Mariam Barghouti aponta que censura passa pela exclusão de palavras como "genocídio", "ocupação", "limpeza étnica" ou "milícias israelitas".
A jornalista palestiniana Mariam Barghouti denunciou esta terça-feira que continuam a existir palavras que não são permitidas nos meios de comunicação de maior difusão no Ocidente, apesar de a perceção sobre Israel "ter mudado" entre a população ocidental.
Entre outras, Barghouti deu como exemplos palavras como "genocídio", "ocupação", "limpeza étnica" ou "milícias israelitas".
Barghouti, nascida nos Estados Unidos, mas de família palestiniana, fez estas declarações numa conferência de imprensa no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB).
A também filóloga e socióloga, que recordou as palavras de George Orwell sobre o caráter revolucionário de dizer a verdade, defendeu que a forma como se nomeia o que acontece aos palestinianos serve muitas vezes para desumanizá-los.
"A censura está muito presente de várias formas. A mais evidente é a diretiva que recebem os correspondentes de meios como o The New York Times, a CNN ou a BBC, entre outros, para não utilizarem palavras como 'genocídio'", afirmou a jornalista, que foi, durante grande parte da sua carreira, repórter na Cisjordânia, local onde afirmou ser vista como estranha pela população local por falar inglês.
"Já me perguntaram se sou da Mossad [serviços secretos israelitas]", confessou a jornalista, que escreve para vários meios internacionais, desde a Al Jazeera em inglês ao The Guardian.
A jornalista afirmou também que a maioria dos repórteres tem também dificuldades em usar expressões como "limpeza étnica" ou "território ocupado".
E tudo isto, refletiu, apesar de existir uma dissociação entre a "perceção do público" sobre o Estado hebraico e "as cumplicidades de muitos governos com Israel".
"Creio que aí reside uma das grandes histórias, das grandes realidades, que devemos aprofundar enquanto jornalistas", sublinhou Barghouti, que apelou a que os correspondentes não se limitem a relatar o número de mortos palestinianos, mas que atentem na "realidade alargada" de como famílias e comunidades estão a desaparecer e de como a população "não tem um minuto de descanso do terror".
Relativamente ao seu trabalho na Cisjordânia, a jornalista reconheceu que "é emocionalmente muito duro" e que, enquanto mulher de ascendência palestiniana, está "consciente" de que cada dia em que sai à rua para investigar o que acontece "pode ser o último".
Um total de 809 pessoas foram mortas e 2.267 ficaram feridas em ataques israelitas desde o cessar-fogo de outubro passado na Cisjordânia, de acordo com dados do Ministério da Saúde. As autoridades confirmaram a recuperação de 761 corpos.
Desde o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023, os ataques israelitas resultaram em pelo menos 72.585 mortes e 172.370 feridos, de acordo com a contagem do Ministério.
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