Foi entregue ao candidato um abaixo-assinado e ouviram-se testemunhos de quem esteve preso nesta e em outras cadeias durante o regime do Estado Novo.
O candidato presidencial António Filipe começou este domingo a campanha oficial na histórica fortaleza de Peniche onde recebeu apoio de ex-presos políticos, ouviu testemunhos da vida na cadeia e alertou para forças políticas que procuram "branquear o fascismo".
Transformada no Museu Nacional Resistência e Liberdade, a fortaleza de Peniche e antiga prisão politica (1934-1974), no distrito de Leiria, foi o local simbólico escolhido por António Filipe para dar o arranque à campanha oficial para as eleições de 18 de janeiro.
"Marca também algo que me distingue profundamente enquanto candidato e que creio que deve ser uma marca desta candidatura: a resistência ao fascismo, àqueles que querem branquear a história, querem branquear o que foi a ditadura fascista em Portugal e que terá na minha candidatura uma oposição muito firme", afirmou.
Ao falar em branqueamento especificou dirigir-se a quem "procura desvalorizar o que foi a ditadura fascista, procurando dar a ideia de que foi uma ditadura de brandos costumes" e, sublinhou, "não foi".
"Ninguém ignora que há forças políticas em Portugal que procuram desvalorizar o que foi a luta antifascista, procuram branquear o fascismo e, com isso, atacar a democracia e é contra todas essas forças que eu me apresento", frisou.
No interior da histórica fortaleza foi entregue a António Filipe um abaixo-assinado e ouviram-se testemunhos de quem esteve preso nesta e em outras cadeias durante o regime do Estado Novo.
"Venho aqui entregar o apoio de 159 ex-presos políticos, que estão aqui uma parte deles, com o nosso inteiro apoio à sua candidatura", afirmou Ana Abel, com 79 anos e que foi detida em 1965.
Ao som das palavras de ordem "fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre", acrescentou: - "os tempos são difíceis, mais uma vez a democracia e a liberdade apelam à nossa coragem política, à nossa determinação, à nossa profunda convicção de que os valores que nos levaram a lutar contra a ditadura são agora mais que atuais".
António Filipe agradeceu, destacou o "enorme significado" do apoio de "tantos presos políticos", garantiu que é um grande incentivo para a sua candidatura e salientou que "os resistentes antifascistas" são os seus heróis.
O museu é um lugar de memórias, ali estiveram mais de 2.600 presos políticos e, logo à entrada, falou-se na fuga de Álvaro Cunhal e de outros companheiros que aconteceu a 03 de janeiro de 1960.
Antonio Filipe destacou a importância do museu também para que as "novas gerações tenham a consciência do que foi o fascismo em Portugal e da importância que tem a luta pela democracia" e da "Constituição que dela emanou" e que o Presidente da República tem o dever de "cumprir e fazer cumprir".
José Marcelino, 86 anos, esteve preso em Peniche sem "nunca ver o mar" e lembrou a luta mais recente contra os que pretendiam "branquear a história" e transformar a antiga fortaleza numa "pousada para ricos".
"Procura-se dizer que o fascismo era uma coisa branda, não era branda. Eu, o meu irmão e o meu pai fomos presos no dia primeiro de maio, às 07:00, em casa e levados para a cadeia do forte do Caxias e foram cinco vezes que eu estive preso na cadeira porquê? Por lutar pela liberdade, para que todas as crianças e jovens tivessem acesso a ensino, à educação, contra a guerra colonial e censura", contou Eugénio Ruivo, 72 anos e que foi preso, pela primeira vez com 17 anos.
Quase no final da visita, questionado sobre se a visita à antiga prisão não reforça a ideia de que esta é uma candidatura de fação, como tem sido acusado por adversários, António Filipe disse que "homenagear aqueles que lutaram contra a ditadura fascista é uma causa que deve unir todos os democratas".
"Eu nunca tive a intenção de esconder a minha origem política, assumo-a com muito orgulho, mas tenho a noção e sempre disse que o papel do Presidente da República é fazer cumprir a Constituição, não é um cargo partidário", frisou.
Referiu ainda que "lutar pela democracia não é uma luta de fação, é uma luta que deve unir todos os democráticos e que deve estar muito presente" quando se vai eleger o Presidente da República.
Concorrem às presidenciais 11 candidatos, um número recorde e a campanha eleitoral decorre de 04 a 16 de janeiro.
Esta é a 11.ª eleição, em democracia, desde 1976, para o Presidente da República.
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