page view
Memorial 11 de Setembro

"Transportar pedaços de pessoas e levá-los para a morgue". A dor invisível do 11 de Setembro

O bombeiro lusodescendente David Simões evita lembrar a tragédia. Médicos explicam os motivos.

O bombeiro lusodescendente David Simões evita lembrar a tragédia. Médicos explicam os motivos.

10 de setembro de 2026 às 21:41

O lusodescendente David Simões era bombeiro há cerca de dois anos no New York City Fire Department, em Nova Iorque, nos EUA, quando se deu o ataque às Torres Gémeas, a 11 de setembro de 2001. David esteve destacado para trabalhar no local da tragédia durante seis meses, até março de 2002, e lembra que os dias de trabalho se baseavam em "transportar pedaços de pessoas, colocá-los num saco e levá-los para a morgue".

"A única coisa que fazíamos era o que todos os bombeiros faziam, quer estivessem a trabalhar lá ou não. Ou estávamos no quartel, ou a trabalhar no local, ou a ir a um funeral, ou a sair com pessoas que tivessem sido afetadas de alguma forma. A cidade inteira estava a fazer isso." 

A carregar o vídeo ...

“Tínhamos de ir até lá sempre que se desenterrava uma peça, uma pessoa ou algo”

Medialivre

Milhares de bombeiros continuaram a trabalhar no World Trade Center após a tragédia, mesmo depois de terem perdido colegas, familiares e amigos. A psicóloga e presidente da sociedade portuguesa de psicossomática, Patrícia Câmara, explica que muitos optam por continuar a exercer porque sentem que estão, dessa forma, a "aniquilar a dor". "Enquanto eu estou a tentar encontrar vida, a tentar salvar, estou também a suportar ou a tornar suportável a dor da perda. No fundo, é como se eu também estivesse a estruturar a minha própria ferida", refere.

Contudo, há quem não tenha voltado à profissão por não conseguir recuperar do ponto de vista psicológico ou por alguma incapacidade física. 

Como se lida com a morte depois de viver uma tragédia como o 11 de Setembro?

A psicóloga lembra que há momentos de grande zanga perante a morte. "É importante a psicoterapia para que seja elaborada a perda. Se não trabalhar aquilo que são os meus instintos primários, vou agir com violência de volta". E elaborar a zanga pode passar, por exemplo, em fazer parte de organizações públicas, homenagens ou outros movimentos relacionados com o luto.

O lusodescendente David Simões, reformado há 10 anos, conta ao CM que perdeu dois colegas e o melhor amigo de infância. Vinte e cinco anos depois tenta "deixar tudo para trás". "Não vejo nem leio nada sobre o assunto, não vejo programas nem documentários, nem leio artigos ou livros sobre isso. Já não volto a esses lugares na minha mente", confessa.

A carregar o vídeo ...

“Perdi o meu melhor amigo que estava a trabalhar como bombeiro há 5 anos”

Medialivre

Patrícia Câmara reforça que a terapia é muito importante após uma experiência desta dimensão. Lembra que as vítimas sentem, muitas vezes, a "culpa do sobrevivente". Como se a pessoa que sobreviveu sentisse estranheza perante a própria possibilidade de estar vivo e uma culpabilidade de permanecer vivo quando outros não conseguiram. "É como se estivessem permanentemente no local das situações, imaginam vários cenários em que as coisas podiam ter acontecido de maneira diferente", afirma.

"É importante que as pessoas percebam que têm direito à sua vulnerabilidade. Ao mesmo tempo é assustador olhar para ela, porque vai a zonas de desamparo muito grandes e nós tendemos a fugir daquilo que nos dói, mas a verdade é que a dor fica muito maior se não for trabalhada com alguém". 

David Simões sublinha que o que viveram há 25 anos ficou "enraizado" para sempre. "Muito do que fazemos, quer falemos sobre isso ou não, tem como pano de fundo o 11 de Setembro. As pessoas com quem me dou bem, muitos dos eventos a que vou, têm o 11 de Setembro como tema central", diz.

A carregar o vídeo ...

“Eles tinham a cidade nas mãos”

Medialivre

Apesar das marcas deixadas por tudo o que viveu, David não teve de lidar sozinho com o impacto de ter sido bombeiro no Ground Zero. O apoio psicológico começou na altura e mantém-se disponível até aos dias de hoje. "A Câmara contratou não só psicólogos do corpo de bombeiros, mas também psicólogos profissionais e pediu voluntários. Há também uma unidade de aconselhamento, à qual ainda hoje posso recorrer, se quiser. O apoio foi incrível. O apoio foi excelente."

É aqui que entra a importância da comunidade, refere a psicóloga Patrícia Câmara. "A comunidade pode criar, por exemplo, o espaço da memória coletiva. É muito importante que as pessoas se sintam acompanhadas na dor".

A especialista lembra a importância dos outros nestas situações. "Preciso dos outros para me ajudar a sair de mim em momentos em que estar comigo se torna insuportável", diz. 

Refere ainda que o objetivo é colocar as memórias traumáticas no lugar certo. "Que fiquem arrumadas de maneira a que não estejam permanentemente a contaminar a vida e a possibilidade de viver de uma maneira mais livre", explica. 

"Os cheiros, os sons, as poeiras, podem levar aos sítios do trauma. Qualquer coisa pode, de repente, atirar-nos para o momento da tragédia. E imaginar que isso se transforma sem psicoterapia é praticamente impossível".

A carregar o vídeo ...

“Sabíamos que estava acontecer algo horrível”

Medialivre

Longe de querer reviver o 11 de Setembro, David e os colegas continuam a lembrar aqueles que perderam. Escolhem fazê-lo principalmente através das boas memórias. "Lembramo-nos das coisas boas. Não nos concentramos propriamente nas pessoas a serem esmagadas ou despedaçadas ou algo do género; concentramo-nos nas boas memórias que temos delas."

A psicóloga Patrícia Câmara lembra que em psicoterapia os momentos e as lembranças traumáticas não têm tempo. "Eles chegam sem cronologia. No fundo, devemos acolher o que as pessoas sentem, o que têm para dizer e ir ajudando a pouco e pouco a integrar a situação que foi vivida, tirando até o fardo da culpa de nunca ter falado".

As doenças do 11 de Setembro

O pneumologista e presidente do Colégio de Pneumologia da Ordem dos Médicos, António Morais, afirma que tanto a exposição imediata à queda das Torres Gémeas como a busca por sobreviventes entre os destroços, trouxeram doenças agudas. "Uma exposição permanente pode levar também à existência de doença respiratória", revela.

"Aquilo que se verifica é que estes doentes têm doenças obstrutivas, nomeadamente asma. Muitos deles ficaram, após esta exposição, com uma doença crónica do tipo asmático ou também doença pulmonar obstrutiva crónica ou bronquiolite, embora menos frequente", explica.

"Outra situação interessante", refere o médico,  "é que existe uma doença granulomatosa, que é a sarcoidose (doença inflamatória sistémica caracterizada pelo crescimento anormal de pequenos aglomerados de células inflamatórias chamados granulomas em vários órgãos do corpo), que efetivamente teve uma ocorrência significativa". Para António Morais, "é uma doença que não conhecemos a causa, mas sabemos que muito provavelmente não conhecemos a causa porque nunca conseguimos, num estudo epidemiológico, identificar apenas uma. Provavelmente existem muitas".

O médico lembra que, para além da exposição, também é preciso ter uma predisposição genética para desenvolver a doença. 

O cancro do pulmão, por exemplo, não foi a doença oncológica mais registada em vítimas do 11 de Setembro. Os cancros da tiroide ou da próstata têm muito mais casos registados e o especialista explica o motivo: "o cancro do pulmão tem uma latência que é significativa, quer dizer que ele pode demorar décadas até ocorrer, desde que haja o início da malignização. A partir do momento em que aparecem células malignas até aparecer a doença - a expressar-se clinicamente em imagens -, pode demorar duas ou três décadas".

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Ouça a sua rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8