Washington e Teerão assinaram um memorando de entendimento em 17 de junho, que implicou um cessar-fogo imediato e a abertura de negociações durante 60 dias para um acordo definitivo de paz, prazo que já expirou.
A diplomacia do Irão considerou esta terça-feira que a operação "Pária Económico", com a qual os Estados Unidos procuram romper os laços económicos da República Islâmica com outros países, é um "assédio sistemático" que afeta a soberania dos Estados.
"Quando um rufia declara que todos os bancos, empresas, portos e governos devem escolher entre obedecer aos caprichos de Washington ou enfrentar a retaliação americana, isso já não se limita apenas ao Irão", comentou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, na rede social X.
Esmail Baghaei observou que a operação de asfixia comercial, anunciada na segunda-feira pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, "procura aniquilar as normas mais fundamentais do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, ou seja, o respeito pela igualdade soberana e pela autodeterminação de todos os Estados".
Na mesma mensagem, o porta-voz da diplomacia de Teerão antecipou que "nenhum Estado que se preze e valorize a sua soberania e os seus interesses nacionais" estará pronto para aceitar "a normalização desta anarquia em grande escala e este assédio sistemático".
Baghaei afirmou ainda que o Canadá está a "aprender esta lição", em plena guerra comercial com os Estados Unidos.
O Irão declarou, antes do anúncio das sanções, que consideraria qualquer país que colabore "na guerra económica" dos Estados Unidos como "um inimigo".
O Qatar, um parceiro-chave dos Estados Unidos no golfo Pérsico, descartou esta terça-feira participar no novo pacote de sanções e insistiu que as partes devem reatar o diálogo e chegar a um acordo sobre o fim da guerra e a reabertura do estreito de Ormuz.
"Estamos a falar de sanções impostas por um lado contra o outro, não de sanções das Nações Unidas. Não temos nenhuma decisão a tomar a favor ou contra elas. A nossa prioridade é que todas as partes regressem às negociações para encontrar uma solução para esta crise", reagiu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros qatari, Majid al-Ansari, na sua conferência de imprensa semanal.
O porta-voz disse que o seu país mantém contactos, juntamente com outros mediadores, como o Paquistão, para incentivar os dois lados a retomar o diálogo, embora tenha referido que não tinha atualizações sobre este assunto para partilhar com os jornalistas.
"O que importa para o Qatar é que a navegação volte ao normal no estreito de Ormuz, que as exportações, a segurança energética e as cadeias de abastecimento sejam garantidas. Isto requer uma solução diplomática que tenha um resultado positivo para todos, incluindo o povo iraniano", reforçou.
Alguns aliados dos Estados Unidos no golfo Pérsico tomaram medidas económicas contra o Irão, como os Emirados Árabes Unidos, que no dia 19 de agosto anunciaram a suspensão, por tempo indeterminado, de todas as suas relações comerciais, intercâmbios e transações financeiras com a República Islâmica.
As autoridades dos Emirados declararam esta terça-feira que o Irão deve trabalhar com os países vizinhos para uma solução política para o conflito, sublinhando que a estratégia de atacar a região, em retaliação pela ofensiva lançada há quase seis meses por Estados Unidos e Israel, "falhou o alvo".
Segundo o conselheiro presidencial dos Emirados, Anwar Gargash, numa mensagem nas redes sociais, esta tática "agravou a situação de Teerão" e foi uma "decisão estratégica desastrosa", que "aumentou o seu isolamento e enfraqueceu a sua posição".
Neste sentido, o conselheiro salientou que a solução para a guerra "não reside em atacar os Estados árabes" do Golfo, mas sim "em trabalhar com eles de forma a facilitar a distensão e a procura de uma solução política para o conflito".
Washington e Teerão assinaram um memorando de entendimento em 17 de junho, que implicou um cessar-fogo imediato e a abertura de negociações durante 60 dias para um acordo definitivo de paz, prazo que já expirou.
Os dois lados voltaram entretanto aos confrontos pouco depois da assinatura do memorando e o Irão repôs as restrições que mantinha à navegação comercial no estreito de Ormuz - por onde passavam 20% dos bens petrolíferos mundiais antes da guerra -, enquanto os Estados Unidos voltaram a aplicar um bloqueio naval aos portos iranianos.
Ao mesmo tempo, o Irão e Omã, países vizinhos nas duas margens do estreito, debatem há várias semanas a futura gestão desta passagem, num acordo negociado à margem do processo de diálogo entre Washington e Teerão.
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Badr al-Busaidi, afirmou hoje que espera o anúncio "em breve" da criação de um corredor marítimo temporário no estreito de Ormuz, após uma nova reunião com o homólogo iraniano em Teerão.
"Tenho esperança de que em breve anunciemos um corredor temporário para o estreito de Ormuz, bem como medidas práticas para restabelecer a segurança da navegação", disse o chefe da diplomacia de Mascate em comunicado, após se reunir com Abbas Araghchi, acrescentando que "a gestão futura do estreito e uma solução permanente serão definidas oportunamente".
Qualquer "solução permanente" deve basear-se no memorando de entendimento assinado em junho por Teerão e Washington, acrescentou o ministro de Omã.
As negociações vão continuar para estabelecer um corredor permanente e definir a gestão futura do estreito, bem como um mecanismo para "fornecer os serviços de navegação e segurança necessários", segundo um comunicado divulgado pelas autoridades de Mascate.
Irão e Omã salientaram ainda a importância de manterem discussões conjuntas com outros Estados costeiros do Golfo.
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