‘Kristin’ deixou Leiria virada do avesso. Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, recorda os dias da tragédia.
Qual foi a sua primeira reação ao perceber a dimensão da tragédia que se abateu sobre Leiria?
A primeira reação foi a preocupação imediata de reunir a equipa e começar desde logo a agir. Primeiro para proteger, depois para ajudar e reerguer.
Quando percebemos que não estávamos perante um episódio pontual, mas perante um fenómeno com impacto em todo o concelho e região, que tinha entrado na casa e na vida da nossa população, a prioridade foi clara: garantir segurança e organizar rapidamente a resposta. Num momento destes não há espaço para hesitações. Há decisões a tomar e há pessoas que precisam de sentir que não estão sozinhas.
Quais foram as principais dificuldades sentidas na ajuda às populações?
A maior dificuldade foi a dimensão simultânea dos danos. Tivemos ocorrências espalhadas por todo o território, estradas cortadas, serviços essenciais como o fornecimento de água e eletricidade interrompidos, milhares de infraestruturas afetadas ao mesmo tempo e muitas famílias a precisar de apoio imediato. Quando tudo acontece em paralelo, a coordenação torna-se decisiva. Felizmente, o espírito de entreajuda dos bombeiros, das forças de segurança, das equipas municipais, das juntas de freguesia, das associações e dos voluntários foi absolutamente determinante para ultrapassar os momentos mais críticos.
Como classifica a postura do Governo no que toca à resposta à crise no seu concelho?
Numa fase inicial, tivemos alguma dificuldade em fazer passar para o exterior a real dimensão da tragédia. O concelho estava praticamente isolado e a prioridade absoluta era proteger pessoas e restabelecer serviços essenciais. Isso condicionou, naturalmente, a perceção nacional do que estava a acontecer em Leiria.
Creio que essa fase está ultrapassada. Hoje existe um reconhecimento claro da dimensão do impacto e estamos todos a trabalhar com o mesmo objetivo: garantir respostas rápidas e eficazes.
Dito isto, os desafios de reconstrução continuam a ser muito exigentes. Mais do que nunca, é fundamental manter o foco, simplificar procedimentos e assegurar que os apoios chegam ao terreno com a celeridade que as famílias e as empresas precisam, e isso exige um acompanhamento permanente por parte do Governo.
O meu papel é defender Leiria com firmeza, e foi isso que fizemos desde o primeiro dia.
O que fazia diferente se fosse agora?
Sempre que enfrentamos uma situação destas aprendemos. Ficou claro que serviços essenciais precisam de ser mais robustos. Quando postes caem e redes falham, as pessoas ficam sem serviços vitais e não podem ficar privadas semanas e semanas.
Se fosse agora, teria sido ainda mais exigente, não apenas com as entidades prestadoras, mas também ao nível da regulação. Quem supervisiona estes setores deve exigir padrões mais elevados de resiliência e capacidade de reposição rápida. No futuro, esses níveis de exigência terão de ser reforçados.
Já estão contabilizados os prejuízos?
Os levantamentos continuam a ser atualizados. Não temos números fechados, mas sabemos que são extremamente avultados. O impacto foi muito significativo, tanto nas habitações como nas empresas, nas associações e no espaço público. Mas mais importante do que o valor final é garantir que cada situação concreta encontra uma solução.
Quanto tempo será necessário para que a vida das pessoas, nomeadamente das zonas rurais, regresse à normalidade?
A recuperação leva tempo, sobretudo nas zonas e setores onde os impactos foram mais profundos. Há processos que exigem reconstrução física, mas também estabilidade económica e confiança.
O nosso objetivo não é simplesmente regressar ao que existia antes do dia 27 de janeiro. É ir além dessa data. É garantir que as pessoas recuperam as suas condições de vida, mas num território mais resiliente, com infraestruturas mais robustas e maior capacidade de resposta. A normalidade que queremos não é a de ontem, é uma versão mais forte do futuro.
A necessidade de acudir às consequências deste comboio de tempestades vai pôr em causa (ou atrasar) outros projetos que tinha no seu programa autárquico? Quais?
Sim, vai implicar ajustamentos e alguns atrasos. Tivemos de concentrar praticamente toda a estrutura da câmara na resposta à tempestade. Parámos projetos, redirecionámos equipas e colocámos todos os recursos ao serviço das pessoas. Era essa a prioridade absoluta.
Mas não podemos permitir que esta tempestade derrube a nossa ambição para Leiria. Podemos demorar um pouco mais nalguns projetos, mas não desistimos de construir um território mais moderno, mais competitivo e mais preparado para o futuro. A resposta à crise foi uma exigência; a afirmação e a ambição de Leiria continuam a ser o nosso compromisso.
Quais as medidas que são necessárias tomar para impedir que tragédias como esta voltem a ocorrer?
Não podemos impedir fenómenos meteorológicos extremos. O que podemos, e devemos, fazer é reforçar a prevenção, o ordenamento do território, a proteção das infraestruturas críticas e os sistemas de alerta e resposta rápida.
Este é um desafio estrutural que ultrapassa um mandato e até um Governo. Exige visão de longo prazo e investimento consistente na resiliência do território.
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