Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco e Marcelo foram os inquilinos de Belém durante os 47 anos do Correio da Manhã.
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Para além da crise política que marcava aqueles dias de março de 1979, a manchete do n.º 1 da atual série do Correio da Manhã tem uma explicação clara. O seu fundador e diretor, Vítor Direito, bem como a grande maioria dos jornalistas e outros funcionários provinha do diário ‘A Luta’, que era o jornal oficioso do Partido Socialista. Ao destacar a iniciativa do então Presidente da República, António Ramalho Eanes, o CM vincava a sua independência em relação ao PS e ao seu líder, Mário Soares, que após conduzir dois Governos constitucionais falhados se apresentava como principal antagonista político do Chefe de Estado.
A declaração de princípios do novo jornal diário vinha escrita no primeiro número no afirmativo ‘Bilhete postal de apresentação’, em que se assumia o papel decisivo da comunicação social privada num tempo em que quase todos os principais meios eram propriedade do Estado. A iniciativa mereceu o acordo do Presidente Ramalho Eanes, segundo o próprio acentuou, em entrevista, na edição do 30.º aniversário do CM. “Está comprovado, até historicamente, que não há verdadeira democracia se à Sociedade Civil não for reconhecido o direito de estabelecimento e propriedade de meios de comunicação social.” E concluía: “Só assim será possível existir uma democracia aberta, autêntica e fielmente pluralista, bem informada, convenientemente responsável, enfim civil, pacífica e tolerante.”
Primeiro Presidente da República votado pelo sufrágio universal dos portugueses e portuguesas, o general Ramalho Eanes, hoje com 91 anos, ganhou eleições para dois mandatos (1976-1986) com objetivos desafiantes que vale a pena recordar: “Afiro a independência de um órgão de comunicação Social pela utilização da sua força produtiva no esclarecimento.”
Mário Soares
As circunstâncias em que nasceu o projeto Correio da Manhã cavaram distâncias entre pessoas que trabalharam juntas durante muitos anos. Vítor Direito foi chefe de Redação do histórico ‘República’, antes do 25 de Abril, e até diretor-adjunto, já depois da revolução. Após a luta partidária que levou ao encerramento daquele jornal no Verão Quente de 1975, manteve o mesmo cargo de responsabilidade no vespertino ‘A Luta’, financiado pelo Partido Socialista. Este projeto esgotou-se nos finais de 1978 e Vítor Direito pugnou pela aposta num diário de grande público, de que dava como exemplo o ‘Bild’, na Alemanha. A ideia foi, porém, rejeitada, com a administração e o partido a insistirem no modelo de informação política, lançando o ‘Portugal Hoje’, que não chegou a durar três anos
Os caminhos separados criaram distâncias. O CM conseguiu que o seu projeto se tornasse um dos mais bem-sucedidos na imprensa portuguesa. Mário Soares venceu em fevereiro de 1986 a eleição presidencial mais disputada de sempre, contra Freitas do Amaral. A manchete da vitória ocupou dois terços da primeira página, com o título ‘Soares ganhou’ e uma foto gigante de grande plano. Antes, ainda como primeiro-ministro, assinou a integração de Portugal na Comunidade Europeia. Mais tarde conquistou um segundo mandato presidencial até 1996 e a paixão pela política levou-o a ser eleito para deputado europeu em 1999.
Diretor do CM desde o início de 2002, João Marcelino empenhou-se numa relação próxima com o antigo Presidente e teve êxito. Em novembro de 2006, num trabalho de jornalista sobre o livro ‘Um Diálogo Ibérico no Contexto Europeu e Mundial’, que punha frente a frente Mário Soares e o espanhol Federico Mayor Zaragoza, diretor-geral da UNESCO entre 1981 e 1999, fui testemunha de rasgados elogios ao CM e ao seu diretor. Mário Soares faleceu em janeiro de 2017, com 92 anos.
Jorge Sampaio
A entrega da direção de um jornal diário, por um dia, a uma personalidade de destaque público constitui iniciativa rara. Foi, no entanto, com este tipo de ação de marca solidária que o então diretor do Correio da Manhã, João Marcelino, acordou com Jorge Sampaio, já depois de dois mandatos na Presidência da República (1996-2006), apoiar a sua missão de Enviado Especial da ONU para o Combate à Tuberculose, com uma edição especial no CM 10 000, em 13 de outubro de 2006.
O fundamental centrou-se no alerta para os perigos do contágio da tuberculose, na sua forma multirresistente, e na angariação de apoios financeiros para apoiar tão nobre causa, mas a experiência mobilizou também o empenho da redação. Várias equipas de jornalistas trabalharam na recolha de informação sobre a tuberculose, produzindo 30 páginas com novidades e testemunhos de pessoas afetadas e curadas, investigadores e estudiosos dos vários aspetos do combate à doença.
Na redação, os jornalistas sentiram-se estimulados pelo interesse e desafios colocados por um diretor especial que participou atento e ativo nas habituais reuniões ao longo do dia de preparação e fecho do jornal. Jorge Sampaio cativou até pelas confidências sobre visitas a outras redações, com destaque para o pulsar do planeta que sentira na ‘newsroom’ da CNN, quando de uma famosa entrevista dada nos Estados Unidos sobre Timor-Leste com enormes repercussões na política internacional.
Jorge Sampaio manteve boa relação de apoio mútuo com o jornal e o diretor seguinte, Octávio Ribeiro, sendo uma das personalidades escolhidas para analisar passado e futuro no 30.º aniversário do CM. Jorge Sampaio faleceu em setembro de 2021, a oito dias de chegar aos 82 anos.
Cavaco Silva
O Presidente da República Aníbal Cavaco Silva demonstrou nos seus dois mandatos (2006-2016) que é uma personalidade muito mais atenta e percuciente do que os seus críticos avaliam. Numa mensagem de parabéns aos leitores e colaboradores do Correio da Manhã, no 30.º aniversário do jornal, em 2009. uma folha A4 chegou para dissecar a relação de proximidade do CM com quem o lê. No texto destaca-se: “O projeto não era fácil: conquistar amplas camadas da população, entrar nos hábitos de leitura diária dos Portugueses, transmitindo-lhes, num estilo próprio, o essencial do que ocorre no País e no Mundo. O Correio da Manhã soube fazê-lo com uma qualidade que importa sublinhar: a isenção. De facto, um dos grandes méritos deste jornal foi ter procurado posicionar-se de uma forma independente em relação a todos os poderes.”
A capacidade de entender os anseios dos cidadãos foi ponto forte da carreira política de Cavaco Silva. Hoje, quase 20 anos após o início do seu primeiro mandato na Presidência, ainda surpreende a assertividade das suas escolhas. Após passar um mês a organizar as equipas no Palácio de Belém, a sua primeira visita oficial foi ao Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Ali ouviu utentes e elogiou os profissionais em serviço pelo bom exemplo que davam na saúde pediátrica. Já ninguém se lembra deste prestar de atenção.
A mesma sensibilidade levou mais tarde a Presidência da República a distinguir com o seu Alto Patrocínio a iniciativa ‘Viva a Vida’, desenhada pelo diretor do CM, Octávio Ribeiro, para alertar os portugueses sobre as graves consequências da quebra da natalidade no desejável crescimento económico do País. Hoje é interessante avaliar como Cavaco Silva continua, aos 86 anos, a mexer com pessoas instaladas na sua zona de conforto.
Marcelo Rebelo de Sousa
Antes de tudo, de ser Presidente da República durante dois mandatos (2016-2026), professor catedrático, líder partidário, comentador político de televisão, ministro, deputado na Assembleia da República e da Constituinte, chefe de redação do ‘Expresso’ e estudante brilhante da Faculdade de Direito de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa já era jornalista. Os seus biógrafos mais curiosos contam que aos 14 anos, aluno do Liceu Pedro Nunes, fez uma visita de estudo ao jornal vespertino ‘Diário Popular’. A batida das máquinas de escrever das agências noticiosas deve-lhe ter acrescentado o interesse pelas notícias que lia e ouvia com abundância em casa, sendo o pai secretário de Estado no Ministério da Educação.
Quando em 21 de março de 2023 veio à Redação Aberta que juntou o 44.º aniversário do CM e os 10 anos da CMTV, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou o que é ver os assuntos por dentro. Questionado sobre as manchetes do Correio da Manhã que agitam o ambiente político, revelou-se lapidar: “Primeiro vejo o que significam, depois como trataria o assunto e por fim leio e avalio as reações que vai gerar ao longo do dia e nos dias seguintes.”
O então Presidente da República teve ao seu lado o diretor-geral editorial, Carlos Rodrigues, e destacou ainda como o lançamento do CM, em 1979, constituiu “um momento de viragem na sociedade portuguesa no período de transição para a democracia”. Marcelo Rebelo de Sousa tem profundo conhecimento desta conjuntura, até porque ele próprio criou, em 1983, um jornal semanário com o título ‘Semanário’. É também muito informado de todas as peripécias da vida do Correio da Manhã. Esteve na festa do 40.º aniversário do jornal, em Viseu, e já figurava entre as 30 personalidades em destaque no suplemento dos 30 anos do CM, em que se afirmava “otimista em relação aos mais novos” e apreensivo com “o mal-estar dos povos em relação aos políticos”. Agora, com 77 anos de idade, sobre Marcelo Rebelo de Sousa só é seguro escrever que as notícias nunca vão deixá-lo estar quieto.
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