Desde o início da campanha eleitoral, tem sido uma das vozes mais ativas dentro da oposição a exigir a criação de uma comissão de investigação aos ataques do Hamas, até agora recusada pelo primeiro-ministro.
A política israelita foi sacudida desde o ano passado com a fundação do partido Yashar!, liderado pelo ex-chefe do exército Gadi Eisenkot, que depressa se tornou no principal adversário do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, nas legislativas de 27 de outubro.
Apesar de visto em muitas ocasiões como um homem desprovido de experiência política e a léguas do carisma do atual chefe do Governo, a rápida ascensão deste reputado antigo general de 66 anos tornou-se na possibilidade mais credível para destronar Netanyahu e suas alianças com a extrema-direita e os ultraortodoxos, envolvidas em mais uma cortina de suspeições avolumadas nas últimas semanas.
A votação é acompanhada de uma série de escândalos de corrupção visando Netanyahu e elementos próximos do seu gabinete, bem como revelações recentes sobre o seu comportamento antes e durante os ataques dos islamitas do Hamas em 07 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza.
Chefe das Forças Armadas entre 2015 e 2019, Gadi Eisenkot é um dos mais acérrimos críticos do líder israelita sobre a sua gestão do 07 de Outubro e a forma como conduziu a guerra no enclave palestiniano, onde o seu filho Gal morreu aos 25 anos em combate, em dezembro de 2023, tal como dois sobrinhos.
Desde o início da campanha eleitoral, tem sido uma das vozes mais ativas dentro da oposição a exigir a criação de uma comissão de investigação aos ataques do Hamas, até agora recusada pelo primeiro-ministro, apesar da pressão da sociedade israelita, em particular dos familiares das vítimas e dos antigos reféns levados pelas milícias palestinianas naquela manhã de outubro de 2023.
Ao mesmo tempo, Eisenkot assume-se como defensor de uma linha dura em relação ao Hamas, acusando o primeiro-ministro de “falhar completamente" o objetivo de eliminar a ameaça colocada a Israel pelos islamitas do enclave.
Em coerência, reconhece que terá uma política de continuidade sobre a necessidade de tirar o Hamas da equação no território, antes de prosseguir o roteiro de paz proposto pelos Estados Unidos. Na semana passada, disse que espera fazê-lo num ano e meio.
"Assumo publicamente este compromisso: nos 18 meses seguintes a tomar posse como primeiro-ministro, o Hamas deixará de estar à frente da Faixa de Gaza", declarou em conferência de imprensa junto da fronteira com o território
Do mesmo modo, segue uma abordagem de força em relação ao grupo xiita libanês Hezbollah, aliado do Irão, que por sua vez não pode prosseguir o seu programa nuclear de modo a obter uma bomba atómica contra Israel.
No Líbano, onde serviu durante a guerra de 2006 contra o Hezbollah, foi um dos arquitetos da "doutrina Dahieh", em referência aos ataques contra o bastião do Hezbollah nos arredores de Beirute e instalações civis suspeitas de albergar combatentes e armamento do grupo xiita, e que mais tarde ganharia uma expressão máxima em Gaza.
Embora defensor do músculo militar, Eisenkot condena Netanyahu por criar “um crescente e perigoso distanciamento entre os interesses americanos no Médio Oriente e os interesses israelitas”, propondo em alternativa um envolvimento de Washington e dos países árabes signatários dos Acordos de Abraão e outros que possam vir a sê-lo.
“Existem imensos riscos no Médio Oriente, mas também surgiu uma oportunidade única para construir uma iniciativa ‘multiteatral’ com o Governo americano: analisar toda a região, o que aconteceu nos últimos três anos e as oportunidades”, sustentou numa entrevista recente ao jornal The Times of Israel.
Sobre o conflito israelo-palestiniano, o recém-político, que desempenhou brevemente as funções de ministro sem pasta entre outubro de 2023 e junho de 2024 ao lado do líder que agora pretende derrubar, optou por cultivar a ambiguidade durante a campanha e afirma que não deseja governar cerca de três milhões de palestinianos. Mas também não concorda com um “Estado sem estado” nem com a presença de forças estrangeiras no território.
“Nunca disse que a solução são dois Estados para dois povos”, advertiu o antigo general durante a campanha eleitoral, acrescentando: “Há um conflito religioso-nacional muito profundo e qualquer pessoa que pense que um acordo pode ser alcançado agora está profundamente iludida”.
De modo mais claro, pretende que o exército assuma responsabilidades e acabe com a “anarquia” provocada pelos colonos violentos na Cisjordânia, tal como contesta a expansão dos colonatos israelitas nas áreas sob controlo da Autoridade Palestiniana.
O seu programa de dez pontos, que apresenta como centrista, defende também uma lei do serviço militar obrigatório que se aplicaria aos árabes israelitas e aos judeus ultraortodoxos, que estão atualmente isentos.
Esta questão é central para os israelitas, que não compreendem a controversa exceção concedida à comunidade Haredim, enquanto os reservistas laicos cumprem períodos consecutivos de serviço militar desde 2023.
"O Governo que opta por enfraquecer o exército no meio de uma guerra sem tréguas, enquanto os melhores e mais brilhantes filhos e filhas deste país são mobilizados em todas as frentes", criticou Eisenkot, visando pessoalmente Netanyahu, que “pode falar de patriotismo até se cansar”, mas “os seus filhos esquivaram-se ao serviço militar”.
Descendente de imigrantes marroquinos, Gadi Eisenkot cresceu em Eilat, no sul de Israel, antes de seguir a sua formação militar, de soldado raso a comandante da Brigada Golani, num percurso que contrasta com Benjamin Netanyahu, herdeiro de uma abastada família da elite asquenazi (comunidade judaica originária da Europa Central e Oriental), que passou parte da sua infância nos Estados Unidos.
Agora, segue a longa tradição de antigos chefes das forças armadas que migraram para a política, como Yitzhak Rabin e Ehud Barak, ou Benny Gantz, o seu antecessor na liderança do exército e com o qual chegou a conviver no partido Unidade Nacional, antes de se desfiliar e renunciar ao mandato de deputado.
De seguida, fundou o Yashar!, que significa justo ou íntegro, e depressa ganhou popularidade como um homem incorruptível, frontal mas também apaziguador, e fama de “anti-Netanyahu”.
Em menos de um ano, ultrapassou os partidos já consolidados no sistema israelita nas sondagens, incluindo o maioritário Likud, através da sedução do seu eleitorado moderado descontente.
“Se, Deus nos livre, a atual coligação de direita voltar a vencer, levará Israel a rumos sombrios que já podemos ver a desenrolar-se diante de nós”, comentou na entrevista ao The Times of Israel.
No dia 27 de outubro, prosseguiu, procura impedir a afirmação de “um país menos democrático, menos liberal e também menos judeu”.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.