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Presidente da Câmara de Leiria: “Numa tragédia destas não há espaço para hesitações”

‘Kristin’ deixou Leiria virada do avesso. Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, recorda os dias da tragédia.

19 de março de 2026 às 09:00

Qual foi a sua primeira reação ao perceber a dimensão da tragédia que se abateu sobre Leiria?

A primeira reação foi a preocupação imediata de reunir a equipa e começar desde logo a agir. Primeiro para proteger, depois para ajudar e reerguer.

Quando percebemos que não estávamos perante um episódio pontual, mas perante um fenómeno com impacto em todo o concelho e região, que tinha entrado na casa e na vida da nossa população, a prioridade foi clara: garantir segurança e organizar rapidamente a resposta. Num momento destes não há espaço para hesitações. Há decisões a tomar e há pessoas que precisam de sentir que não estão sozinhas.

Quais foram as principais dificuldades sentidas na ajuda às populações?

A maior dificuldade foi a dimensão simultânea dos danos. Tivemos ocorrências espalhadas por todo o território, estradas cortadas, serviços essenciais como o fornecimento de água e eletricidade interrompidos, milhares de infraestruturas afetadas ao mesmo tempo e muitas famílias a precisar de apoio imediato. Quando tudo acontece em paralelo, a coordenação torna-se decisiva. Felizmente, o espírito de entreajuda dos bombeiros, das forças de segurança, das equipas municipais, das juntas de freguesia, das associações e dos voluntários foi absolutamente determinante para ultrapassar os momentos mais críticos.

Como classifica a postura do Governo no que toca à resposta à crise no seu concelho?

Numa fase inicial, tivemos alguma dificuldade em fazer passar para o exterior a real dimensão da tragédia. O concelho estava praticamente isolado e a prioridade absoluta era proteger pessoas e restabelecer serviços essenciais. Isso condicionou, naturalmente, a perceção nacional do que estava a acontecer em Leiria.

Creio que essa fase está ultrapassada. Hoje existe um reconhecimento claro da dimensão do impacto e estamos todos a trabalhar com o mesmo objetivo: garantir respostas rápidas e eficazes.

Dito isto, os desafios de reconstrução continuam a ser muito exigentes. Mais do que nunca, é fundamental manter o foco, simplificar procedimentos e assegurar que os apoios chegam ao terreno com a celeridade que as famílias e as empresas precisam, e isso exige um acompanhamento permanente por parte do Governo.

O meu papel é defender Leiria com firmeza, e foi isso que fizemos desde o primeiro dia.

O que fazia diferente se fosse agora?

Sempre que enfrentamos uma situação destas aprendemos. Ficou claro que serviços essenciais precisam de ser mais robustos. Quando postes caem e redes falham, as pessoas ficam sem serviços vitais e não podem ficar privadas semanas e semanas.

Se fosse agora, teria sido ainda mais exigente, não apenas com as entidades prestadoras, mas também ao nível da regulação. Quem supervisiona estes setores deve exigir padrões mais elevados de resiliência e capacidade de reposição rápida. No futuro, esses níveis de exigência terão de ser reforçados.

Já estão contabilizados os prejuízos?

Os levantamentos continuam a ser atualizados. Não temos números fechados, mas sabemos que são extremamente avultados. O impacto foi muito significativo, tanto nas habitações como nas empresas, nas associações e no espaço público. Mas mais importante do que o valor final é garantir que cada situação concreta encontra uma solução.

Quanto tempo será necessário para que a vida das pessoas, nomeadamente das zonas rurais, regresse à normalidade?

A recuperação leva tempo, sobretudo nas zonas e setores onde os impactos foram mais profundos. Há processos que exigem reconstrução física, mas também estabilidade económica e confiança.

O nosso objetivo não é simplesmente regressar ao que existia antes do dia 27 de janeiro. É ir além dessa data. É garantir que as pessoas recuperam as suas condições de vida, mas num território mais resiliente, com infraestruturas mais robustas e maior capacidade de resposta. A normalidade que queremos não é a de ontem, é uma versão mais forte do futuro.

A necessidade de acudir às consequências deste comboio de tempestades vai pôr em causa (ou atrasar) outros projetos que tinha no seu programa autárquico? Quais?

Sim, vai implicar ajustamentos e alguns atrasos. Tivemos de concentrar praticamente toda a estrutura da câmara na resposta à tempestade. Parámos projetos, redirecionámos equipas e colocámos todos os recursos ao serviço das pessoas. Era essa a prioridade absoluta.

Mas não podemos permitir que esta tempestade derrube a nossa ambição para Leiria. Podemos demorar um pouco mais nalguns projetos, mas não desistimos de construir um território mais moderno, mais competitivo e mais preparado para o futuro. A resposta à crise foi uma exigência; a afirmação e a ambição de Leiria continuam a ser o nosso compromisso.

Quais as medidas que são necessárias tomar para impedir que tragédias como esta voltem a ocorrer?

Não podemos impedir fenómenos meteorológicos extremos. O que podemos, e devemos, fazer é reforçar a prevenção, o ordenamento do território, a proteção das infraestruturas críticas e os sistemas de alerta e resposta rápida.

Este é um desafio estrutural que ultrapassa um mandato e até um Governo. Exige visão de longo prazo e investimento consistente na resiliência do território.

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