Sondagens das presidenciais não são previsões e podem alterar comportamentos

Especialista António Gomes encara as sondagens como um instrumento para as pessoas "terem algum grau de esclarecimento".

14 de janeiro de 2026 às 14:39
Eleições Foto: Lusa
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O especialista em sondagens António Gomes admite que os estudos de opinião podem alterar os comportamentos dos eleitores, sublinha não devem ser encarados como previsões das eleições, mas como uma fotografia de um momento, dando informação sobre tendências.

"Estranhamente, eu relativizo as sondagens. As sondagens não são uma previsão. Nós perguntamos às pessoas 'se houvesse hoje eleições como é que votaria'. Pois bem, as pessoas dizem hoje que votam de uma maneira e amanhã dizem que votam de outra e nós apreciamos as tendências", afirmou António Gomes, sublinhando que "não se deve tentar extrair um poder preditivo".

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Em entrevista à agência Lusa, o sociólogo, professor universitário e diretor-geral da GfK Metris adverte ainda para uma sobre exposição às sondagens e a sua instrumentalização, e considera que as chamadas 'tracking polls' têm o mesmo rigor metodológico que uma sondagem.

"A 'tracking poll' tem este propósito: apreciar as tendências e perceber a evolução. Não há nenhuma razão para uma 'tracking poll' vs uma sondagem não ser fiável quando ela é feita com os mesmos cuidados metodológicos de uma outra sondagem qualquer", afirmou.

A diferença reside sobretudo no facto de a 'tracking poll' trabalhar com "uma média móvel de um número constante de entrevistas e que corresponde à recolha mais recente que foi realizada", apontou.

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No caso da 'tracking poll' da TVI/CNN, "no primeiro dia são feitas 200 entrevistas, ao segundo dia 200, ao terceiro dia 200" e "com as primeiras 600 extraem-se os primeiros resultados e são divulgados", sendo que "no quarto dia fazem-se 200 entrevistas e as primeiras 200 entrevistas feitas deixam de contar para o cálculo da intenção de voto".

Na lógica de uma sondagem ser uma fotografia de um determinado momento, na 'tracking poll' o propósito é "ter tantas fotografias", que são "quase como fotogramas de um pequeno filme".

"Se tiver muitas fotografias, eu vejo movimentos do que está a acontecer, e esses movimentos mais não são do que apreciar as tendências", ilustrou António Gomes.

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O especialista diz ser "claro que podem mudar o comportamento dos eleitores", considerando que nestas eleições presidenciais anteviu que se afirmariam como "protagonistas", porque houve um cenário de empate técnico "por de mais óbvio" até sexta-feira e que admite até poder persistir.

"O nosso processo mental tende a conviver mal com demasiadas escolhas e em consequência, uma das formas de as pessoas pensarem 'afinal, em quem é que eu devo votar', é precisamente olhando para o que as sondagens estão a dizer. Neste caso, as sondagens serviram ou podem ter servido para as pessoas repensarem as suas escolhas e olharem para elas e pensarem 'vai passar [à segunda volta] A ou B, então, tenho em consideração essa informação e essa informação pode condicionar-me'", sustentou.

António Gomes encara, assim, as sondagens como um instrumento para as pessoas "terem algum grau de esclarecimento", embora admitindo igualmente a instrumentalização dos estudos de opinião, que precisam de pedagogia para serem entendidos.

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"Sugiro que haja muito cuidado e rigor na sobre exposição das sondagens. Quando as sondagens são instrumentalizadas, isto é, há uma tendência para dizer 'estou à frente nas sondagens' ou 'estou atrás e elas não têm valor', falam mais das sondagens do que falam nas suas propostas políticas", apontou.

António Gomes referiu ainda do fenómeno da decisão tardia do voto, citando os estudos de Marina Costa Lobo sobre a construção dessa vontade, que têm vindo a mostrar essa tendência, incluindo em 2022, em que uma 'tracking poll' chegou a dar vitória ao PSD de Rui Rio quando as eleições deram uma maioria absoluta ao PS de António Costa.

"Há uma parcela do eleitorado que toma a decisão na véspera e alguns quase a entrar no local de voto. Se isso acontece, porque é que não pode existir uma diferença entre uma sondagem na sexta-feira e os resultados das eleições no domingo?", questionou.

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"Nestas eleições, sempre achei que, tão importante como os indecisos, eram os que admitem mudar", declarou, sublinhado que "são uma forma de indecisos" e que alguns mudam o sentido de voto por causa das sondagens.

Para António Gomes, "o dilema é um dilema complexo": "Qual é a alternativa? Não se fazem sondagens ou não se divulgam? Já sabemos que quando isso não acontece, os políticos e os candidatos, têm-nas. Quem não as tem é o eleitorado", afirmou, recusando a proibição. 

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