Não existindo risco zero, as redes elétricas e de comunicações têm de ser mais resilientes.
No passado dia 28 de Janeiro sofri, em minha casa em Coimbra, um apagão de 20 horas. Não é muito comparado com as pessoas de Leiria que estiveram mais de 20 dias sem eletricidade. Não pude ver televisão, usar computador, cozinhar ou sequer carregar o telemóvel. Tive de ir comprar um fogão de campismo a gás e um pequeno rádio a energia solar. Mas, habitantes de algumas aldeias de Leiria tiveram de voltar a usar velas, como no tempo dos seus bisavós. Como quase todos os portugueses, eu já tinha sido afetado pelo apagão ibérico de 28 de Abril de 2025.
A causa do apagão deste ano foi a tempestade Kristin, que devastou uma parte da rede elétrica nacional nos sítios da sua maior fúria, Leiria e Coimbra, e também uma parte da rede de telecomunicações. É bem sabido que estes fenómenos extremos são agora mais frequentes devido às alterações climáticas.
Por seu lado, o apagão ibérico ainda não foi completamente esclarecido, mas parece estar associado a uma sucessão de falhas súbitas num setor sobrecarregado com energias renováveis. Tanto um caso como outro suscitam justa preocupação sobre a segurança dos meios de produção e distribuição da eletricidade.
É inadmissível que, na sociedade atual em que tudo ou quase tudo depende da eletricidade, haja disrupções desse serviço. A solução não é, com certeza, voltar ao tempo dos combustíveis fósseis, o que só agravaria as alterações climáticas, que já sabemos causarem graves danos. A engenharia pode encontrar soluções, mas estas precisam de ser apoiadas pela economia e a política. Não existindo risco zero, as redes elétricas e de comunicações têm de ser, como agora se diz, mais resilientes. Por exemplo, apesar de o custo ser alto, partes da rede de distribuição de eletricidade poderão ser enterradas. E o controlo das redes elétricas, que agora incluem muito mais unidades de produção do que antigamente, tem de ser revisto.
A ministra do Ambiente e Energia mandou avançar um estudo técnico, económico e regulatório para adaptar o sistema elétrico nacional às novas condições climáticas. Há pessoas competentes para o fazer, mas corremos o risco de ficar tudo no papel. É que, no domínio da energia, persistem alguns ‘donos disto tudo’, empresas que querem os lucros para elas e os prejuízos para os outros.
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