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Gadi Eisenkot, o general que se fez político para destronar Netanyahu

Desde o início da campanha eleitoral, tem sido uma das vozes mais ativas dentro da oposição a exigir a criação de uma comissão de investigação aos ataques do Hamas, até agora recusada pelo primeiro-ministro.

23 de outubro de 2026 às 14:21

A política israelita foi sacudida desde o ano passado com a fundação do partido Yashar!, liderado pelo ex-chefe do exército Gadi Eisenkot, que depressa se tornou no principal adversário do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, nas legislativas de 27 de outubro.

Apesar de visto em muitas ocasiões como um homem desprovido de experiência política e a léguas do carisma do atual chefe do Governo, a rápida ascensão deste reputado antigo general de 66 anos tornou-se na possibilidade mais credível para destronar Netanyahu e suas alianças com a extrema-direita e os ultraortodoxos, envolvidas em mais uma cortina de suspeições avolumadas nas últimas semanas.

A votação é acompanhada de uma série de escândalos de corrupção visando Netanyahu e elementos próximos do seu gabinete, bem como revelações recentes sobre o seu comportamento antes e durante os ataques dos islamitas do Hamas em 07 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza.

Chefe das Forças Armadas entre 2015 e 2019, Gadi Eisenkot é um dos mais acérrimos críticos do líder israelita sobre a sua gestão do 07 de Outubro e a forma como conduziu a guerra no enclave palestiniano, onde o seu filho Gal morreu aos 25 anos em combate, em dezembro de 2023, tal como dois sobrinhos.

Desde o início da campanha eleitoral, tem sido uma das vozes mais ativas dentro da oposição a exigir a criação de uma comissão de investigação aos ataques do Hamas, até agora recusada pelo primeiro-ministro, apesar da pressão da sociedade israelita, em particular dos familiares das vítimas e dos antigos reféns levados pelas milícias palestinianas naquela manhã de outubro de 2023.

Ao mesmo tempo, Eisenkot assume-se como defensor de uma linha dura em relação ao Hamas, acusando o primeiro-ministro de “falhar completamente" o objetivo de eliminar a ameaça colocada a Israel pelos islamitas do enclave.

Em coerência, reconhece que terá uma política de continuidade sobre a necessidade de tirar o Hamas da equação no território, antes de prosseguir o roteiro de paz proposto pelos Estados Unidos. Na semana passada, disse que espera fazê-lo num ano e meio.

"Assumo publicamente este compromisso: nos 18 meses seguintes a tomar posse como primeiro-ministro, o Hamas deixará de estar à frente da Faixa de Gaza", declarou em conferência de imprensa junto da fronteira com o território

Do mesmo modo, segue uma abordagem de força em relação ao grupo xiita libanês Hezbollah, aliado do Irão, que por sua vez não pode prosseguir o seu programa nuclear de modo a obter uma bomba atómica contra Israel.

No Líbano, onde serviu durante a guerra de 2006 contra o Hezbollah, foi um dos arquitetos da "doutrina Dahieh", em referência aos ataques contra o bastião do Hezbollah nos arredores de Beirute e instalações civis suspeitas de albergar combatentes e armamento do grupo xiita, e que mais tarde ganharia uma expressão máxima em Gaza.

Embora defensor do músculo militar, Eisenkot condena Netanyahu por criar “um crescente e perigoso distanciamento entre os interesses americanos no Médio Oriente e os interesses israelitas”, propondo em alternativa um envolvimento de Washington e dos países árabes signatários dos Acordos de Abraão e outros que possam vir a sê-lo.

“Existem imensos riscos no Médio Oriente, mas também surgiu uma oportunidade única para construir uma iniciativa ‘multiteatral’ com o Governo americano: analisar toda a região, o que aconteceu nos últimos três anos e as oportunidades”, sustentou numa entrevista recente ao jornal The Times of Israel.

Sobre o conflito israelo-palestiniano, o recém-político, que desempenhou brevemente as funções de ministro sem pasta entre outubro de 2023 e junho de 2024 ao lado do líder que agora pretende derrubar, optou por cultivar a ambiguidade durante a campanha e afirma que não deseja governar cerca de três milhões de palestinianos. Mas também não concorda com um “Estado sem estado” nem com a presença de forças estrangeiras no território.

“Nunca disse que a solução são dois Estados para dois povos”, advertiu o antigo general durante a campanha eleitoral, acrescentando: “Há um conflito religioso-nacional muito profundo e qualquer pessoa que pense que um acordo pode ser alcançado agora está profundamente iludida”.

De modo mais claro, pretende que o exército assuma responsabilidades e acabe com a “anarquia” provocada pelos colonos violentos na Cisjordânia, tal como contesta a expansão dos colonatos israelitas nas áreas sob controlo da Autoridade Palestiniana.

O seu programa de dez pontos, que apresenta como centrista, defende também uma lei do serviço militar obrigatório que se aplicaria aos árabes israelitas e aos judeus ultraortodoxos, que estão atualmente isentos.

Esta questão é central para os israelitas, que não compreendem a controversa exceção concedida à comunidade Haredim, enquanto os reservistas laicos cumprem períodos consecutivos de serviço militar desde 2023.

"O Governo que opta por enfraquecer o exército no meio de uma guerra sem tréguas, enquanto os melhores e mais brilhantes filhos e filhas deste país são mobilizados em todas as frentes", criticou Eisenkot, visando pessoalmente Netanyahu, que “pode falar de patriotismo até se cansar”, mas “os seus filhos esquivaram-se ao serviço militar”.

Descendente de imigrantes marroquinos, Gadi Eisenkot cresceu em Eilat, no sul de Israel, antes de seguir a sua formação militar, de soldado raso a comandante da Brigada Golani, num percurso que contrasta com Benjamin Netanyahu, herdeiro de uma abastada família da elite asquenazi (comunidade judaica originária da Europa Central e Oriental), que passou parte da sua infância nos Estados Unidos.

Agora, segue a longa tradição de antigos chefes das forças armadas que migraram para a política, como Yitzhak Rabin e Ehud Barak, ou Benny Gantz, o seu antecessor na liderança do exército e com o qual chegou a conviver no partido Unidade Nacional, antes de se desfiliar e renunciar ao mandato de deputado.

De seguida, fundou o Yashar!, que significa justo ou íntegro, e depressa ganhou popularidade como um homem incorruptível, frontal mas também apaziguador, e fama de “anti-Netanyahu”.

Em menos de um ano, ultrapassou os partidos já consolidados no sistema israelita nas sondagens, incluindo o maioritário Likud, através da sedução do seu eleitorado moderado descontente.

“Se, Deus nos livre, a atual coligação de direita voltar a vencer, levará Israel a rumos sombrios que já podemos ver a desenrolar-se diante de nós”, comentou na entrevista ao The Times of Israel.

No dia 27 de outubro, prosseguiu, procura impedir a afirmação de “um país menos democrático, menos liberal e também menos judeu”.

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