Na Ereira só se entra ou sai de camião ou barco. Mesmo isolada, a população está a votar para as eleições presidenciais.
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Na freguesia da Ereira, em Montemor-o-Velho, isolada desde quarta-feira pela água acumulada nos campos agrícolas do Mondego, a população, apesar de ter votado nas eleições presidenciais, dividiu-se sobre a motivação para a realização de eleições a nível nacional.
À porta da associação local, onde, além de funcionar uma mesa de voto, militares do Exército, fuzileiros da Marinha e bombeiros fazem as suas refeições e alguns pernoitam, várias pessoas partilharam com a agência Lusa as suas convicções sobre o ato eleitoral de este domingo, dividindo-se entre as que defenderam a realização das eleições e as que preferiram vê-las adiadas.
Sérgio Martinho, um dos primeiros habitantes da Ereira a ter a casa inundada pela água acumulada nos campos agrícolas a oeste da aldeia, votou ao início da tarde de este domingo, mas vincou que o fez “com um sentimento agridoce”.
“Tens a parte cívica e depois tens a outra parte, a parte amarga”, ilustrou, aludindo à cheia que afeta a população – e a sua casa, em particular – onde a água, desde o início da semana, já subiu mais de 1,5 metros.
“Se há dias em que ela consegue estagnar, há dias em que continua a subir e foi o caso desta noite”, revelou Sérgio Martinho.
“Se calhar devíamos ter adiado [as eleições] mais uns dias, se calhar mais duas semanas, até muitas localidades, de norte a sul do país, estabilizarem [face às estragos provocados pelas depressões Kristin, Leonardo e Marta]. Mas alguém entendeu que não fazia sentido adiar, e nós fazemos o nosso papel enquanto cidadãos”, argumentou.
À saída da secção de voto da Ereira, instalada na antiga extensão de saúde local, num local onde, aos sábados, ainda se fazem recolhas de sangue, Maria do Carmo alegou que, considerando o contexto nacional, “teria sido mais prudente, mais sensato, termos adiado as eleições”.
No entanto, no caso da Ereira, onde reside e vota, sendo uma freguesia que coincide com os limites da localidade, disse não ver o porquê de adiar o ato eleitoral, até pelo contexto atual, com a povoação isolada.
“Todos nós temos possibilidades de vir votar, moramos aqui e não saímos. A nível nacional não vejo a pertinência de massacrar as pessoas com mais este dever, tantos que estão a viver dramas autênticos. Mas no nosso contexto específico não vejo motivo, foi sensato avançarmos [para a votação]”, indicou.
Já Joaquim Claro Alves manifestou que foi votar agora como na primeira volta das eleições presidenciais: “Tradicionalmente tenho o hábito de vir, gosto de vir votar. E vinha sempre, independentemente de estarmos agora isolados ou não estarmos”, frisou.
Na associação Cultural, Desportiva e Social da Ereira, Filipa Machado faz parte de uma equipa de voluntários que, por estes dias, é responsável pelas refeições dos militares ali destacados.
Apesar de já ter a casa “com um bocadinho de água no rés do chão”, ou talvez por causa disso mesmo, o grupo serve refeições – pequeno-almoço, almoço e jantar - a quem veio ajudar a população.
“Está a correr lindamente, estes senhores estão cá para nos ajudar. Não sabemos quanto tempo mais vão ficar e precisam de se sentir acarinhados e minimamente em casa”, evidenciou.
Este domingo, o almoço incluía sopa de legumes e grelhada mista, além de um ‘buffet’ de sobremesas com fruta, pastéis e queijadas de Tentúgal.
Desde a noite de sábado que o acesso à Ereira se faz através de dois botes dos Fuzileiros da Marinha, embora, ao final da manhã e início da tarde, com a maré baixa, também um camião da Brigada de Intervenção do Exército tenha cumprido o percurso a partir de Montemor-o-Velho e volta.
Na ida, a reportagem da Lusa acompanhou quatro praças dos Fuzileiros, em duas embarcações, acompanhada de apenas uma pessoa, residente em Verride, a povoação fronteira à Ereira, do outro lado da ponte sobre o Mondego.
Os fuzileiros, oriundos de Carcavelos, Setúbal, Lagos e Funchal, estão nesta função de natureza humanitária pela primeira vez, e exercem-na com um cuidado extremo para com os passageiros de ocasião, seja no cumprimento de todas as condições de segurança – coletes salva-vidas incluídos, ninguém entra a bordo sem um – seja nas melhores condições para acomodar as pessoas nos ‘zebros’, as embarcações pneumáticas da Marinha.
O percurso de bote demora cerca de 15 minutos, durante o dia, um pouco mais à noite, com visibilidade mais reduzida: sai da ponte da Alagoa pelo chamado leito abandonado do Mondego, cruza campos agrícolas onde a água subiu mais de dois metros, e volta ao chamado “rio velho” antes de aportar junto à ponte velha, do lado contrário ao largo principal da povoação.
O regresso a Montemor-o-Velho foi feito num camião da Brigada de Intervenção do Exército, que acomodou - além dos quatro militares dos quartéis de Coimbra e Viseu em serviço hoje na Ereira – outros cinco passageiros.
Vicente, de 11 anos, regressava ao carro estacionado junto à Ponte de Verride, na companhia do pai, Eurico, depois de ter ido a casa, na Ereira, buscar roupas e outros bens. O rapaz, olhos brilhantes, enquanto via a sua aldeia afastar-se, ao longe, destacava a “experiência” de andar, pela primeira vez, num camião militar, idêntica à que teve no bote dos Fuzileiros, depois de um jogo de futebol – é defesa central - em Montemor-o-Velho.
O pai Eurico, desta vez, não votou “por falta de tempo”. Já António nasceu na Ereira, e mora na Figueira da Foz, onde vota. Foi à aldeia natal visitar os pais, que já têm água ao pé de casa. Lembra-se das cheias na infância, e recordou, com mais propósito e detalhe, a grande cheia de 2001.
Ao contrário dos ‘zebros’ que fazem um percurso sem paragens, a ‘carreira’ do Exército para nas pontes de Verride e da Alagoa, antes de rumar ao quartel dos bombeiros de Montemor-o-Velho.
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