Logo após “um trauma imagético desta dimensão”, foram implementadas várias políticas pelos próprios estúdios e houve até parcerias estabelecidas com o Pentágono para “redefinir os filmes e criar uma espécie de manual que podemos chamar até de autocensura”, explica Florêncio. Entre as décadas de 30 e 60, vigorou em Hollywood o Código Hays, um conjunto de regras impostas pelos estúdios que regulavam o conteúdo moral dos filmes produzidos. Embora nunca tenha desaparecido totalmente com a indústria a manter uma prática de autovigilância muito vincada, o 11 de Setembro veio exacerbar essa tradição.
Hollywood focou-se, nos anos seguintes ao ataque, em “evitar pontos sensíveis” que pudessem suscitar algum tipo de “memória involuntária” e assim “evitar o mau gosto”, segundo o docente da NOVA FCSH.
Aliada à sensibilidade coletiva, o impacto dos atentados não se limitou aos conteúdos apresentados pela indústria cinematográfica, mas colocou também em causa o próprio negócio. "O cinema tornou-se uma ameaça para as pessoas, que passaram a ter medo de ir às salas, sair, estar com outras. Por isso mesmo, a forma de as conquistar foi desviar as atenções de tudo aquilo que pudesse ser tido como ameaça também", refere Rui Pedro Vieira.
A forma de se reinventar centrou-se no apostar em novos projetos, nomeadamente nos de fantasia, que permitiram o recuperar das receitas das bilheteiras que, logo após o 11 de setembro, registaram uma quebra imediata, como explica o jornalista do CM.
"Houve uma série de mudanças que tiveram de ser feitas à última hora para manter o negócio e para restaurar a confiança das pessoas no ato de ir ao cinema."
Jornalista do CM
O primeiro filme da saga do 'Harry Potter' estreou em novembro de 2001 e o primeiro capítulo de 'O Senhor dos Anéis', a trilogia de Peter Jackson, foi lançado em dezembro desse mesmo ano, produções que acabaram por ter imenso êxito na sala de cinema. "Porquê? Porque era uma fantasia, um registo diferente", que impactou o público, aponta Rui Pedro Vieira.
Atualmente, e perante algo desta dimensão, agiria a indústria da mesma forma e os produtores tomariam decisões semelhantes? Rui Pedro Vieira considera que sim. "Acho que sempre que há algo traumático e grave, o cinema tem a tendência de julgar pelo seguro e de se retrair", aponta, dando como exemplo a pandemia da covid-19, que o cinema também demorou a levar para os ecrãs.
No imediato, a preocupação foi todas as imagens que remetiam diretamente para aquele dia. As torres, os aviões, explosões… No entanto, Pedro Florêncio destaca que não se trata apenas das “representações literais nem de configurações que lembram as figuras do próprio evento”.
"[O 11 de Setembro] afetou muitíssimo aquilo que os filmes e as séries vieram a ser".
Realizador de cinema e docente da NOVA FCSH
Aquele evento apanhou as câmaras de surpresa. “Muita gente descreve o que viu lá e na televisão como um filme”, realça Florêncio. O ano de 2001 viu a ficção tornar-se realidade, mesmo após a década de 90 onde o imaginário cinematográfico norte-americano “está povoado de catástrofes nas grandes metrópoles” como o 'Godzilla' ou o 'Armageddon'.
Avião. Explosão. Fumo. Medo. Outro avião. Outra explosão. Mais fumo. Medo intensifica-se. Alerta. Última hora. Repete. Outra vez. Outra vez. Mais uma. E mais uma. Imagens incessantes. Quando se ligava a televisão após o ataque, era isto a que o espetador assistia. As mesmas imagens repetiam-se vezes sem conta “até à exaustão”, descreve o professor apoiando-se na teoria do cineasta suíço Jean-Luc Godard, até que essa repetição acabou por “neutralizar ou dessensibilizar em relação àquela agressão”.
Demorou até que fosse possível superar o trauma. “O primeiro 'Avengers' é um dos primeiros filmes a voltar a representar coisas que só nos anos 90 se representavam de forma despudorada, que eram as cidades a serem destruídas”, salienta o professor. Tal só foi possível, porque estas cenas de destruição em larga escala eram contrabalançadas com um “mecanismo de compensação emocional” como é o caso do 'Iron Man' - “um tipo rico armado até aos dentes”, refere ainda.
Os filmes de super-heróis foram uma forma de mostrar que é possível superar o trauma, mas Florêncio destaca que é uma reconstrução muito "púdica, puritana e higienizada". O realizador vai ainda mais longe e afirma que é uma forma “desonesta de lidar com as feridas que este evento abriu em toda uma civilização”.
Antoine de Baecque, teórico do cinema francês, explica Florêncio, tem um particular interesse “nos eventos históricos que mudam a maneira do cinema ser”, a uma escala mais pequena, de um olhar, de um gesto.
Em 'A Guerra dos Mundos’ (2005), de Steven Spielberg, há um pai viúvo que não consegue salvar os EUA, conta o professor, e a família é a única coisa que a personagem, interpretada por Tom Cruise, pode salvar. Como é que o 11 de Setembro está representado aqui ao nível da imagem? Na poeira. Tom Cruise entra em casa, olha-se ao espelho e, cheio de poeira no casaco, parece um dos “transeuntes que estavam perto das torres naquele dia”. “É uma imagem difícil”, descreve Pedro Florêncio, pois “expõe a fragilidade do ser humano”.
“Apesar de estarmos povoados com documentários sobre este trauma, quando é ‘mainstream’ é sempre a maneira fácil de o abordar. É nestes pequenos filmes, mais polémicos nas declarações do Jean-Luc Godard ou numa imagem do Spielberg que encontramos a maneira justa e honesta de lidar com este trauma”, conclui o académico.
A partir de 2001, a canção de Bonnie Tyler de 1984 ‘Holding Out for a Hero’ nunca fez tanto sentido. O povo norte-americano precisava de um herói. Os filmes 'mainstream' tentaram resolver o trauma do 11 de Setembro através de figuras heróicas como Jason Bourn em 'The Bourne Identity' (2002) ou o '007' de Daniel Craig.
“São tipos com condições físicas semelhantes à do mortal comum, mas quase super-humanos porque aguentam tudo - cargas de pancada, torturas e, portanto, são uma espécie de protótipo do novo agente da CIA ou do FBI que resiste a todo este tipo de ameaças externas.”
Realizador de cinema e docente da NOVA FCSH
Do outro lado da moeda, temos a criação de um novo inimigo, o terrorista, defende Florêncio. O professor explica que o 11 de Setembro veio realçar a “relação assimétrica de poder entre o Ocidente e os países do Médio Oriente”. “Há um mal-estar civilizacional que vem ao de cima com aquelas imagens”, acrescenta. De repente, no século XXI, o vilão era quase sempre alguém que vinha de fora, de algum sítio longínquo, figurando o outro como uma ameaça.
Saindo da ficção e passando para a vida real, Florêncio mostra como estas figuras idealizadas do cinema afetam a geopolítica. O avesso do “herói americano muito polido” vê-se em figuras como Donald Trump, exemplifica Pedro Florêncio. “São pessoas que dizem mal dos imigrantes à boca cheia. São esses os efeitos menos visíveis de um epicentro mediático”, declara o docente da NOVA FCSH.
Foi em 2006 que o cinema deu os primeiros passos para um virar de página na forma como se relacionava com os atentados do 11 de setembro. A indústria não deixou de ter alguma cautela em mostrar imagens que marcaram a tragédia, mas "aprendeu a contextualizá-las", num momento em que também o público norte-americano e mundial começou a dar indícios de que essa mudança seria necessária.
O filme 'World Trade Center' (2006), de Oliver Stone, onde dois agentes norte-americanos ficam presos nos escombros após ajudarem pessoas a escapar dos edifícios durante os atentados, é exemplo disso mesmo. Em 'Voo 93', no mesmo ano, o realizador Paul Greengrass conta a história daquilo que se passou dentro do avião que não chegou a colidir com as Torres Gémeas, mas que acabou por se despenhar porque a tripulação se uniu contra os terroristas.
"Já era também um pedido do público porque os EUA, assim como o cinema comercial, gostam de olhar para o umbigo, para as histórias e mesmo para os acontecimentos traumáticos", aponta Rui Pedro Vieira.
Já Pedro Florêncio, embora reconheça que “há hoje uma capacidade de lidar com esta memória que já não tem nada a ver com os anos seguintes”, não esquece a “incapacidade de mostrar o mais pequeno desconforto”. E dá o exemplo dos ‘jumpers’, aquelas pessoas que saltaram das Torres Gémeas numa ação de desespero: “mostra-se talvez as pessoas a pedir ajuda nas janelas, mas não se mostra os saltos”.
Há sempre uma política de higienização que obriga a abordar “o mal da maneira mais simplista de todas que não é a imagem do Tom Cruise cheio de poeira em cima do casaco”, sublinha Florêncio.
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